Arquitetando o futuro com imaginação

Imaginária Beats ganha notoriedade no interior de SP apostando na criatividade

Imaginária Beats: André Luiz, Paulo Microfonia, Agacê, Jotaesse e Erickson

As diversas mudanças climáticas sabotaram meus planos de chegar ao destino pedalando. A chuva intermitente me deixou dúvidas sobre qual condução utilizar. Na pior das hipóteses, usar o transporte público foi a melhor opção. Atrasei 30 minutos. Acompanhados por long necks de Heinicken, talvez para aliviar o cansaço de mais um dia de trabalho, André Luiz, Júlio “S4NN” e Paulo “Microfonia” me aguardam pacientemente na aposentada plataforma da Estação Ferroviária de Campinas (transformada em centro cultural).

Os três são as cabeças pensantes — e os corpos falantes — da Imaginária Beats, uma das novas etiquetas independentes que tem se destacado na produção de trabalhos experimentais, descoberto talentos em batalhas de MC’s e ressuscitado as boas e velhas fitas K-7. “Teve uma galera que zoou, desmereceu quando falamos que iríamos lançar o K-7 do Impuro”, diz André, não poupando críticas à desorganização presente no rap nacional, especialmente na região de Campinas, representada nos tempos áureos por Sistema Negro, Face da Morte e Realidade Cruel. “É um negócio do rap nacional. Isso acontece em todos os lugares, mas aqui parece que é pior.”

Formado em música pela Universidade do Vale do Itajaí, André Luiz, sob a alcunha de Sopro Inverso, estreou em 2013 com EP(!) sódio Primeiro, LP idealizado por intermédio da lei de incentivo à cultura. “Ganhei uma verba para gravar, mixar e prensar o disco — 1000 cópias em CD e 200 em vinil (fabricados na República Tcheca).” O rapper, que em produções também assina como O Coletor, diz ser do tipo organizado, mas não disciplinado. Então, decidiu se unir à Microfonia, MC de Guarulhos, atualmente residente em Sumaré, e ao designer gráfico S4NN para executar os projetos que tem na mente.

“Eu precisava de alguém que tivesse vontade de mudar, e o Paulo estava fazendo um trampo consistente para caralho. Já o S4NN foi responsável por todas as artes visuais desde o meu primeiro álbum. Aí, chamei os dois para fazer o negócio acontecer. O intuito era divulgar nosso trabalho e também uma galera nova, além de fazer produtos diferenciados, finos”, ressalta ele.

Incomum, especialmente por adotar uma linha nostálgica ao estilo da icônica Stones Throw — inclusive, trazendo de volta as K-7s (da mesma forma que aconteceu nos Estados Unidos através de selos independentes e, mais recente, no Brasil com a Beatwise) -, a concepção do selo aguçou a curiosidade de muitos, e virou motivo de chacota por parte de outros.

“Alguns chegaram a tirar a gente: ‘Vocês vão fazer fita? Onde tem bagulho de fita hoje em dia?’ Agora pergunta se tem alguma unidade”, indaga André Luiz empolgado com o feito. “Quando divulgamos na internet sobre o lançamento, recebemos vários comentários dos caras falando que éramos loucos. Aí, passou um tempo, o De La Soul relançou o primeiro disco (3 Feet High and Rising) em K7, e, aquela mesma galera que falou um monte de bobagens, concordou que estávamos no caminho certo”, complementa Paulo.

Embora o mercado de música digital esteja em pleno crescimento, e conquistado o público jovem, para eles manter os artigos físicos em circulação é a principal regra. Segundo S4NN, esta é mais uma forma de fugir do óbvio, preservar a arte e se diferenciar. “É mais pela experiência sonora que esses materiais nos dão. Porém, também levamos em consideração o nosso gosto pessoal”, observa. O saudosismo é absoluto. Porém, há um consentimento de que, atualmente, os novos meios de compartilhamento de música são importantes para tornar o trabalho conhecido e captar verbas. “Tentar fugir disso é ridículo. Então, a nossa meta agora, além das coisas físicas, é correr atrás dessas novas ferramentas (de streaming)”.

Paulo Microfonia e André Luiz

Enquanto a troca de ideias sobre o futuro da música flui, acompanhada por sons de berimbau e cantos de capoeira, vindos de alguma sala da estação, André prepara artesanalmente um cigarro. Contrário do que eu pensava ser, o conteúdo enrolado no papel era tabaco. A cigarrilha é acesa, e as controvérsias que permeiam o rap voltam a ser o centro da conversa. “Outro problema do rap está na mídia especializada”, reclama André. “Na maioria dos sites e revistas, claro com exceção de alguns — como o Zona Suburbana -, só é publicado quem tem QI (Quem Indica), paga ou é foda mesmo. Eles não deveriam escolher ‘clubinhos’ para divulgar. Teria de ser imparcial.”

A problemática é extensa. Promotores da Batalha de MC’s, realizada na Manada Cultural, o trio decidiu encerrar as atividades, após quatro edições, por causa de desavenças, propagação de boicotes e reclamações de MC’s que não se contentaram com alguns resultados. “Nossa ideia nunca foi dividir. Porém, infelizmente, teve gente que não entendeu nossa proposta”, lamenta Microfonia. Felizmente nem tudo foi tragédia. Em meio às desavenças, o evento gerou bons frutos, tornando-se importante para a descoberta de potenciais artistas, como Negrito. “Ele foi o ganhador da segunda batalha e premiado com uma gravação (produzida pelo DJ Duh) e beat do Esquina da Gentil. Você precisa ver aquele moleque. O primeiro single dele, que será lançado em breve, ficou maravilhoso… uma paulada. Ele sabe desenvolver”, diz André deslumbrado.

Apesar das turbulências, aos poucos os patronos da Imaginária vão mostrando seus ideais. Quase um mês depois do nosso primeiro encontro, André e Paulo fizeram um show — intimista — para apresentar oficialmente o compacto lo-fi quadrado, de sete polegadas, composto pelas músicas A Jangada, O Homem, O Sopro, O Mar E O Céu — Ou Afunda Ou Avoa do Sopro Inverso, e O Revidede Microfonia, que recebe as participações de Erickson, RapSim e DJ Piá. “Fizemos duas mixagens, uma mono, específica para vinil, e a outra digital”, explica André. “O lo-fi era para soar como fosse nos anos de 1950. Mas quando ele chegou fomos surpreendidos, porque o áudio está com a mesma sonoridade que pegamos finalizado com o Duh… não perdeu nada.”

Transformar a imaginação em realidade demanda tempo, organização e, principalmente, dinheiro. Mas a disposição do pequeno selo supera os obstáculos do caminho. No minucioso planejamento, já constam agendados os projetos de JotaEsse, Derivados da Terra, Erickson, um álbum temático do Impuro, formado por cinco músicas de um minuto, produzidas a partir de samples do post-rock de 2001 e 2003, e o novo álbum do Paulo Microfonia. “já estamos com as agendas de pré-produção, com tudo marcado. Se tudo andar dentro dos conformes, vamos colocar nas ruas ainda neste ano. E tudo em material físico.”


_ publicado em 22/04/2015 no ZonaSuburbana

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