As várias faces de Itamar Assumpção

adailton moura
Jan 20, 2020 · 3 min read
Photo: Carol Mendonça

/> Publicado originalmente em 17/01/2020 no Sounds and Colours (inglês): https://soundsandcolours.com/articles/brazil/the-various-paths-of-itamar-assumpcao-a-review-of-pretoperitamar-49828/

Itamar Assumpção, artista livre. Artista brasileiro. Gênio, vanguardista, visionário. Mas incompreendido, considerado marginal, maldito. A verdade é que “Benedito João dos Santos Silva Beleléu/Vulgo Nego Dito, Nego Dito cascavél” era tão grande que não se encaixava nos padrões impostos pela indústria da arte. O espetáculo “PRETOPERITAMAR — O Caminho Que Vai Dar Aqui“ (produzido para comemorar os 70 anos do cantor/compositor/ator (1949–2003) manifesta toda essa grandeza em exatamente duas horas mescladas entre lutas, tristezas, sonhos, alegrias, dramas, suspense, críticas aos sistemas, comédia e música. Muita música da banda Ultramar, comandada por Curumim.

As mulheres são protagonistas. Juçara Marcal, Thalma de Freitas, Iara Rennó e Denise Assunção estão na linha de frente. E não poderia ser diferente, tratando-se de uma obra de Itamar Assumpção, um dos poucos a abrir espaço para que as mulheres estivessem à frente, não no papel de coadjuvante.

Não há um único Itamar. São 3 versões dele, que se revezam e dialogam entre si. A trama é bem amarrada. Começa pelo fim. Não segue uma linha do tempo lógica, apesar de segui-la. É ambíguo. E se não fosse assim, não seria sobre quem a obra se propõe a ser. Das risadas à comoção. Da morte à vida. “PRETOPERITAMAR” é um convite à aproximação da vida de um artista revolucionário. Te apresenta a saga de um homem negro preocupado com o seu legado. Comprometido consigo mesmo e com a família, a qual trabalhou para que tudo que criou com toda dedicação fosse usufruída unicamente por ela. Ninguém mais. Não se vendeu. Manteve sua dignidade intacta. Defendeu a liberdade. Exaltou a negritude, seus ancestrais. Criticou a mídia, o racismo, o sistema brasileiro. Cuidou das orquídeas. Deu comida aos pássaros. Coou seus cafés. Fez amizades. Andou pelas ruas da Penha, o bairro de São Paulo que se tornou quase o quintal da casa dele. Pagou caro por suas escolhas, mas não baixou a cabeça.

Elizena Brigo de Assumpção (a esposa) emociona com o seu relato sobre a vida ao lado dele, o amor dele pelas plantas e as transformações que fez no quintal da casa alugada para fazer um jardim. O parceiro de sempre Arrigo Barnabé também comparece para reafirmar tudo que já foi dito, do Nego Dito. Quem não conhece a obra de Itamar pode ter se perdido em alguns pontos do espetáculo — e considerar o musical extenso. Isso também instiga o expectador a se interessar ainda mais por ele. Tem a arquitetura de um documentário sem roteiro prévio. Poderia ser um livro que só tem sentido se lido de trás para frente. É excitante (alguém na plateia disse que se estivesse chapado a sensação seria ainda melhor). Tem singularidade. Te faz refletir sobre a vida, os propósitos, as responsabilidades. Mostra a necessidade de ser resiliente num Brasil de desigualdades, de não se curvar, defender ideias e ideais, de criar suas próprias regras, mudar as formas de jogar, hackear o sistema.

Mais do que reconhecer a generalidade de Itamar Assumpção [morto em 2003], “PRETOPERITAMAR”, coordenado por Anelis Assumpção e dirigido por Grace Passô, mantém vivo todo um trabalho afro-futurista feito para ultrapassar gerações. Isso porquê, todos os 9 discos produzidos em vida [muitos não reconhecidos pela crítica e público] foi preparado para um futuro em que Itamar não marca presença, mas está sempre presente.

* PRETOPERITAMA — O caminho que vai dar aqui, ficou em cartaz de 27 de novembro de 2019 a 19 janeiro de 2020. Não há informações se haverá outras temporadas do musical. Mas sabe-se que ainda há alguns projetos que serão executados ao longo dos próximos anos, inclusive um museu digital sobre a vida e a obra de Itamar Assumpção.

adailton moura

jornalista.

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jornalista. autor do livro “A Indústria da Música Gospel”. escreve no @ RAPresentando, Sounds and Colours, UpdateOrDie, Rapzilla, Per Raps e Gospel Beat.

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