Dois dias intensos no Lollapallooza Brasil 2016

Às 10h30 da manhã de sábado,12, na estação do metrô Portuguesa-Tietê, a fila para comprar bilhete estava gigantesca. A maioria dos passageiros tinham sotaques, estilos, “cores” e gêneros diferentes. Embarquei com a multidão. Do Tietê, desembarquei na Luz, embarquei novamente em direção a estação Pinheiros, onde fiz a transferência para o trem da CPTM que vai para o Grajaú — ex.

Na estação Interlagos, os vagões praticamente se esvaziaram. Geral apressa o passo seguindo as placas que indicavam a saída. Ao chegar à rua, ambulantes fazem ofertas: capas de chuva — uma 20, duas 10 -, cervejas, camisetas, coquetéis, ingressos. Alguns correm, negociam, fazem promoções. Já outros menos espertos, a Guarda Civil Metropolitana “enquadra” e leva a mercadoria. A cada dois passos um comerciante informal tenta ganhar o seu. Minha caminhada até o portão M do Autódromo de Interlagos foi causticante — pelo menos para um semi-sedentário.

Após uma revista minuciosa na mochila, na realidade bem minuciosa, pego a credencial e adentro os portões para acompanhar o Lollapalooza Brasil. Ingressei em outro mundo. A áurea dos indivíduos se diferenciava daqueles que estavam do lado de fora do Autódromo.

O mapa, distribuído a todo o momento, ajudou, mas demorei um certo tempo para me localizar. O céu estava prateado, porém o calor era intenso. Ao passar das horas, o mar de gente tomou conta do lugar — e consequentemente, as filas se tornaram rotina de quem queria ir ao banheiro, comprar comida e ir a algum “brinquedo”. No Stage Axe acontecia a performance do Ego Kill Talent. Passei direto em direção ao Stage Skol onde estava rolando o show do The Baggios. O duo sergipano, equivalente a uma banda completa, tocou canções da atual turnê mescladas com algumas inéditas. Quem não os conhecia ficou impressionado com a qualidade do blues de tempero nordestino feito por Julio Andrade e Gabriel Carvalho. Perdido, só consegui encontrar o Pedro Yank, editor-chefe do RAPresentando, 30 minutos depois de o contactar. O sinal de internet e celular “ia e vinha”. Instalamos “nosso QG” próximo ao estande da Chevrolet, perto da Roda Gigante e do Stage Onix.

O festival fez uma ação interessante: um estande no Lolla Market trocava lixo reciclável por camiseta. Para tanto, a pessoa retirava um saco vermelho, recolhia os materiais e trocava por uma camiseta alusiva ao Lollapalooza 2016.

Do topo da montanha, parafraseando o Dr. King, corri para ver Vintage Trouble no palco Axe, fixado no outro extremo do autódromo — 20 minutos a pé. Alarguei meus passos, peguei atalhos, sujei o tênis na lama da grama, segui o fluxo e consegui chegar uma música antes da última. Cheios de talento, energia e pura simpatia, o VT colocou geral para dançar ao som De uma mistura de funk, soul e r&b. Ao final da apresentação, os membros do grupo foram — literalmente — para os braços da galera. O baterista Richard Danielson chegou a ir para “pista” e posar nas selfies. Ao procurar desesperadamente por uma tomada para carregar os celulares, “descobri” o Lounge Sempre Livre — o saguão do paraíso: comida, bebidas, massagem, fotos e tatuagem à vontade (sem cobrança de mangos). Não consegui dar carga nos aparelhos, mas recuperei as energias.

Uma olhada rápida no line up para me atualizar. Perdi a apresentação do A-Trak. Na sequência RL Grime tomou conta das pickups. O Dj de Los Angeles fez o Stage Trident tremer com seus traps. O público foi à loucura quando Grime remixou alguns funks do Braza — a lá Sango — acompanhado por explosões dos canhões de papel distribuídos a frente do palco, teve quem se assustou.

Pouco antes do RL Grime sair de cena, fomos em direção ao stage da Skol onde às 18h35 entraria a banda australiana Tame Impala. A psicodelia tomou conta do lugar. As nuvens se juntaram e tudo indicava que cairia água, felizmente ela não veio — o piso de borracha especial colocado sobre a grama não impediu que o barro, formado pela chuva dos dias anteriores viesse à tona para colorir os calçados com uma cor avermelhada. Fumaças de todas as origens pairavam sob o ar gélido de São Paulo.

A aglomeração próximo ao palco não permitia movimentos bruscos, mesmo assim eles aconteceram. Pessoas querendo ir de um lado para o outro, enquanto outros dançavam em “outra dimensão” ou sacavam seus celulares para fazer registros — Mick Jagger tinha razão. A banda fez um show honesto e digno de segundo melhor desempenho do dia — quem viu pela TV afirma que os caras usaram playback. Os agradáveis graves invadiam as caixas e chegavam aos ouvidos impossibilitando segurar o corpo. Em 2015, o mais recente álbum deles, Currents, figurou nas várias listas de melhor álbum do ano. Ao vivo, eles deixaram o som ainda mais alucinógeno, somado aos efeitos visuais distorcidos que espocavam nos telões.

Quando a performance terminou, às 20 horas, parte dos expectadores se debandaram para ver Munford & Sons, enquanto a maioria se afunilava para ficar o mais perto possível da grade para acompanhar o headline do dia, Eminem. Para ver Slim Shady de perto, os ávidos fãs aguardaram por cerca de uma hora e meia até que o espetáculo se iniciasse. Não aguentei, voltei ao Lounge para reabastecer a “carne”. Na mega tela lá instalada acompanhei Munford & Sons fazendo as moças se emocionarem. Já o Die Antwoord fazia uma performance eletrizante e “macabra” no Axe, que estava a minha frente.

O Yank não arredou o pé do seu espaço em frente ao local em queEminemmandaria suas rimas acompanhado por seu time. Assim que o show do Die Antwoord se encerrou, observei “geral” correndo para ver o Eminem. Principal atração do primeiro dia — e talvez do festival — o MC de Detroit arrebatou o público e correspondeu todas as expectativas. Fazia um tempo que os “apreciadores” da música de EM aguardavam o seu retorno ao país. Ele esteve no Brasil em 2010.

A multidão aguardou — em pé — esperançosa por cerca de duas horas para que ele surgisse antes do horário marcado (21:30), até que às 21:10 sua banda entrou no palco e por ali ficou se aprontando por 15 minutos aumentando ainda mais a expectativa. Os últimos ajustes foram feitos. Há três minutos do horário definido as luzes se apagaram. Em seguida a banda começou a tocar e logo no instrumental de “Won’t Back Down” um grito de “Brazilllllllllllllllll” explode nos “falantes”, e eis que surge, de camisa branca junto de seu tradicional casaco com capuz, Eminem arrebatador fazendo jus ao título de “RapGod”. A multidão extasiada parecia não acreditar. Jovens choravam realizando um sonho de YouTube, e os “velhos” mostraram-se abismados com a presença de palco e os flows de Slim Shady. Das 33 canções do set list, apenas duas foram executadas completamente sem cortes (Not Afraid e Lose Yourself), as outras se reduziram entre 1 e 2 versos, funcionando quase como um grande medley de sucessos. Ele também fez questão de mostrar que não ficou parado nesses quase seis anos que esteve longe do solo brasileiro, apresentando seus hits collab como “Forever” do Drake, “Airplanes Pt. 2″ de B.o.B e a mais recente “The Hills” (remix) do The Weeknd.

O show foi todo feito para ser “UP”, como manda o enredo de encerramento de um mega festival. Todos os seus principais sucessos estavam presentes desde “My Name Is” a “Love the Way You Lie” de “Stan” a “The Monster”, além dos seus últimos singles“Phenomenal”, “Kings Never Die e “Detroit vs Everbory”apresentada junto com Royce Da 5’9, com quem também cantou “Fast Lane”, sucesso conjunto da Bad Meets Evil.

Durante toda apresentação o rapper e Mr. Porter, seu MC de apoio, fizeram questão de interagir com o público falando de como estavam, lembrando o quanto demorou para voltarem a fazer um show no Brasil. Em plena sintonia com a banda, Eminem mostrou o quão estava a vontade e descontraído, sua aparencia modesta retrata perfeitamente como o músico leva sua música e fama, até mesmo os cabelos descoloridos deram lugar a cor original. Slim Shady estava em casa, até tirou sua primeira selfie. Ao vivo, Eminem apresentou pela primeira vez “Fack”, uma das três inéditas contidas na compilação Curtain Call: The Hits de 2005.

Durante uma hora e meia, Eminem colocou o público para cantar do inicio ao fim cada verso apresentado. Esse show foi quase que sua reestreia, já que em 2010 pouco mais de 20 mil o viram debaixo de uma chuva torrencial.

Ao fim dos trabalhos, fomos, junto à multidão, em direção do portão G para tentar embarcar no Uber. Não tinha carro disponível. Acompanhamos “procissão” até a estação. Quando conseguimos entrar na estação, quase meia noite e meia, nos deparamos com outra fila para comprar bilhete — o Pedro não havia comprado o seu “passe” antecipadamente. A uma da manhã, fecharam estação. Duas horas depois conseguimos um Uber — que quase nos levou para Jaú.

Dia 2

No segundo dia, por conta das consequências do dia anterior e alguns imprevistos, cheguei ao Lollapalooza por volta das 14h40. O Pedro voltou para sua pacata cidade no Rio Grande do Sul. O tempo voou. Lamentei a perda do bombástico show da Karol Conka.

Parei por alguns instantes para ver a banda de reggae Seed. Minutos depois me encaminhei ao Trident. Gramatik já tocava, acompanhado de um guitarrista. Seleta, a pista não tinha aglomeração. Voltei ao Lounge, me refresquei, joguei pinball, tentei pela quarta ou quinta vez entrar na fila da tatuagem (bancada pela Chevolet), mas desisti. No meio de anônimos, muitos famosos marcavam presença. “Na minha”, observei MC Bin Laden sendo abordado a cada segundo para tirar uma foto. Não parecia estar tranquilo e favorável. Os Gêmeos, Projota, Negra Li (que nos atendeu com simpatia), e uma série de personas célebres passaram pelo Lounge Sempre Livre — apesar do baixo soldo, jornalista tem seus privilégios.

Meia hora antes do Alabama Shakes entrar no palco, iniciei uma peregrinação até o Stage Onix. Com o lento transito de pessoas, demorei um pouco para chegar no topo do morro. Logo desci, porque um mar de gente já tomava os lugares na frente do palco. Precisamente às 16h45, Brittany Howard, com seu longo vestido estampado, deu o “ar da graça” ao lado de Heath Fogg, Zac Cockrell, Ben Tanner, Steve Johnson e seus músicos de apoio. A simplicidade somada a potência da voz de Brittany empolgou o público que cantou junto todos as músicas do começo ao fim. Os movimentos de Brittany com sua guitarra, lembrou Sister Rosetta Tharpe, a primeira mulher a tocar guitarra na igreja. As imediações do stage ficou completamente lotada. Ao final de cada canção Brittany arriscava um “obrigada”. Por diversas vezes expressou o quão estava feliz por visitar o Brasil novamente. Por uma hora, a banda do Alabama tocou musicas do disco de estreia que os colocou no circuito “pop”, Boys & Girls, e do atual, Sound & Color, indicado ao Grammy na categoria de Disco do Ano. Tenho que dizer: o Alabama Shakes fez a melhor apresentação do festival, na minha visão de expectador.

Não querendo ter problemas — de novo — com o transporte na volta para casa, decidi antecipar a saída. Infelizmente não consegui acompanhar os shows do Emicida e Planet Hemp. Na saída pelo portão 9 presenciei a falta de paciência, educação e preparo dos “seguranças” contratados — creio eu — para orientar os participantes do festival. Outra coisa: A cidade de Sao Paulo ainda não está preparada para receber um evento de grande porte, que segundo os organizadores recebeu mais de 162 mil pessoas. Mas, esses são detalhes que serão resolvidos com o tempo, ou não. O Lollapalooza foi incrível. Tranqüilamente, retornei para Campinas — e para a realidade.

*Colaboração de Pedro Yank

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