#entrevista | X-Barão explica por que deixou a música gospel

Sem apoio, rapper faz duras críticas ao mercado evangélico.

No final de agosto de 2013, João Eduardo Cavalcante, o X-Barão (O Resgatador), anunciou em seu programa na rádio Gospel FM, que estava deixando definitivamente o Rap gospel. Na ocasião, sem muitas explicações, o rapper disse que a falta de espaço no mercado fonográfico e na mídia cristã foram os principais motivos para sua tomada de decisão.

Por telefone Barão contou em detalhes como chegou à conclusão de que era a hora de abandonar a cena que o consagrou, e iniciar uma nova fase em sua carreira musical.

Para ele, a música gospel “virou um comércio de grandes gravadoras e grandes shows que dão dinheiro”. Em meio às polêmicas geradas por sua decisão, ele explica que mesmo saindo da indústria musical cristã continua firme e forte no caminho de Cristo. “Eu amo o evangelho, mas eu não posso deixar de fazer aquilo que gosto, que é cantar”, afirmou. “Eu não posso abandonar os palcos por causa de um sistema criado dentro das igrejas.”

Dhaii — Vamos direto ao assunto. Por que depois de 13 anos no rap gospel você decidiu sair? Como chegou à conclusão que era o momento de parar?

X-Barão — Cara, o disco de 2008 vendeu bem, estava bem no mercado, mas de repente o cenário mudou. As igrejas pagam grupos e grupos, eles valorizam quem dá retorno financeiro. Há uns três anos eu estou fora do mercado, e estou vendo a desvalorização da minha arte, daquilo que sei fazer. São18 anos de carreira. Eu não tenho uma década de rap, são quase duas décadas de rap, né?! Assim… Os caras pegam nossa história e joga no lixo, eles valorizam o que dá dinheiro e quem tem um retorno, que tem o auxílio de uma gravadora. Hoje eu não tenho uma gravadora, então não consigo “brigar” com os grandes nomes da música gospel de hoje. Quando eu digo “brigar”, é ter o mesmo espaço que eles têm.

Estar mesmo patamar de mercado?

Mesmo eu tendo uma rádio na minha mão, a desvalorização dos grupos independentes dentro da igreja é muito grande. Eu não consigo mais fazer shows remunerados, começaram a boicotar os shows, entendeu? Não me chamam mais, pararam de tocar minhas músicas no rádio. Aí eu cheguei a conclusão que estava fazendo parte de uma mentira, porque se eu fui chamado por Deus pra cantar sobre o que Ele fez na minha vida, mas não conseguir viver da minha música, então é melhor parar. Há alguns meses eu estava passando por dificuldades financeiras, não tinha dinheiro pra nada.

Então chegou à conclusão que seu trabalho ficou desvalorizado por não ter mais convites pra fazer shows? Se fizermos uma análise, a venda de CD’s caiu bastante nos últimos anos, e a maioria dos artistas estão tendo melhores remunerações com shows.

Não existe mais evangelismo na periferia, favela, cadeia, sabe? Ninguém quer ir mais pro morro fazer evangelismo, hoje os artistas cristãos querem somente ir tocar nos grandes festivais e receber grandes cachês. Eu queria participar disso também, mas ao mesmo tempo continuar no gueto. Eu acho que o gueto, as favelas e todas as comunidades precisam do rap gospel. Precisa ter o som da música gospel lá dentro pra poder resgatar, pra tirar (os jovens da criminalidade). Infelizmente, isso virou um comércio de grandes gravadoras e de grandes shows que dão dinheiro. Eu também preciso de dinheiro, entendeu? Preciso de dinheiro pra sobreviver e, até mesmo, pra poder continuar gravando meus discos, gravando vídeo clipe. Mas como eu não estava sendo convidado pra tocar, onde iria arrumar dinheiro?

Deixar o rap gospel por este motivo não é retrocesso? Um sinal de que está desistindo do ministério por não ter mais retorno financeiro?

Eu quero deixar bem claro pra todo mundo, principalmente para as pessoas que compraram meus discos, que foram aos meus shows e me viram como exemplo de vida, que eu amo a vida de todos, e que eu não vou deixar de cantar o que eu sempre cantei, pelo contrário, eu vou fazer a coisa de outra forma. Na última reunião que tive (com a lideres da igreja Renascer em Cristo), falaram que minha música não era o padrão gospel; que o meu rap não tinha mais padrão das coisas que tocavam hoje; que eu tinha que mudar minha essência. Falaram que eu não ia tocar mais nas grandes rádios, porque falava muito de periferia, muito de crime, muito de rua. Mas eu sou da rua, eu faço parte de projetos de Lowrider, eu faço parte de bike clubes, eu vivo isso 24hs. Agora, eu não posso pegar tudo que tenho, o dom que Deus me deu e ser manipulado pra vender discos. A intenção não é só vender discos, é fazer música que transforme a vida das pessoas, entendeu? Eu penso assim, ninguém vai mudar minha ideologia. Eu não vou me vender pra cantar música só pra igreja, eu não vou me vender pra poder entrar em um sistema criado pelas grandes gravadoras evangélicas e os grandes ministérios cristãos. De onde eu vim não me permito viver desse jeito, eu tenho uma história… (grupo) Versos ao Verbo, Cirurgia Moral, Hálibe, GOG, Provérbios X… É uma história, sacou? Pra chegar hoje, e os caras jogar no lixo tudo aquilo que eu conquistei nos meus quase 20 anos de carreira, só por que minha música pra eles não vende. Foi por esse motivo que eu decidi abandonar o rótulo de rap gospel e continuar fazendo música independente de negócios.

Como será essa (sua) nova maneira de pregar a palavra de Deus?

Agora, eu vou levar a palavra de Deus… Ontem (01/09) teve show em homenagem ao Sabotage no Boqueirão e eu cantei as minhas músicas, como sempre cantei, como sempre ministro. Conto um pouco meu testemunho, conto da minha vida, troco uma ideia com a molecada da favela e tal. Eu vou continuar fazendo isso da mesma forma, só que agora eu vou fazer algo que eu sempre quis fazer. Vou fazer rap mais pesado, poesia, ideia mais pesada, mais rua… X-Barão vai ser muito mais rua, vou falar mais de problemas sociais, mais gueto. Vou mudar a produção, fazer um show mais dançante, esse lance que está acontecendo hoje, entendeu? Vou seguir a linha dos sons que estão rolando no mundo inteiro, como Drake, 2 Chainz, Rick Ross. Se eu fizer esse tipo de som dentro da igreja as pessoas não vão aceitar, porque é muito pesado pra igreja. As rádios, igrejas, pastores e bispos acham isso. Eu não faço música só pra tocar na igreja, eu faço música para que as pessoas curtam. Vou continuar evangelizando da mesma forma que sempre fiz, mas de uma forma muito mais pesada, com uma mensagem e apologia muito mais abrangente.

A música gospel perdeu a essência? Com a ascensão na mídia os cantores cristãos perderam o foco?

Cara, eu vou ser bem direto em relação a isso. Quando eu comecei em 1999, período que me converti em Brasília e entrei para o Provérbio X… Naquela época tinha muito evangelismo, muitos grupos indo nas periferias e, não era só rap, tinha grupos de louvor e adoração, eu via grandes grupos fazendo evangelismo de uma forma que era de verdade mesmo. Hoje estes mesmos grupos não vão mais nas pequenas igrejas que iam há 10 anos, por quê? Por que essas igrejas não possuem condições de pagar o cachê. Quando você liga pra contratar um artista de “grande porte”, o assessor dele vai falar com você: “Olha, são 10 passagens de avião pra banda, mais hotel de pelo menos três estrelas e mais 15 mil reais”. Pelo menos esse é o esquema de algumas bandas que eu sei que funciona assim; e aí, o cachê é 15 mil, 30 mil, 40 mil às vezes, sendo 50% no ato da contratação e os outros 50% antes de subir no palco. Ótimo, todo mundo quer estar vivendo isso. Eu quero deixar bem claro que também gostaria de estar vivendo isso, mas esse sistema só funciona para alguns, àqueles que eles acham que dá renda. A gente que é independente — que muitas vezes tem mais talento que eles — fica com R$ 500, uma Kombi pra ir te buscar. E um camarim que mal tem água pra gente beber… Essa é a grande realidade da música gospel brasileira.

Falta investimento na cena cristã independente?

As bandas independentes não têm estrutura, nem apoio dos grandes ministérios, agora as grandes bandas vão ter e sempre terão, porque dão retorno financeiro… Aí eu pergunto: É almas? Vidas salvas? Ou Business (negócios)? Se for Business é melhor cantar música comum e não ter compromisso com a igreja. Demorei pra tomar essa decisão, mas muitas coisas aconteceram na minha vida e eu também decidi me desligar do Ministério Renascer em Cristo. Agradeço por tudo que o Apóstolo Estevam (Hernandes) fez por mim, eu amo a vida dele, a Bispa Sônia, o Asaph que é meu amigão, a Bispa Fernanda, o Bispo Tid… Mas eu me desliguei da Renascer em Cristo. Por isso eu entreguei o (programa) Gospel Black, não seria justo eu ficar com o programa e não fazer mais parte da igreja (que administra a Rede Gospel de rádio e TV). Agora vou procurar outro ministério pra louvar e adorar o meu Senhor. Também vou lançar um disco de rap, sem rótulos, sem compromisso com homens e com aquilo que eu acredito. Eu continuo fazendo os projetos na cadeia. Tenho alguns projetos em comunidades, faço parte de todos os saraus de São Paulo, estou envolvido em todas as comunidades. Tenho participado de vários projetos, muitos amigos tem abençoado minha vida. Muitos deles falaram: “Barão, você é um cara da ora, não para”. A princípio eu ia largar tudo, parar de vez.

Realmente quais são seus novos projetos? O que você pretende fazer daqui pra frente?

Meus novos projetos… É procurar um ministério novo, pra voltar ao primeiro amor. Continuar adorando a Deus, porque sem ele você não chega a lugar nenhum. E nunca mais pensar em parar de cantar. Mas eu tenho um disco praticamente pronto, e eu vou montar um grupo com mais um rapaz que estava preso. Ele era da igreja, desviou, foi preso e agora voltou. Eu e ele vamos montar um grupo pra lançar novos trabalhos. Eu quero deixar bem claro: eu não desviei, eu não deixei a fé, eu não traí Jesus. Vou continuar fazendo música. Hoje tem um monte de músicos cristãos que não fazem música gospel. O Happin Hood é evangélico e não vai lançar disco gospel, entendeu? Hoje pra mim o rap vai ser profissão, mas sem perder minha essência, minha verdade, que é servir Jesus. Agora vou fazer rap dançante, rap rua, vou pro jogo mano, é o jogo, então se é o jogo vamos jogar… Mas vamos jogar pra ganhar.


_ publicado em 01/10/2013 no GospelBeat.com.br

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