A arte de se sentir em casa em qualquer lugar

Alessandra, a hippie, acredita que tudo que se apresenta é o necessário. Se o que se apresenta causa incômodo ou sofrimento (o que poderia ser classificado como "ruim", mas eu não vou por aí) eu penso que é porque eu tenho algo a aprender com isso (não há experiência que não sirva pra nada, por mais desagradável que seja — já disse eu mesma). Se o que se apresenta causa prazer e alegria ("bom"), maravilha, que presente do universo, deixa eu me divertir. O resultado de viver assim é que eu não ando escolhendo muito o que faço nessa viagem. Eu tomo uma direção geral e saio andando, e aí vou indo pra onde o caminho leva. Quer me levar num bar mexicano barulhento em que se fuma dentro? Vaaaaamo (não durei muito lá dentro, mas fui ver qual era). Quer me levar pra falar na TV no meu espanhol capenga? Vaaaamo (achei engraçado, não falei muito, mas tbm nem fiquei muito envergonhada). Nesse filminho da vida o meu papel não é o de diretora. O universo sabe mais que eu. Deixa a vida me levar.
Eu deixo. Então lá ia eu pelo mundo em direção a Durango, norte do México, só pra visitar meu amigo Sérgio. E ele me botou pra trabalhar, me convidando pra dar uma palestra sobre agricultura urbana. Isso abriu uma série de acontecimentos interessantes. Pra começar, a minha presença foi um catalizador de encontros entre pessoas que têm vários interesses em comum mas que não se conheciam. Eu não sou mais sabida que ninguém lá, devo ter ensinado só uma coisa ou duas (e aprendi muito mais), mas o mais importante foi que se reuniram — com o objetivo aparente de me ver falar, mas com um resultado bem mais impactante.
E, a partir da palestra, eu: fui convidada para jantar em um restaurante chique e comi a melhor comida da viagem inteira; visitei um rancho com uma casa de novela e uma plantação de nopales; fui conhecer o terreno onde será bioconstruida uma casa-abrigo para crianças indígenas, participei de um mutirão de limpeza de uma barragem; conheci uma destilaria de mezcal (a "cachaça" mexicana, feita de magueye, ou agave); participei de um temazcal.
Curti umas coisas mais que outras (não me importo muito com bebidas alcoólicas), e esse "participei de um temazcal" assim dito tão casualmente e no fim da frase disfarça a falta de palavras para explicar uma experiência tão incrível. O temazcal envolve um monte de gente junta em volta de pedras quentes em uma cabana com chão de terra — clica aqui que a Wikipedia te explica exatamente, e pra mim fica só o relato dos detalhes, mas especificamente dois.
- O mestre temazcalero, Jaguar (que tem um nome na língua Nahuatl que eu não sei decifrar) é vegetariano. E isso permeou todo o ensinamento dele durante a cerimônia. Sabemos que Alessandra, a hippie, trabalha com sinais do universo — que são como placas de trânsito. Se eu tomo uma direção e deixo a vida me levar, tenho que prestar atenção nos sinais. Quer mais sinal que isso? Sinal de quê? Alessandra a hippie acha que é de que está no caminho certo.
- O acolhimento de uma mulher. Eu estava sentada bem no centro do círculo, colada nas pedras (que recebem ervas e água e então soltam vapor). São horas sentados no chão de terra (que vira barro com a água), e as pessoas ficam mudando a posição das pernas pra achar algum conforto. Numa dessas, a moça atrás de mim abriu as pernas e meio que me envolveu. Algo muito casual, quase sem me tocar — mas eu me senti abraçada por aquela pessoa. Aquele corpo me deu suporte emocional e espiritual. Aquele corpo, mesmo sem que ela soubesse, me acolheu ali durante aquelas horas. Me ancorou.
(Os corpos são importantes pra mim. Dançar e abraçar. Eu preciso sentir o meu corpo no limite dos outros corpos).
Quando fomos para a destilaria de mezcal, que era em um rancho bem longe, em outra cidade, por uma estrada muito cheia de pedras, paramos em um vilarejo para comer gorditas. As gorditas são uma espécie de pastel, só que assado em uma chapa e feito de farinha de maíz (milho). Um negócio tri bom, e tem recheios que são naturalmente vegetarianos: nopales (o cactus típico do México) e rajas (uma espécie de pimentão). Tudo muito "picoso", é claro.

Pois bem, ia dizendo, tava lá eu no meio do interior mexicano, em uma banquinha de gorditas, cercada por gente que nunca tinha visto mais gordos (a não ser meu amigo Sérgio, que conheci em abril e com quem convivi por meros 8 dias antes de ir me hospedar na casa dos pais dele em Durango, ou seja), e me sentindo COMPLETAMENTE ACOLHIDA. No meio de completos estranhos. A senhora que cozinhava as gorditas, o marido dela, o nosso motorista, sócio da destilaria, os amigos do meu amigo. Desconhecidos totais. E eu ali me sentindo como se estivesse na sala da minha casa em São Paulo, com os bichos e a roomate.
Hoje, já de volta na Cidade do México, fui tomar vacina da febre amarela pra continuar a viagem para a América Central. Tava lá eu andando pelo bairro e pensando mas gente, não tem diferença eu tomar a vacina em São Paulo, em Austin, aqui — eu tô aqui (caminhando na rua nessa cidade enorme onde não conheço praticamente ninguém), ontem eu tava em Durango (com melhores-amigos-imediatos), há duas semanas eu tava em Austin (com amigos de infância), há um mês em casa em São Paulo — e eu me sinto em casa igual em qualquer um desses lugares.
Eu estou feliz e contente. Aqui. Do mesmo jeito que estaria se estivesse em São Paulo. Sabe por quê? Porque o meu AQUI é o AGORA.
E assim não importa muito onde estou geograficamente.
Ontem Sérgio me perguntou como eu estava. E eu disse: me sinto segura, protegida, acolhida e embraced pelo universo. E as pessoas, vocês, são a representação física desse abraço do universo.
As pessoas são o universo me abraçando.
Somos todos um. Somos, gente. Eu não tenho medo de mim e nem de ti, que é parte de mim. In lak’ech, Hala ken, como diziam os maias e eu aprendi ontem no temazcal. Eu sou outro tu, tu é outro eu.
E vamos juntos no amor ❤
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A versão interna da viagem que estou fazendo pelas Américas em busca de projetos de agricultura urbana, agroecologia e permacultura, cujas matérias estão sendo publicadas na herbivora.com.br e as fotos no Instagram @alenahra.

