A Guatemala enfiou um punho no meu peito

Alessandra Nahra
Jul 22, 2017 · 8 min read

…e arrancou meu coração, mas antes de arrancar ficou ali uns dias torcendo e apertando.

Se tem uma coisa que essa parte da viagem me mostrou é o quão mimada eu sou. Filhinha de papai. Guriazinha de condomínio. Que desceu pro play toda desavisada, ah que lindo é o mundo, vou ali ver umas agriculturas nos irmãos centroamericanos. Tava me achando o máximo andando de pé em caçamba de pick up por 3 quetzales, só os locais e eu a única estrangeira. Ajudando a fazer horta na periferia de uma cidade minúscula com mulheres que não sabem nem ler. Menstruada usando copinho num lugar em que o banheiro é seco. Oh yeah, veja que durona que eu sou, como eu viajo no modo roots.

Turista no terceiro mundo. Pode escolher desembarcar e voltar pro restaurante que tem tofu. Nunca passou perrengue na vida. Merece esses tapa na cara. E tá pouco ainda.

Estou aprendendo muitas coisas de que talvez eu já tivesse alguma pista caso tivesse feito uma faculdade menos alienante que jornalismo na PUC, ou pelo menos tivesse lido As veias abertas da América Latina ANTES.

Agora, por que ninguém me avisou que tinha tanto bicho morto de fome na Guatemala?

Os cachorros mais magros que já vi vivos. É cultural, dizem. A cultura é diferente, aqui as pessoas não ligam. Os bichos estão ali morrendo de fome e é só mais um fato da vida, ninguém faz nada.

A gente (o povo da proteção animal, os que tratam bicho como família, etc) é muuuuuuuito mimado no Brasil. Eu sou. Eu que acho que tudo que é cachorro e gato tem que ser tratado, castrado, alimentado, acolhido; eu tenho standards muito altos pra animais domésticos.

Me disse o russo com quem trabalhei por alguns dias na fazenda de orgânicos: "os cachorros sempre conviveram com o homem se alimentando dos restos". Pra mim, os bichos daquela vila estavam morrendo de inanição. Ele não achava que estavam assim tão mal. Estávamos discutindo qual seria a solução mais humanitária. Chegamos a uma conclusão: se não dá pra recolher, castrar, encontrar adoção, o melhor seria a eutanásia.

Eu não acho que a vida é um valor absoluto. Como alguns sabem, adoro a vida, daora a vida, dou graças todos os dias. Mas para uma vida miserável de inanição, doença, atropelamento, descaso, violência, considero que a morte rápida e indolor pode ser uma saída aceitável.

Eu fiquei de fato muuuuuuuuito desesperada com os cachorros daqui. A ponto de chorar na rua vendo passar uma fêmea esquálida com as tetas cheias, indo procurar comida nos restos da feira. E me imaginei dando uma injeção letal pra pelo menos um cachorro que passou por mim. Será que se vende isso na loja de ração?

Eu quis ir embora correndo. Não quero mais ver isso.

E aí:

  1. Tudo que aparece é o que eu tenho que lidar com. Obviamente eu tenho que ver, sentir, e lidar com ISSO: abandono, sofrimento, desacolhimento, fome, desamparo.
  2. Repare que abandono, sofrimento, desacolhimento, fome, desamparo quem tá vendo sou EU. A situação é neutra. Existem uns cachorros. O russo não acha que estejam tão mal. Eu acho tudo isso aí de cima. EU que tô dizendo isso. EU que tô vendo isso. Isso só existe objetivamente dentro de MIM.
  3. Serviço é o que se apresenta. Mas é muita presunção achar que eu vou conseguir resolver tudo, agir sempre, atuar em todas as oportunidades — “oportunidade”: quem disse que isso é uma? Às vezes só vou poder olhar, sofrer, chorar, sentir.
  4. Isso: às vezes o que se apresenta não é pra que eu aja sobre. Às vezes o que se apresenta é pra eu ir pra dentro e só. Não é pra agir, pra fazer. É pra não-fazer. Nem sempre eu tenho que recolher o lixo do chão, limpar o banheiro, retirar do mar a sacola de plástico. Às vezes o agir me desvia, me impede de sentir e integrar. É uma distração. É um drama. É um sedativo. Tem gente que bebe, usa outras drogas, come demais, compra. Eu tento consertar as coisas (e como, e bebo, E consumo). É uma forma também de controlar, de tentar controlar. Saio fazendo coisas com o objetivo de consertar algo, ajudar alguém, melhorar o mundo. Talvez tenha sido pra entender exatamente isso que eu vi o que eu vi na Guatemala.

Me apaixonei por duas cachorrinhas filhotes no instituto de permacultura. A permacultura e os animais domésticos têm uma relação meio mal resolvida — pelo que vi até agora de permacultura não-urbana. A permacultura trata os animais como um recurso e tudo no sistema têm uma função. Bem, cachorro e gato não têm muita função a não ser comer e cagar. Cachorro e gato não dão leite, não põem ovos, não ciscam, não são socialmente aceitos como comida aqui no ocidente. Pra permacultura não-urbana (que vi até agora) cachorro e gato são problema: espantam e comem os animais silvestres, os ovos de pássaros, mexem na compostagem e na horta. No entanto cachorros e gatos existem, e muitas vezes já estão dentro do biossistema — então não adianta fazer de conta que não estão, ou querer que não estejam. São coisas vivas: é preciso leva-los em consideração no desenho do biossistema (sistema de coisas vivas). Ou então agir como na minha fantasia da eutanasia. O que não dá é pra deixar os bichos ali morrendo de fome. Ficar olhando um ser faminto sem alimentar.

não estranhe se elas aparecerem no Brasil

Me apaixonei pelas duas filhotinhas e caí na asneira de perguntar de quem eram, quem alimentava. Me disseram que começaram a alimentar a mãe quando estava grávida e então ficou, mas que não querem cachorros no instituto. E que então não é pra alimentar mais.

Na outra fazenda de orgânicos onde eu estava tinha uma cachorra de rua que entrava, subia na mesa e roubava comida dos hóspedes. Fui “pega” alimentando uma vez e levei um xingão. Não sei vocês, mas eu não consigo ficar indiferente vendo um ser com fome. Me pedem comida e eu dou, ponto (a não ser quando é um humano onívoro querendo comer minha última coxinha vegana sendo que ele tem todas as comidas dele ali).

Me apaixonei pelas duas filhotinhas e comecei a pensar em mudar a viagem, comprar passagem pra elas irem pro Brasil, a armar um jeito de alguém daqui levá-las pra casa. Dei um monte de comida — banana, abacate, arroz com legumes, mandioca. Comprei remédio pra verme, pulga, carrapato. Comprei spray pra cicatrizar uma ferida que a mãe tem. Falei com deus e o mundo. Descobri mutirão de castração. Imaginei um futuro tenebroso pra elas — como a fêmea raquítica que vi na rua com as tetas cheias procurando comida nos restos da feira. Se ao menos elas fossem machos... Me senti presa num lugar sem saída. Chegou a faltar o ar. Era terça, eu tinha que ficar até sexta. Na quarta me refugiei na vila, no restaurante com internet, não queria ver as cachorrinhas (na primeira noite elas dormiram na minha cama). Na quinta foi pior. O desespero bateu e apareceu até um vilão — uma criatura horrenda que maltrata as cachorras pra que elas vão embora.

Na sexta bem cedo dei pra elas o resto de ração que eu tinha comprado; a cachorrinha que mais se apegou a mim me seguiu, tive que espantar, ela lá com aquela carinha, parecia que sabia que eu tava indo.

E fui embora com um rasgo no meio do peito.

Eu não costumo “pedir” coisas nos meus rezos, porque 1) acho que tenho só que agradecer e 2) não acredito que o universo atende pedidos, faz favores, beneficia esse ou aquele. Mas na última noite lá (que eu passei praticamente acordada pensando no que eu ia fazer) eu pensei "bem que podia aparecer uma ajuda", e daí me veio a frase “ask and you shall receive” e me dei conta que como é que eu quero ajuda se eu não peço. Daí no rezo da manhã eu pedi ajuda pra me ajudar a ajudar as cachorras. Tava numa choradeira só, os cachorros só abriram a porteira; o reconhecimento do meu privilégio de elite branca — e a vergonha que comecei a sentir — tava fazendo o resto. Pra ir embora do lugar peguei uma pick up, a gente vai de pé atrás, tava lotada, umas senhorinhas levando hortaliças pra vender na feira da cidadezinha. Depois peguei uma lancha pra atravessar o lago e voltar pra cidade onde eu ia pegar a van pra voltar pra capital, e na lancha pensei “cara, tô precisando falar com alguém, bem que eu podia fazer um amigo, qualquer um, podia até ser gringo”.

Bem, eu chego em Panajachel e vou direto pro meu porto seguro, o restaurante maravilhoso que tem um quintal e tofu (porque eu posso, né? Cansou de brincar de terceiro mundo, dá pra mandar parar e desembarcar). E tem um homem mais velho sentado sozinho numa mesa e a gente começa a conversar e bingo, eis o amigo. Ele é inglês e mora há anos adivinha onde? Do outro lado do lago, na cidade onde eu peguei a lancha, ou seja, do lado do instituto onde eu tava. Lá pelas tantas da conversa — minina, como eu precisava conversar — eu falo pra ele “olha, não é por acaso que eu mal desembarquei da lancha e conheci uma pessoa que mora em Santiago, deixa eu te contar uma história e tu vê se tu pode me ajudar”. Contei toda a história das cachorras e: ele conhece o pessoal que faz mutirão de castração lá na região. E ele LIGA pra pessoa na hora e: tem mutirão de castração na semana que vem, e é DE GRAÇA.

E eu praticamente me joguei no chão em louvor a esse universo que atende sim e ajuda quem pede ❤. ASK. And you shall receive.

___

Agora: agora tenho que deixar de tomar Toddynho. E parar de chorar lendo As veias abertas da América Latina. Que bom que eu vim aqui e vi isso. O quão a América é fodida desde os espanhóis, o quanto não se recuperou nunca — basicamente porque o sistema que rege o mundo ainda é o mesmo desde os tempos da colônia. Eu tô tendo um crash course em América Latina. Me joguei no fundo do vulcão em erupção. Nem todos os livros que eu poderia ter lido me ensinariam o que estou vivendo aqui. Esse negocio tá entrando pela minha pele. Minhas células estão fazendo osmose com a América Latina. Os cachorros são só um aspecto. Cachorros pra mim são importantes. Todos os seres importam. O ensinamento dos cachorros vem junto, abre alas, talvez, para os outros. Um dia eu disse que minha primeira gata abriu a minha compaixão para todos os outros seres — inclusive humanos. Bem, meu sofrimento pelos cães da Guatemala abriu a porteira para a dor pela América Latina inteira.

Precisei vir aqui nesse longe pra ver o que poderia ter visto no Brasil — não tivesse sido eu a guriazinha de condomínio, vida fácil, protegida, que sempre fui. Preferia ter feito essa viagem bem antes, ainda jovenzinha, talvez eu tivesse tomado tenência (talvez não, eu só queria surfar e fumar maconha). Mas não foi o que aconteceu, vim só agora, e agora está sendo como uma pós graduação. Na vida. Nunca é tarde.


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A versão interna da viagem que estou fazendo pelas Américas em busca de projetos de agricultura urbana, agroecologia e permacultura, cujas matérias estão sendo publicadas na herbivora.com.br e as fotos no Instagram @alenahra.

o diário começou para documentar as reflexões de uma viagem pelas Américas em busca de projetos de agricultura urbana, permacultura, agroecologia (as matérias foram publicadas na herbivora.com.br). agora o diário continua — porque a viagem pra dentro nunca acaba.

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Alessandra Nahra

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