Camiñando e plantando em Medellín
Tava com saudade de poder ser simpática na rua. Olhar pra pessoa, sorrir, dar bom dia. Se eu fizesse isso em Havana, grudava um homi em mim.

Daqui a pouco tô indo embora, mas não quero. Queria ficar por aqui, falando espanhol e dançando salsa. Dois meses e meio: pouco tempo. Conselho: viagem mais.
Eu digo que sou muito devagar. 12 dias em Medellín e agooooooora é que tô começando a me situar. Me ubicar, como diz a Juliana. Na real, até que já sei alguma coisa: qual tipo de arepa eu prefiro (maíz amarelo), como andar no bairro, o que é panela (é uma rapadura que eles deixam na água e bebem), qual o restaurante que tem meu almoço preferido, onde comprar comida, que tipos de abacate existem, qual cerveja eu gosto mais (BBC Monserrate), onde dançar em que dia da semana (mais ou menos).

Cheguei aqui e o esquema era fino, o completo oposto de Centro Havana. Apê no nono andar, com sacadona e vista para as montanhas. Tudo bonitinho, bairro cheio de restaurantes e lojinhas, e, pasmem: INTERNET! Wi-fi no apê o tempo todo (em Havana não tinha isso) e em vários lugares na rua, de graça. E o afeto e acolhimento da minha querida amiga, do namorado dela e do Tito. Então eu simplesmente relaxei, cozinhei, lavei roupa, escrevi e descansei.

Dancei, um pouco, sim. A salsa aqui é diferente da cubana, e eu achei que aprender mais um jeito de dançar salsa ia ser confuso, então encontrei um povo que ensina salsa cubana e fui dançar com eles. E aprendi um pouco de bachata também. Gostei.
Quase não consegui fazer reportagem. Porque fiquei enrolando, demorei pra começar a pesquisar, porque tava tudo devagar; e, no fim, quando eu me movi, mercúrio retrógrado atrapalhou deveras. Só hoje foram dois cancelamentos.
Fiz um turisminho de leve, bem de leve. E caminhei por aí, mas também sem exageros. O Google Maps aqui não entende o contexto. Aliás, em lugar nenhum o Google Maps entende contexto. Só leva em consideração distância, mas para um pedestre isso não basta. Me mandou caminhar em cada lugar… como mandar a pessoa em São Paulo caminhar pela marginal Tietê.
Tava pensando nisso e o Google Maps me manda atravessar essa ponte:

Fui na comuna 13 pra fazer uma reportagem. E o entrevistado me botou pra plantar. Deixei minha energia enraizada em Medellín.

Conheci uma guria da comuna 13 que me contou que, durante alguns anos, quando era criança, saía para ir pra escola e no lugar onde esperava o ônibus tinham uns corpos. Umas pessoas mortas. Nem recolhiam mais. Os paramilitares enterraram minas na casa dela. Quando o exército ocupou a comuna foi de casa em casa desativando minas. A da casa dela teve que ser explodida, e levou junto toda a parede da frente.
Mas eu continuo caminhando de madrugada sozinha, completamente segura da segurança intrínseca da vida. Acho que perdi pra sempre a noção.

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A versão interna da viagem que estou fazendo pelas Américas em busca de projetos de agricultura urbana, agroecologia e permacultura, cujas matérias estão sendo publicadas na herbivora.com.br e as fotos no Instagram @alenahra.

