Sobre serviço

Tenho pra mim que estou no lugar onde deveria estar, sempre. Que o serviço a ser feito é aquele que se apresenta. Também penso que o que me incomoda nos outros devo mudar em mim. Sendo assim, acabei de limpar os banheiros do hostel. Esse povo parece pato, tomam banho e fazem piscina no chão. Pensa que se incomodam? A guria saiu do banho e ficou pisando descalça na própria piscina, nem aí.

Já eu me incomodo — e, se, me incomodo, eu limpo. Se tá ali na minha frente, o serviço é meu, por que não?

A gente fica achando que nossa missão no mundo é grandiosa; às vezes é só limpar um banheiro mesmo.

Por outro lado, me pergunto se ao limpar a sujeira que foi outro que fez eu não estaria tirando a possibilidade de que esse outro se dê conta de que está vivendo em comunidade e que ele também precisa colaborar pra limpeza dos ambientes comuns. Talvez. Mas talvez o outro possa aprender isso por exemplo também, vendo outra pessoa limpar.

Ou talvez não aprenda nunca. E enquanto o outro decide o que faz da vida, eu prefiro o banheiro limpo, então eu limpo.

Duas teorias diametralmente opostas sobre o que acabei de escrever:

1 – Muito fácil ficar achando que servir é limpar banheiro. Muito mais fácil que resgatar cachorro ou ajudar de fato alguém. Muito confortável.

2 – Não dá pra entrar na viagem de que tem que fazer tudo que se apresenta, porque acaba virando uma megalomania de tentar consertar o mundo. Às vezes a melhor ação é a não-ação. Especialmente quando a atividade é reativa. Quem reage não integra. Às vezes é melhor ficar quieto, não fazer nada, só observar e sentir. Tu não vai consertar o mundo, querida.

Eu sou uma pessoa totalmente perdida no quesito missão no mundo. Eu fico querendo ajudar, fazer alguma coisa pra melhorar as condições de vida dos seres, mas o fato é que eu não tenho a mínima ideia de como fazer isso. “Que eu possa estar a serviço” é o rezo de todo dia; eu peço pra ser levada pra onde eu tenho que ir pra servir (e por isso fico achando que limpar banheiro é servir, afinal, e pra lá que fui levada) — mas na real eu pareço um cusco que caiu do caminhão da mudança.


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A versão interna da viagem que estou fazendo pelas Américas em busca de projetos de agricultura urbana, agroecologia e permacultura, cujas matérias estão sendo publicadas na herbivora.com.br e as fotos no Instagram @alenahra.

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