Uma carta para a minha amiga

Amiga, esse lugar que escolhi para passar as últimas semanas da viagem é tão legal… tu precisava ver. Se algum dia tu quiser aprender a ser agricultora, vem pra cá. Além de ser muito bonito, tem cachorros — todos bem cuidados, alimentados, castrados e com plaquinha de identificação — e mulheres. Fortes, generosas, acolhedoras. Tu sabe que eu já dei várias voltas nesse rolê de agricultura e sempre quem ensinava e/ou mandava era homem. Aprendi muito com eles e agradeço, mas fazia tempo que tinha essa pulga atrás da orelha: cadê as mulheres? Cadê o protagonismo feminino? Cadê a permacultura feminista? Cadê a agrofloresta feita pela mulherada? Pois encontrei e tô me maravilhando. O protagonismo feminino é generoso. Aqui, os ensinamentos são entregues alegremente de maneira simples. É com as mulheres que quero aprender, pronto.

Mas não pensa tu que é fácil. O trabalho é pesado. Eu cheguei numa semana em que cortaram umas árvores pra tirar madeira. Já carregou tábua? Umas tábuas de dois, três metros? Minina, que coisa pesada. No meu segundo dia passamos a manhã fazendo calagem — às 7 da manhã já estamos no campo. Calagem é jogar cal no solo pra regular o ph. A área em que trabalhamos é inclinada, tem que descer e subir com baldes cheios de cal. E repetir. E ficar cheia de cal em tudo. Também teve vários turnos de enxada. Carpir, sabe? Aquilo que a gente devia fazer quando tá cheia de minhoca na cabeça e pensando merda, hahaha!

as empoderadas da agrofloresta!

Aqui não tem essa de trabalho de homem e de mulher. Todo mundo faz tudo (até porque tem muito mais mulher do que homem). O trabalho agroflorestal meio que iguala os gêneros. Todo mundo pega no facão (aliás, que coisa bem empoderadora trabalhar com um facão!), motosserra, roçadeira etc. Esses dias a gente tinha que tirar de um moirão um prego que devia medir um palmo. Tava foda puxar aquilo com o martelo; Déia tentou, eu tentei, resolvemos pedir ajuda — eu relutante, não quero pedir ajuda pra homem só porque são mais fortes — por outro lado, pra que serve um homem? rsrs — mas enfim, Déia entrou pra chamar alguém e voltou com… Thaiza. Que é forte e é especialista em construção, e Thaíza tirou o raio do prego e fomos todos felizes sem precisar de homi (não precisar não quer dizer não gostar ou não querer, como tu sabe).

cuidando de e amando um milho

Os homi tão lá falando de trator, de estrato, de tamanho, de marca — as mulher tão ali sendo úteis. Levando cachorrinha pra castrar, cozinhando, pintando parede, roçando, colhendo morango e flor. Os homi tem foco nas coisas; pras mulheres as coisas são instrumentos para o cuidado e o amor. E, sinceramente, eu acho que isso é que é o importante. Eu curto muito me sentir forte e empunhar facão. Mas só se for em prol do cuidado. Aqui a gente tem uma escala de trabalho, todo mundo faz de tudo (e tá sendo bem legal a experiência de viver em comunidade, tu sabe que tenho interesse nisso e vontade de tentar. Eu, que há poucos anos não suportava conviver com ninguém dentro de casa. Estou bem feliz vivendo com essas pessoas aqui). Na semana passada minhas tarefas fixas eram levar o lixo pro composto e regar os canteiros perto da casa. Alguns dias eu cozinhei e em outros eu limpei a cozinha e o banheiro. Tem um quadro onde a gente anota o nome dos responsáveis pelas tarefas da semana. Uma das tarefas do quadro é alimentar a cachorrinha da casa comunitária. Não era minha tarefa, mas é claro que eu dei comida pra ela. E pra Gatinha que mora na outra casa do sítio. Ah, é. Eu senti que essa é uma das minhas principais tarefas aqui. Não está no quadro, ninguém me disse pra fazer, não é uma tarefa oficial — mas é minha: afofar a Gatinha. É uma das coisas que faço melhor, de fato. Afofar bichos.

E ai, amiga, acho que tô apaixonada. Eu me apaixono até por toalha secando no varal, né… Fui me apaixonando por vários seres ao longo das Américas e agora tô apaixonada pela Mamãe, a cachorrinha da casa comunitária :) Que foi abandonada no ponto de ônibus na frente do sítio com oito filhotinhos bem pequenos. Agora já está bem e os filhotes já foram doados. Prometo que não vou levar ela pra casa — ainda que tenha considerado essa possibilidade… Não tem jeito, eu sempre me envolvo em história de bicho, né. Já cheguei perguntando de castração, me ofereci pra ser madrinha.

olha o amor. Mamãe e Thaíza

Amar e cuidar da Mamãe é uma tarefa importante e feita com gosto pelas gurias. Todos os seres importam: aqui, os bichos fazem parte do biossistema. A gente tá lá enleirando canteiro e os cachorros ali em volta, se enfiando na frente do tobata. Tudo tem função, a função do cachorro talvez seja a de me fazer sorrir no meio do dia de trabalho, né? Que função nobre. Então aqui os bichos são acolhidos e amados. Depois do sofrimento da Guatemala, esse lugar é um bálsamo para um coração sensível. O entendimento é de que a gente tem que fazer o trabalho que se apresenta e quando a gente faz isso a Universa (sim, mudei o gênero do Universo) vem e apoia e traz as ajudas necessárias. Porque afinal ninguém faz nada sozinho.

Mas enfim, aterrissei no Brasil e aterrei aqui e tá sendo perfeito. Um baita presente da mãe Universa. Se nos outros lugares eu tive muitos aprendizados e reflexões, aqui parece que é pra eu ter só amor. Porque é tudo bom, bonito, gentil, acolhedor (ah, talvez uma lição daqui seja aprender a fazer força de novo, eu tava muito sedentária e fraquinha).

E força fazemos. Guria, eu nunca apreciei tanto um domingo quanto esse último. Depois de uma semana de trabalho na roça e carregando madeira, puta merda como foi bom um domingo pra descansar! Não que eu não tenha feito nada. Cozinhei, lavei louça, reguei os canteiros, arrumei o quarto, levei o lixo pro composto. Também dormi no sol, li, escrevi, conversei altas conversas ao pôr do sol com a guria mais linda, inteligente, forte, engraçada e querida da história da agrofloresta brasileira ❤ :)

Eu estou aprendendo a me apaixonar sem querer levar pra casa.

Sem querer nada. Querendo apenas o que vem, o que existe, o que o outro quer dar. (o que é bem conveniente e necessário para a atual fase da minha vida, inclusive). (aprendendo, gerúndio; é um processo).

Ah, estou testando a bainha do facão. Eu sei que tu não quer mais fazer bainha de facão, maior trampo — mas se tu decidir fazer tem que ter alça, senão fica o facão batendo no cotovelo. E tu viu minha foto com o avental que tu fez, cheio de hortaliças recém colhidas?

Eu estava fazendo o almoço, fui colher as coisas pra salada e o suco. Eu adoro quando estou na escala do almoço, alimentar gente. Naquele dia da foto eu só pensava em ti, a mais cozinheira da nossa casa; em como tu ia ficar louca com esse monte de comida que tem aqui e que a gente tira direto da terra. Quando penso em abundância eu penso em ti. Na tua reverência à abundância, em como tu fica grata a cada colheitinha na nossa humilde horta urbana. Que, aliás, está linda. Na minha ausência tu cuidou muito bem do nosso biossistema: as plantas, a horta, os gatos, o cachorro, os pulgões. Agradeço MUITO!

Eu queria que tu soubesse que essa mesma abundância da Universa tá dentro de ti. Teu olhar para o outro é cuidado. Tu é uma dádiva pra quem convive contigo. Mesmo sujando TODA a louça da casa cada vez que cozinha ;)

Tu pode não achar, mas é isso que tu é: generosidade, abundância e acolhimento. De vez em quando eu te vejo sofrendo e eu queria dizer “vai ficar tudo bem”, mas não adianta eu dizer. Tu tem que sentir. O mundo é um lugar seguro e tu tá acolhida — mas não adianta eu dizer. Tu vai rodar por aí e talvez se sentir muito sozinha até que não. Até que um dia tu sente que tá acolhida. Que tu, que a gente, tá abraçada pela abundância da Universa. Esse é um dos ensinamentos dessa agricultura aqui, novo modelo: trabalhar na cooperação e não na competição. Tudo no sistema trabalha junto, em prol do outro, do conjunto, da sintropia. Tudo: animais, insetos, plantas, microorganismos — e pessoas. O funcionamento da Universa está baseado no amor incondicional e na abundância. E dá pra sentir isso aqui, em cada planta, cada canteiro, cada bicho, cada pessoa. Tô muito grata por essa oportunidade, muito mesmo (valeu, patroa querida! Quanta generosidade ❤). Gracias a ti também, amiga. Que ficou aí na lida com o nosso biossistema enquanto eu rodava o mundo das agriculturas latino americanas.

Em breve tô em casa, cheia de presentes.

Beijos ❤


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A versão interna da viagem que estou fazendo pelas Américas em busca de projetos de agricultura urbana, agroecologia e permacultura, cujas matérias estão sendo publicadas na herbivora.com.br e as fotos no Instagram @alenahra.

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