#2 La culture

Cultura não é só um prédio maneiro, design cool, gente moderna. Ter uma declaração bem definida da cultura de empresa já diz algo sobre ela, mas cultura é algo que incorporamos, vivemos, passamos adiante. A BETC tem como um dos grandes pilares e crenças a igualdade de gênero. Em cada uma das 3 cidades em que a micro-rede está presente são dois sócios, um homem e mulher. 50% da liderança são mulheres. 65% dos funcionários em Pantin são mulheres. Não tenho as estatísticas de cada área, mas hoje, vim sentar perto da criação, historicamente dominada por homens, e havia tantos rostos femininos quanto masculinos.
Quem começou tudo isso foi o B da BETC, Remi Babinet, e o E, Mercedes Erra. Como em São Paulo, ele criativo e ela de negócios. Para a agência, ganhar um Leão, é tão importante quanto ganhar e manter um cliente. Sem jabá. Junção de personalidades fortes, inquietação e um desejo de buscar um algo a mais também inspiraram o início das outras operações: BETC Pop, que merecerá um capítulo todo à parte, BETC Shopper, BETC Luxe, BETC Design, BETC Digital, e por aí vai. Tanta gente criativa e sagaz junta, em áreas de atuação tão diversas faz com que hoje não exista apenas uma cultura única. E pessoalmente, acho que o que faz a BETC Paris tão cool para clientes e criativos é esse caldo de várias culturas. Respira-se isso todos os dias.

O que ouço é que a BETC não reflete necessariamente as outras agências ou a cultura de trabalho francesa. A questão de igualdade de gêneros e uma liderança mais feminina é decididamente BETC. Mas o tempo e energia dedicados ao trabalho é algo do país. Ainda que se percam fins de semana em concorrência e emails sejam enviados de fim de semana, vejo que é estimulado o equilíbrio entre vida e trabalho.
Sobre a cultura de trabalho na França, ainda há muito a aprender. Mas a temporada aqui me ajuda a entender alguns dos momentos que vivi em anos trabalhando com clientes franceses, em agência francesa. Alguns dos mitos e fatos podem ser encontrados também no livro “When cultures collide”, do Richard D. Lewis, que fala bastante sobre a maneira de lidar e se relacionar com as diferentes culturas.

Amantes da retórica, os franceses adoram discutir e não vem o confronto de ideias como uma coisa ruim, diferente da cultura conciliatória no Brasil. Eles parecem se divertir com a troca de argumentações, em um tom que pode soar agressivo para outras culturas. E há ainda o hábito de marcar reuniões não para tomar decisões, mas para trocar informações e discutir longamente sobre um assunto. Estrangeiros demoram a entender que a cultura mais confrontacional e direto ao ponto faz parte da natureza daqui, tanto quanto la joie de vivre, la cuisine, la liberté-egalité-fraternité.

Franceses amam a beleza e exatidão de sua língua, e bem lá no fundinho, odeiam que o idioma padrão seja o inglês. Por ressentimento, desprezo ou falta de vontade, mesmo na agência muitos não falam inglês. E somada à natureza auto-suficiente dos franceses, não é fácil fazer amizades instantâneas em Paris. Diferente da atenção superficial que brasileiros e americanos dão no primeiro contato, franceses precisam de tempo para mostrar alguma simpatia. Por ora, junto-me aos expatriados, aos que já tiveram a chance de morar fora da França, e aos curiosos. E aproveito as reuniões para perguntar mais da cidade, das pessoas, da vida daqui. Aprendo o valor do confronto.
(continua)

