Diários de Mochila & Sola | Episódio 10

Cordilheira dos Andes na Fronteira entre a Argentina e o Chile (Foto: Ricardo Machado)

Por Rico Machado

Um dia do passado… 26 de novembro de 2012

Acerto de contas

Omesmo corpo que oportuniza viver os dias mais intensos de nossas vidas é o que nos faz sofrer os piores. O trato é simples e não há acordo que não sejam sob as suas condições. Acordei com uma puta dor nas costas, nos pés, nas pernas, no corpo todo. Havíamos planejado ir de carona até o Chile, mas ideia precisou ser descartada, nossos corpos estavam a ponto de sucumbir. Os primeiros oito (ou nove? Não lembro) dias de viagem foram muito cansativos, especialmente os últimos dois.

Eu, o “pepão” que fazia parte de nosso almoço barato e um remédio para aliviar as dores. (Foto: Eduardo Herrrmann)

Diego, que não havíamos visto desde a tarde de ontem, avisou que deixaria seus contatos na recepção do albergue, que bastaria pedirmos para os empregados do hostel. Pedimos, mas eles perderam e não sabemos como conseguir o e-mail ou o telefone do Diego, um cara que curtimos pacas. Enquanto fazíamos o check out Augustin nos abordou, com olhos arregalados e expressão de surpresa:

Chicos, van perder el colectivo.

Respondemos apenas que não tínhamos passagem,. Em um misto de resignação e indiferença resmungou.

Ah, bueno.

Para o alto e avante

Fomos à rodoviária. Conseguimos uma passagem para o começo da tarde. Chegaríamos a Santiago, no Chile, no começo da noite. Comemos uma boa pizza em um simplíssimo boteco peruano nos arredores do terminal. Um daqueles locais que é a nossa cara. Pobre e honesto.

Estrada entre Mendoza, Argentina, e Santiago, Chile (Fotos: Eduardo Herrrmann e Ricardo Machado)

Atravessamos as cordilheiras e a experiência é incrível. Nem arrisco descrever. Conversamos bastante sobre a experiência, sobre a geografia do local, sem esconder nosso fascínio com o cenário. Comentamos que gostaríamos compartilhar tudo isso com as pessoas que gostamos. As montanhas são uma espécie de cicatriz de pedra e gelo, que corta boa parte da América Latina, algo que nos une e separa ao mesmo tempo. Um caminho a ser percorrido.

Cruzamos as montanhas e chegamos à capital Santiago. Precisávamos arrumar um lugar para dormir. Fomos ao cyber café da rodoviária e catamos um possível albergue. Herrmann, que fez a busca, optou por um lugar chamado Casa Mosaico. Acertou na mosca. Melhor hospedaria de toda a viagem até agora.

Fizemos uma rápida viagem de taxi até o hostel, que, descobrimos ao chegar, estava cheio de brasileiros. Bebemos uma ou duas cervejas e fomos dormir. Invertemos, segundo nosso plano inicial, os dias que ficaríamos em Valparaíso pelos dias de Santiago. Logo, tínhamos dois dias para conhecer a capital dos chilenos. Quando deitei, na cama do quarto que se chamava Gabriela Mistral, meu corpo ainda doía.

Santiago, Chile, 26 de novembro de 2012.


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