Diários de Mochila & Sola | Episódio 11

Casa de La Moneda foi bombardeada em 11 de setembro de 1973 a mando de Pinochet. Na ocosião o presidente Salvador Allende foi assassinado. (Foto: Eduardo Herrmann)

Por Rico Machado

Um dia do passado… 27 de novembro de 2012

Santiago

Depois de passar boa parte da segunda-feira dentro de um ônibus, de Mendoza, Argenina, a Santiago, Chile, meu corpo pôde descansar um pouco. Minhas costas, porém, não deram trégua, ainda doíam, mas mesmo assim me sentia melhor e resolvi que o dia deveria valer a pena. No café da manhã conhecemos figuras engraçadíssimas.

O mais icônico deles se chamava William e se dizia sobrinho do Pablo, aquele do Qual é a música do SBT. Ele contou que era cearense. Tinha mesmo um sotaque muito marcante, tal qual seu jeito esquisitíssimo de ser. Dono de trejeitos e frases de efeito, passamos a imitá-lo sempre que queríamos dar risada e não tínhamos nenhum motivo melhor para rir. Frases como “O meu padrinho éééé oooo Paaaaaabloo do SBT, aquele do Qual é a música” e “Noooosssaaaaa!!! O sol de Valparaíso é muuuuiiito forte. Voltei de lá preeeeeto!!!” eram recorrentemente lembradas pela graça e por serem demasiadamente ilustrativa das personalidade daquele sujeito. A mais clássica de todas era “Gravei uns tapeixxxxxxssssss, mas o vídeo muda muuuuiiiitooo a pessoa”.

Ele ainda nos mostrou umas fotos com seu padrinho, o Pablo aquele dublador loiro do Qual é a música (quem viveu conscientemente a década de 1990 sabe do que estou falando), que sempre tinha uma pintura esquisita no rosto. Ele estava velho, bizarro e tinha uma cara que era um misto de lençol esticado e bolo crescido.

William era um sujeito que demandava muita atenção das pessoas. Monopolizou a atenção de Herrmann, que estava nitidamente contrariado. Sentei-me na outra ponta da mesa e tive mais sorte, pois fiquei conversando com uma moça de Minas Gerais, chamada Ester, que estava em Santiagopara um congresso de História. Enquanto conversávamos, o cearense ficou mostrando fotos para o Herrmann, que me chamou para ver a imagem em que William exibia aquele desenho no rosto, tal qual seu tio famoso. Jamais esqueci aquela imagem.

San Cristóvan

Saímos e o primeiro compromisso do dia foi subir o Cerro San Cristóvan, que ficava a apenas algumas quadras de nosso hostel. A subida era íngreme e deveria ser feita em seis níveis, o que se tornou um desafio às nossas carcaças cansadas e mais de uma hora morro acima. Chegando ao topo, o esforço valeu a pena, pois a vista permite com que se visualize boa parte de Santiago, cercada pelas montanhas andinas, uma bela moldura natural. Eis uma cidade moderna, limpa e que, aparentemente, funciona muito bem.

Vista de Santiago desde o Cerro San Cristóvan (Foto: Ricardo Machado)

Pasteurização Cosmopolita

No reflexo do prédio espelhado, a torre do Corpo de Bombeiros em Santiago (Foto: Ricardo Machado)

Descemos o morro e conhecemos o centro da cidade. Santiagoilustra bem o poderio financeiro do Chile, umas das principais economias da América Latina, apesar de ser um país relativamente pequeno. Na praça central estão reunidos prédios históricos, como o da Catedral e dos Correios. Não há muito o que se dizer que não se diga sobre qualquer cidade tipicamente cosmopolita e pasteurizada. Assim são os projetos arquitetônicos hegemônicos, que retiram ou domesticam o que há de particular nos lugares e transformam as cidades em grandes supermercados organizados para a compra e venda.

Salvador Allende, uma memória viva

Do centro chileno, o único local que realmente me interessou foi a Casa de la Moneda, o Palácio Presidencial do Chile. No dia 11 de setembro de 1973, o general Augusto Pinochet, patrocinado pelos Estados Unidos, mandou bombardear la Moneda, ordem que partiu do prédio da Armada, em Valparaíso. O golpe estava dado e além de derrubar um governo democrático e legitimamente eleito, Salvador Allende, o presidente socialista, foi assassinado.

Pablo Neruda

Pablo Neruda, poeta, diplomata e Nobel de literatura, amigo de Allendehavia morrido 12 dias antes da investida assassina dos militares. O escritor tinha três casas no Chile, duas delas na Capital Federal e outra em Valparaíso. Em Santiago restou apenas uma, chamada La Chascona, onde viveu com Matilde, sua terceira esposa, até o dia de sua morte. Atualmente o local abriga um museu muito bacana, onde há visitas guiadas por uma simpática cicerone chamada Ana.

La Chascona fica ao fundo, meio escondida entre outras edificações, mas localizada bem ao centro de Santiago

Cada ambiente da casa tem uma história, que é minuciosamente contada pela guia turística. Neruda, como todo “bon vivant”, gostava dos pequenos prazeres da vida e jamais fazia refeições sozinho. Dentro de La Chascona, um falso armário dá acesso ao segundo piso da casa, que em todos os detalhes internos denunciam o amor de Neruda pela navegação. O poeta tinha muitas referências internacionais para fazer seu trabalho, mas quem conhece minimamente sua obra percebe como é o Chile que pulsa nas páginas de seus textos.

Vivências

Herrmann e o que restou de seu vinho (Foto: Ricardo Machado)

Voltamos ao albergue. Ao chegarmos, fomos ao bar. Herrmann bebeu uma cerveja. Dividimos uma bebida chamada Pisco Sauer, típico drink chileno, muito parecido com o que conhecemos como caipirinha no Brasil. Depois, bebemos um vinho. Herrmann conheceu e conversou longamente com Lorena, uma chilena que viveu na Suécia e que era a garçonete do bar. Falamos, também, com duas capixabas que moram no Rio de Janeiro, Jordana e Janine, e que hostilizaram muito a camisa que Herrmann vestia. Despropositadamente, aliás.

Falávamos sobre os locais que havíamos conhecido na cidade quando chegou Wagner, um carioca da gema, negro e robusto, com toda aquela “maroteza” típica dos cariocas. Depois do trago, fomos a uma praça na busca de experimentar algo que fosse um prato de rua típico dos chilenos. Encaramos uma espécie de sanduíche chamado Barro Luco, por sugestão de Jorgito, um pequeno e simpático chileno que se esforçava para falar português, cujo sotaque estava mais para um tipo de “carioquês” que com o idioma que falamos ao sul do Brasil.

Fotos do Centro de Santiago, Chile (Foto: Eduardo Herrmann e Ricardo Machado)

Jorgito, o pequeno falante

O baixinho disse que, além de português e espanhol, falava inglês e francês. Mas como o que interessava era comer algo, decidimos falar sobre o Barro Luco. Esta é uma das comidas mais simples e mais deliciosas que já comi. Recheia-se um pão com uma fina camada de carne e adiciona queijo derretido. Pronto. Barro Luco é só isso, mas é simplesmente maravilhoso.

O descanso

Voltamos ao albergue e ao quarto coletivo, que tinha por nome Gabriela Mistral, outra Nobel de literatura. Quando chegamos, uma moça da Austrália, chamada Colly, dividia o mesmo ambiente conosco. Trocamos algumas palavras. Na manhã seguinte ela mudou de habitação. Penso que Dani, o espanhol que havia começado a trabalhar neste dia no hostel, equivocou-se e colocou ela em um quarto onde deveria ter somente homens.

Descansamos.

Santiago, 27 de novembro de 2012.


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