Diários de Mochila & Sola | Episódio 12

No Museo de la memoria, em Santiago, há fotos de parte das mais de 42 mil pessoas assassinadas pelo regime militar de Pinochet (Foto: Eduardo Herrmann)

Por Rico Machado

Um dia do passado… 28 de novembro de 2012

Santiago do chilenos

Adecisão de ficar três noites, e não duas, em Santiago, não estava em nosso calendário, mas resolvemos isso na terça-feira e a decisão se mostrou mais que acertada. Acordamos e saímos cedo. Wagner, que a partir de agora será chamado simplesmente de “Carioco”, apelido dado por nós, resolveu nos acompanhar. Desta vez, a Santiago turística e domesticada ficou para trás. Resolvemos ir atrás do Chile dos chilenos, que tivesse a cor, o cheiro e o sotaque do lado andino banhado pelo Pacífico.

A primeira parada foi no Mercado de las frutas, um local caótico, não exatamente limpo, mas repleto de chilenos da “gema”. Em meio as bancas, onde se vende frutas, peixes, lanches e roupas, transitam milhares de pessoas. Simplesmente, um lugar incrível.

Mercado de las frutas, Santiago, Chile (Foto: Eduardo Herrmann)

De lá fomos ao Mercado Central. Esse, sim, um típico espaço para turistas e que era “higienizado demais” para nossas pretensões. O ambiente é bonito e ordenado, é verdade, mas retrata um Chile que se difere demais de sua origem latina, disciplinado demais. Atravessamos a rua e o rio estreito que corta a cidade por meio de uma ponte-passarela, de onde corre velozmente o degelo das montanhas. Almoçamos em uma espécie de praça de alimentação do camelódromo, que fica à frente do Mercado Central. Optamos pelo “mercado marginal”.

Mercado de las frutas (Foto: Ricardo Machado)

Fugitivo

Ruas do centro de Santiago, ao fundo e à direita, Carioco e sua mcohila antes da fuga(Foto: Ricardo Machado)

Carioco, vendo nossa movimentação, justificou que precisava comprar um cartão de memória para sua câmera e se separou de nós. Suspeitamos que ele ficou com receio de comer em um lugar mais roots e nossa hipótese se confirmou a noite, quando o reencontramos. Nossa refeição foi um peixe assado com purê e arroz, cuja entrada (teve até entrada, imaginem!) foi uma sopa com marisco. Confesso que não foi a coisa mais saborosa que já comi, mas ok, a experiência valeu.

O menu foi preparado por uma colombiana negríssima e lindíssima. O prato foi servido por outro colombiano ainda mais negro, que era tão bonito e simpático quanto seus cintilantes dentes brancos. Como um jornalista amador, estava desarmado de meu bloquinho e caneta. Não pude anotar o nome deles e desgraçadamente esqueci. O fato é quem em tão poucos lugares fomos tão bem atendidos.

La Piojera

Antes mesmo do almoço procuramos um lugar chamado La piojera, um típico local chileno, fundado em 1840 e que funciona até hoje, servindo pratos locais e o Terremoto, sua mais famosa bebida, feita com vinho branco, Fernet e sorvete de pina (abacaxi). O aperitivo leva esse nome porque não se pode tomar mais que dois copos sem ficar de tal modo embriagado, que a sensação é a mesma de estar em um terremoto.

Eduardo Herrmann, em frente do La Piojera, Santiago — Chile (Foto: Ricardo Machado)

La Piojera é um lugar que seria chamado de “sujo”, de acordo com alguns padrões de gourmetização escrota. Seu encanto vem de sua simplicidade, é um verdadeiro “Palacio Popular”. Ao prepararem o drink, os garçons parecem fazer questão de derramar um pouco de vinho sobre o balcão (deve fazer parte do ritual) e deixam escorrer pelo chão. A latinidade que há lá vibra em tudo. Facilmente pode-se pensar que aquela atmosfera interna do bar, escondido em meio aos arranha céus de Santiago, tenha mudado pouco desde sua fundação há 172 anos. Móveis e cadeiras velhas dão o clima do local.

Conversamos com Rodrigo, 42 anos, que trabalha lá como garçon. Para ele (e para mim) quem vai a Santiago e não conhece La Piojera não é capaz de conhecer a cidade. O camarada conta que ali pessoas de todas as classes sociais se encontram e que há quase dois séculos o bar é ponto de encontro dos chilenos.

El fútbol

Nesse bar, eu e Herrmann descobrimos que haveria um jogo a noite no Estadio Santa Laura, casa do Unión Española que enfrentaria o Colo-Colo. Decidimos ali mesmo, no La piojera, que assistiríamos a partida. Um tipo caribenho, mulato, velho e careca, tentou, gentilmente, nos explicar onde era o jogo, mas seu sotaque fortíssimo era difícil de entender. Apesar de tudo, saímos dali e fomos ao estádio comprar ingressos.

Estadio Santa Laura, casa do Unión Española, Santiago-Chile (Foto: Eduardo Herrmann)

Voltamos a noite para assistir o primeiro jogo da semi-final do Clausura, segundo turno do campeonato chileno, em que a equipe da casa, Unión Española, venceu o visitante por 2 a 1. O jogo foi interessante, mas a torcida ficou longe de empolgar e o momento de maior euforia foi quando os carabineiros (forma popular de se chamar a polícia do Chile) apartaram um desentendimento.

(Perdoe-me minha falta de narrativa cronológica, deixei-me levar mais pela memória afetiva, que pela razão. Voltemos à tarde, depois de comprarmos os ingressos e voltarmos à estação do metro)

Museo de la memoria y los derechos humanos

O Museo de la memoria y los derechos humanos fica, imediatamente, acima da homônima estação do metro. Na entrada, a exposição Ausênciasdo fotógrafo argentino Gustavo Germano, que refaz contemporaneamente fotos de grupos de pessoas que tiveram amigos ou parentes desaparecidos durante a ditadura militar da Argentina. Eu já conhecia o trabalho, havia visto em Córdoba, em 2009, mas novamente fiquei comovido.

Reprodução da exposição “Ausências” de Gustava Germano no Museo de la Memoria (Foto: Ricardo Machado)

História da Tortura

Subimos ao segundo andar e nos deparamos com um espaço moderno, de arquitetura limpa e ampla, com inúmeros recursos audiovisuais e com uma parede imensa onde, resumidamente, conta-se a história da tortura no Chile e no mundo. A distribuição das informações fica em uma espécie de mapa mundi horizontal, com pequenos dados sobre os assustadores números apurados pelas Comissões da Verdade.

O horror civilizatório ocidental matou, somente, na segunda metade do século XX, em apenas 30 países mais de 282 mil pessoas. Seus algozes? As ditaduras militares. Esses dados contabilizam somente números oficiais (o número real pode ser ainda mais assustador), pois ainda há toda a soma dos países cujo trabalho das comissões da verdade foi suspenso por decisão de seus governos.

Herrrmann, no metrô de Santiago a caminho do Museo de La Memoria (Foto: Ricardo Machado)

Passado de sangue inglório

Somente no Chile, ao menos, 42.285 pessoas foram assassinadas durante o governo Augusto Pinochet, entre 11 de setembro de 1973 e 1990. Depois de sua queda, o general se asilou na Inglaterra, sob a chancela da gloriosa Margaret Tatcher, até sua morte em 2006.

O Museo de la memoria y los derechos humanos é um lugar como La Piojera. Não se pode ir a Santiagosem visitá-los, porque não se pode compreender os lugares sem ter dimensão de seus passados. Ou vemos o país sob as lentes de sua gente ou então nosso enxergar é sempre uma cegueira capaz apenas de ver formas e cores.

O silêncio brasileiro

Enquanto isso no Brasil, nossa presidente e ex-guerrilheira nos tempos de resistência, não toca nos arquivos dos militares, nossos assassinos verde-oliva. Nossa comissão da verdade dá vergonha, às vezes. Creio que há coisas ainda não explicadas nessa relação entre Dilma e os generais, brigadeiros e almirantes. Desconfio que eles não a engolem, mas quem não digere essa porcaria toda sou eu.

Santiago, 28 de novembro de 2012.


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