Diários de Mochila & Sola | Episódio 13

Baía no Centro de Valparaíso. Ao fundo o porto (Foto: Eduardo Herrrmann)

Por Rico Machado

Um dia do passado… 29 de novembro de 2012

Pacífico

Onze dias depois de deixarmos o Oceano Atlântico, molhamos os pés no Oceano Pacífico no fim da tarde de uma quinta-feira, na praia de Viña del Mar, litoral do Chile. Para não me perder, volto aos fatos cronológicos, antes de chegarmos novamente ao pôr do sol do outro lado do continente.

Saímos cedo de Santiago rumo a Valparaíso. Carioco nos acompanhou. Desta vez havíamos feito reserva em um albergue, mas não tínhamos passagem de ônibus, o que realmente nunca foi um problema. Conseguimos embarcar com tranquilidade. Menos de duas horas depois estávamos na cidade sede do Congresso chileno, um local bem mais latino, velho e mais “poluído visualmente” (odeio esse termo) que a cosmopolita Santiago.

Todas as cores

Umas das tantas coloridas casas de Valparaíso (Foto: Ricardo Machado)

Há em Valparaíso tantas cores quanto vielas para percorrer. Não tínhamos mapa. O GPS do telefone do Herrmann normalmente não funciona quando precisamos. Poderia dizer que nos “perdemos” enquanto procurávamos a Calle Cuming, onde ficava nosso hostel. Porém, só pode estar perdido quem tem alguma ideia de onde está. A caminhada mais longa que demos até encontrarmos nossa hospedaria serviu para encontrarmos Carlos, um pequeno e falante cidadão de Valpo (a forma como os chilenos se referem a Valparaíso).

De cara, a primeira coisa que ele fez, foi tirar uma onda de Carioco, que transportava e comia dois quilos de pêssegos e, quando não estava mastigando, cantava, desgraçadamente, Andrea Bocelli. Era uma espécie de murmúrio cantante de quem subia esbaforido as escadas e ladeiras da cidade. Carlos foi muito atencioso e nos explicou onde era a rua que procurávamos, mas antes nos levou a um mirante incrível.

Geografia

Nos despedimos de Carlos, que no fim herdou meio quilo de pêssegos de Carioco, de barriga inchada por ter comido os outros dois do pacote. A geografia de Valparaíso lembra o Rio de Janeiro (ou pelo menos o Rio de Janeiro do meu imaginário, nunca estive lá), com baías, um estreito horizontal onde fica a parte plana da cidade, e muitos morros. Embora a versão chilena seja menor proporcionalmente. Creio.

Herrmann, Carlos e eu (Foto: Carioco)

As ruas são repletas de casas coloridas e cheias de artes tipicamente urbanas, inclusive nas escadas que dão acesso às partes altas da cidade. Mais ou menos duas horas depois de chegarmos a Valparaíso e transitarmos por belas e extenuantes ladeiras, ainda mais quando se carrega uma mochila pesada às costas, adentramos ao hostel. Fizemos o check in e planejamos o dia, ou melhor, a tarde.

Valparaíso

Herrmann e eu no hostel, planos e estratégias para a tarde (Foto: Carioco)

Resolvemos que visitaríamos o Museo de la armada, o porto e, no final do dia, iríamos a Viña, beber um vinho, fumar um charuto e ver o que o Pacífico tinha a oferecer em termos de pôr do sol. A coisa mais interessante (e mais imbecil) que descobrimos no Museo de la armada é que O’ Higgins, marinheiro inglês e comandante da missão que resultou na conquista da baía de Valparaíso, durante o Movimento de Independência do Chile entre os anos de 1817 e 1818, era muito parecido com Wolverine. Do mirante próximo ao museu se vê toda Valpo e um pedaço de Viña.

Valparaíso, Chile (Foto: Ricardo Machado)

Descemos em direção a parte plana da cidade, passamos no albergue para colocar chinelos, porque os pés, novamente, já acusavam as dores do sufocamento excessivo, compramos vinho e partimos para a cidade vizinha.

A estranheza do ser

O ser se diz de muitas maneiras, ensinou Aristóteles. Apesar de multilenar, nem todos ocidentais conhecem a frase e ser, minimamente, diferente chama atenção. Causamos certa estranheza ao entrarmos no trem, somente porque eu estava de camisa, blusão de lã, calça jeans e chinelos de dedo. Herrmann vestia praticamente a mesma indumentária, diferenciando-se apenas por um caso de couro no lugar de meu suéter de lã.

Herrmann sob o pôr do Sol no Pacífico — Viña del mar, Chile (Foto: Ricardo Machado)

Chegamos a Viña e a primeira impressão, ao contrário da maioria das pessoas, foi péssima. Achamos a cidade “Berverly Hills”demais, com carros demais, barulho demais, trânsito demais, de onde se originou nossa antipatia, embora fosse, sem dúvida um lugar bastante desenvolvido para os padrões continentais.

Sentamos à beira do Pacífico a fumar charuto e tentar tomar vinho, que abriríamos com o canivete de Herrmann, caso ele não tivesse quebrado. O multiuso era uma verdadeira porcaria de aço inoxidável de fabricação chinesa (provavelmente com minério brasileiro). Tentamos de tudo quanto foi jeito abrir a garrafa. Não conseguimos.

Albatroz

Albatroz no primeiro plano. Ao fundo eu, em um dos raros registros de escrita deste diário (Foto: Eduardo Herrmann)

Fumamos e curtimos o pôr do sol com nosso novo amigo: Albatroz. O grande cachorro preto que ficou mais de hora nos fazendo companhia e aproveitando o final do dia foi uma excelente companhia. O momento nos trouxe alívio para os pés e vigor para a alma. Estar ali transmitia uma espécie de sentimento de dever cumprido. Senti uma vontade tola e sem razão de chorar. Dei um abraço sincero em meu amigo Herrmann e pensei, que se um dia tivesse netos, contaria a eles sobre esse sujeito. Enquanto caminhávamos em direção à estação do trem, Albatroz foi ficando para trás.

Valparaíso, 29 de novembro de 2012.