Diários de Mochila & Sola | Episódio 14

Por Rico Machado

Um dia do passado… 30 de novembro de 2012

O meu lugar

Onosso segundo e último dia em Valparaíso, a exemplo de todos os demais, começou cedo. Nossa primeira missão era encontrar La Sebastiana, a antiga casa de Pablo Neruda. Encontramos. O lugar, tal qual a casa em Santiago é bonito. No entanto, o museu, enquanto espaço cultural, é insuportavelmente cheio e difícil de transitar. Ao invés de pessoas humanas como guias, os administradores do local emprestam uma droga de fones de ouvido com uma espécie de telefone sem fio, em que digitamos os números para cada cômodo da casa e o aparelho tagarela em vários idiomas. O problema é que tem muita gente, as pessoas ficam ali, batendo-se umas nas outras. Sinceramente, é triste ver La Sebastiana ser transformada em uma puta capitalista.

Lobo (ou leão?) marinho sobre a boia próxima ao porto de Valparaíso — Chile (Foto: Ricardo Machado)

Descemos ao porto e navegamos no Pacífico em um pequeno e velho barco. É legal ver Valpo desde o mar, a cidade tem outros contornos e as cores outras luzes. As veias urbanas que sobem o morro, com seus glóbulos de todas as cores — preto, branco, mestiço, loiro, marrom, desbotado — preenchem o colorido entre as residências.

Billy Read

Almoçamos e caminhamos por outras várias ruas da cidade e retornamos ao albergue para descansar um pouco, mas antes bebemos um vinho em uma das vielas, o que é proibido segundo a lei local (só se pode beber em ambientes fechados). Enquanto bebíamos, lembrávamos dos amigos que havíamos feito e desejamos que eles pudessem estar conosco naquele momento de contemplação e embriaguez.

Eduardo Herrmann e el casillero, Valparaíso — Chile (Foto: Ricardo Machado)

Na volta ao hostel, que, para falar a verdade, não agradou muito, encontramos Billy Read, um pintor australiano, que brigou com a namorada e saiu a viajar mundo afora. Quando chegamos foi sintonia à primeira cerveja (que ele já estava tomando). O convidamos para ir ao Bar Inglês, local que havíamos visitado na noite anterior, mas que estava fechado.

É humanidade, não economia estúpido!

Herrmann, Rico e Billy Read no Bar Inglês, Valparaíso — Chile

Mais tarde, durante a noite, fomos ao tal boteco, que é ponto de encontro de marinheiros do mundo todo e conversamos sobre história, política, futebol e o que mais pintasse. Billy é um pintor de 46 anos, braços tatuados dos pulsos aos ombros, piercing no nariz, brincos na orelha e aspecto jovial. Ele é o cara que conhecemos nesta viagem que mais curte futebol e rock and roll. Conforme bebíamos, três temas foram predominando: rock, futebol e mulheres. Tudo o que realmente interessa a três bêbados viajantes.

Billy, que é pintor, tal qual Noels, o pedreiro belga de Mendoza, ilustram bem o que torna um país desenvolvido, a educação, não o Produto Interno Bruto — PIB. Uma economia mais justa em países como a Austrália e a Bélgica, só para citar esses dois casos, permite com que pessoas simples possam conhecer o mundo todo. Não bastando essa possibilidade financeira, a bagagem cultural e de formação dessas pessoas faz com que eles descubram o incrível do mundo para além das capitais. Não raro meus amigos graduados desconhecem quem foi Simon Bolívar (sobretudo esse!), San Martin, figuras que foram objetos de nossas conversas. Não suficiente, pensam que Pedro Álvares Cabral, nosso burocrata português, realmente, ao gritar “Independência ou morte!”, libertou nosso país.

Um questão de educação

Do outro lado do continente, no ponto mais distante em que já estive da minha casa, penso no Brasil e tenho, a cada dia que passa, mais certeza que a educação precisa ser levada a sério. É clichê e velho, sim, mas ainda é válido. Quando um bêbado australiano ensina sobre história e política, mais que nossos professores colegiais, é sinal de que há algo de muito errado em tudo o que temos feito com nossos professores e alunos.

Eu, em uma das inúmeras escadas de Santiago que fazem a ligação entre a parte alta e baixa da cidade (Foto: Eduardo Herrmann)

O pior turista

Neste mesmo bar conhecemos uma senhora, aparentemente cinquentenária, que é garçonete há 25 anos no Bar Inglês, mais tempo que o Herrmann tem de vida. Ela foi muito gentil e nos deu alguns petiscos de cortesia, mas esperava gorjetas mais gordas. Porém somos a pior espécie de turista, aquele que não tem dinheiro. Juntamos todas as moedas e trocados que tínhamos nos bolsos, mas foram insuficientes para agradá-la.

Fomos ao centro. Pagamos um Barro Luco a Billy, que ainda não havia experimentado, mas aprovou o sanduíche. Nos despedimos do cara à porta de um outro boteco, na mesma rua onde ficava nosso albergue. Fomos dormir, cedo embarcaríamos de volta ao leste. Billy, com seu jeito peculiar de dar socos no ar ao mesmo tempo em que fala “rock and roll”, despediu-se de nós. Grande sujeito.

Valparaíso e sua parte mais moderna. Ao fundo Oceano Pacífico (Foto: Eduardo Herrmann)

De volta…

O que Santiago tem de Nova Iorque, Valparaíso tem de Havana. E é aqui, um lugar onde um percussionista com síndrome de down faz um “solo” em frente aos seus colegas da bateria da escola de samba local (sim, escola de samba e o idealizador é um brasileiro) e arranca aplausos da plateia e lágrimas teimosas deste escriba, é onde me inspiro e me sinto vivo de verdade.

Escola de Samba de Valaparaíso (Foto: Ricardo Machado)

Valparaíso, 30 de novembro de 2012.