Diários de Mochila & Sola | Episódio 2

Chico, eu e Herrmann no Mirante Morro da Borússia, ao fundo, Oceano Atlântico

Por Rico Machado

Um dia no passado… 18 de novembro de 2012

Missão Atlântico

Asemana foi curta. Os dias que antecederam a viagem foram intensos. Tarefas importantes a serem concluídas antes de partir. Faltando sete dias para a viagem eu ainda precisava finalizar um curso de SEO, arrematar o projeto de ingresso ao mestrado e dar um fim a um freela que se arrastava.

Entre a segunda e a sexta-feira, minha vida se resumiu a inúmeras horas de trabalho e quase nenhuma de sono. Na terça-feira precisei ir a São Paulo, fazer a cobertura do lançamento de uma caminhonete, dessas que valem mais que uma casa, o que preencheu dois dias de minha agenda. O resultado, depois de inúmeros quilômetros a bordo de um carro e acompanhado de meus colegas jornalistas, que gastaram horas fazendo uma espécie de dissecação anatômica veicular pouco atraente aos meus ouvidos, foi uma matéria que de medíocre não passou.

O melhor de mim são os outros

Conheci figuras interessantíssimas. Entre elas, um jornalista baiano cuja mãe, ele conta, possui na fragilidade dos pulsos as recordações do pau-de-arara e na memória as lutas para fundar o Partido dos Trabalhadores — PTda Bahia. Mãe e filho aprenderam a nutrir um ódio platonista (se é que isso existe) por José Dirceu. Este, relata o filho, teria deixado, na década de 1970, uma de suas companheiras de sexo e militância à própria sorte na fronteira entre a Argentina e o Chile, mulher esta que fora resgatada por sua mãe.

São Paulo, Brasil (Foto: Ana Paula Hirama — Flickr Creative Commons)

Outro sujeito que merece destaque é Romão, um típico nordestino, daqueles que se encontra fácil em São Paulo. Trabalha como garçon em uma associação chamada Monte Líbano, lugar onde fui jantar em uma das noites, por ocasião do lançamento do tal carro. Saído de Moçambá, interior cearense, veio para a capital paulista em 1975. Ele conta que já serviu gente importante, que o whisky apreciado por políticos, antes de esquentarem suas goelas, passa frequentemente por suas mãos e que já serviu Paulo Maluf e Luíz Inácio Lula da Silva. Juntos. Na mesma mesa.

Na viagem de volta, cansado e fatigado, ainda precisei ir de taxi de São Paulo a Campinas. Outro nordestino no meu caminho. Não me recordo o nome. Era pequenino, mas pela quantidade e rapidez das palavras que saíam de sua boca, seu toráx era composto em sua grande parte por pulmões aparentemente saudáveis. Peguntou onde eu havia me hospedado e questionou se eu havia conhecido “as meninas” que trabalhavam lá. Apenas respondi que não.

Home sweet home

De volta à casa, no sábado eu e minha mãe fomos ao templo budista, na cidade de Três Coroas, no interior do Rio Grande do Sul. Lá é lugar de paz. Fizemos o que sempre fazemos, conversamos e tomamos chima. Mas lá, no templo, tem essas coisas que nos transportam para outros lugares dentro de nós mesmos. Comprei um livro chamado Os portões da prática budista. Descobri, depois, que o livro foi escrito pelo mesmo riponche que havia construído o templo. O livro vai comigo, quiçá na volta tenha-o devorado.

Rumo ao Atlântico

Chiko, eu e Herrmann — Mirante no Morro da Borússia, em Osório, Rio Grande do Sul(Foto: Arquivo Pessoal)

Chegado o domingo, dia de rumar para o Atlântico. Manhã de temperatura amena, mas de céu aberto e promessa de um sol de rachar. A primeira escala foi na casa do Chiko (nunca entendi por que ele usa o “k” no lugar no “c”, porém é como ele escreve). Meu amigo de infância viria a ser chamado jocosamente de “geógrafo”, alcunha dada por Herrmann, o segundo passageiro do dia.

A viagem até a praia foi longa, passando por Dois Irmãos e depois rumando em direção ao mar. Na verdade, esse foi o princípio da estrada, porque a viagem sempre começa antes da partida e só acaba quando a vida encerra, não quando voltamos para casa.

Antes da areia, o Morro da Borússia, na cidade de Osório, no Rio Grande do Sul; primeira escala. O plano era ver o Atlântico e fazer um vídeo, onde de longe se vê o Atlântico. Missão cumprida, embora o vídeo não tenha ficado lá essas coisas. O cenário não deixa escapar as divagações sobre como é interessante pensar que um dia fomos uma única massa continental, um único oceano, um lugar sem fronteiras.

Pretérito do Futuro

Daqui oito dia partiremos de Mendoza, na Argentina, para Valparaíso, no Chile. No meio do caminho a cordilheira. Transpor o muro latino-americano erguido pela força da natureza é o sonho de caras que, como eu, nasceram para as bandas de cá do continente e que não querem mais nada que um chão para pisar e histórias para contar. Mas antes era preciso a primeira parte, estar aqui, do nosso lado, pois sem ela a última não fazia sentido.

O Atlântico do litoral gaúcho

Descemos ao litoral. Tramandaí não tem nada de deslumbrante, mas é uma boa síntese do que os gaúchos têm a oferecer em termos de litoral. À Iemanjá um guaraná em sinal de admiração, respeito e pedido de proteção.

Almoçamos em Imbé, em um restaurante cujo garçom tinha um forte sotaque de catarina, embora garantisse que não o era. Uma Ala Minuta — típico prato feito do RS — com peixes matou a fome. Herrmann pagou o almoço, meu dinheiro havia acabado.

Eu e Herrmann na BR-290, que nos levaria até o fronteira do Brasil com a Argentina (Foto: Chiko)

Voltamos. Ainda precisávamos fazer a carteirinha de alberguista. Porém, não conseguimos, pois o Hostel de Porto Alegre não fazia isso aos domingos. Ficou para a Argentina.

Deixei Herrmann e Chiko em suas casas, nesta ordem. No meu quarto comecei a arrumar a mochila. Tomei banho, tirei a barba. Ficou meu bigode. Ridículo e sempre fora de moda como todos os bigodes. Ao descer as escadas da minha casa, minha mãe me olhou com ternura, exatamente como fazia quando eu era criança. Encheu o semblante de lágrimas, colocou as mãos sobre minhas bochechas peladas e disse:

— Parece o Jorge.

Jorge é o nome de meu irmão, falecido há nove anos. O momento que era para ser de graça, foi de lembrança e emoção, nunca pensei que um bigode pudesse causar em alguém mais do que a vontade de rir.

O fim do começo

Terminei as arrumações. Hora de dormir. Tempo de descansar e de pensar nesta cama, que só verei daqui 20 dias. Pensei como é bom não precisar de mochilas para carregar a saudade. Assim terminou o primeiro dia de outras tantas e longas jornadas de estrada que hão de vir.

Sapucaia do Sul, Dois Irmãos, Osório, Tramandaí, Porto Alegre — 18 de novembro de 2012


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