Diários de Mochila & Sola | Episódio 3

Eduardo Herrmann — Rodoviária de Paso de los libres, Argentina (Foto: Ricardo Machado)

Por Rico Machado

Um dia do passado… 19 de novembro de 2012

Rumo Oeste

Ajornada começou cedo. Nem bem o sol havia nascido, Herrmann e Paulo (seu pai), buzinaram à frente da minha casa. A viagem a Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, foi relativamente tranquila. Para a segunda parte da empreitada contamos com a companhia de Peirce (Luis Henrique). Partimos para Uruguaiana, onde Bibiana Barbará, carinhosamente chamada de Biba, nos receberia. A ideia era passar a noite na casa dela e partirmos para Libres, na Argentina, na manhã seguinte.

A viagem de mais de 600 quilômetros, entre a capital e a fronteira, foi incrível. Não calamos a boca um único segundo, exceto eu, que cochilei duas ou três vezes. Antes do almoço uma única parada, em um posto de gasolina. Uma senhora, tosca como se espera que sejam as pessoas tacanhas, mas não menos atenciosa, serviu-nos um café de excelente qualidade e baixíssimo preço.

BR-290, em algum lugar entre Porto Alegre e Uruguaina, Brasil (Foto: Ricardo Machado)

Texacão do Caverá

Seguimos. Cantamos desgraçadamente o Canto Alegretense e, talvez por isso mesmo, resolvemos almoçar no Alegrete, ainda no interior do Rio Grande do Sul. Comemos em um lugar chamado “Texacão do Caverá”. Costela gorda, lombo e outros assaditos. Antes mesmo da chegarmos ao Alegrete, havíamos decidido que faríamos uma foto na rótula de entrada da cidade, onde comumente, no Rio Grande do Sul, coloca-se em letras de concreto o nome do município. Ajustamos o enquadramento, calibramos o temporizador, e Peirce se apressou em abrir a camisa, inflar o diafragma e exibir um corpanzil em forma de ovo. Imediatamente a cena nos fez, e nos fará rir muitas vezes, rir copiosamente.

Almoçados e de barrigas cheias, faltava pouco para chegar em Uruguaiana. Com os estômagos pesados, o trecho até a cidade de Biba foi mais silencioso. Dormi e acordei quando chegamos lá. Resolvemos ir primeiro a Libres, depois à casa de nossa anfitriã.

Dont cry for me Argentina

Peirce e Herrmann, na Aduana de Libres (Foto: Ricardo Machado)

Pela primeira vez pisamos em solo Argentino nesta viagem. Abastecemos o carro e trocamos dinheiro. Fomos à Rodoviária para comprar passagens para o dia seguinte. Primeira surpresa: teríamos que viajar naquela noite, porque existia um único horário de ônibus para a cidade de Santa Fé, na província homônima, e ele partia nas primeiras horas da madrugada. Deixaríamos nosso amigo Peirce antes do combinado, mas não tinha jeito.

Uruguayork

Voltamos à cidade natal de Biba, Uruguaiana, também chamada por ela de Uruguayork. Ao chegarmos em sua casa conhecemos sua mãe, irmão e avó. Todos muito amáveis, por sinal. O pai de Biba não estava e eu e Herrmann lamentamos muito, pois esperávamos ansiosamente o encontro de Miguel Barbará e nosso icônico Peirce. Isso porque antes, durante a viagem, ao ser questionado sobre sua relação com o pai de Biba (que conhecera durante um evento agropecúario internacional que ocorre na região metropolitana de Porto Alegre), ele a tinha classificado brilhantemente com uma uma única frase.

— Peirce, como é tua relação com o pai da Biba?, perguntou Herrmann.

— De patrão para peão!, respondeu Peirce, forçando um sotaque gaudério que pouco combina com seu jeito cosmopolita de ser.

As veias abertas da América Latina

Biba, depois de apresentar a família, nos mostrou sua cidade natal. Tomamos um chope no Café da Praça. Se beber e comer é bom no Brasil, melhor ainda era experimentar o que o outro lado do Rio Uruguai, em Passo de los Libres, tinha a nos oferecer. Nós, os cosmopolitas, comemos empanadas. Biba preferiu um pancho. Saímos e fomos ao Cassino. Não houve apostas. Éramos vagabundos demais para isso.

Bibiana Barbará, nossa amiga de longa data e anfitriã em Uruguaiana, Brasil (Foto: Eduardo Herrmann)

Ficamos na rodoviária. Biba e Peirce voltaram para o Brasil. O terminal, longe de hospitaleiro, era meio sinistro, sujo e bagunçado. Aliás, incrível como uma barreira natural, um rio, é capaz de separar realidades políticas, econômicas e culturais tão notáveis. Nossos hermanos vivem em uma situação econômica mais complicada.

Pela primeira vez víamos pulsar as veias da América Latina. Dizia Hemingway, que somente os pobres sabem o que é a vida, os ricos só são capazes de imaginá-la. Não somos exatamente pobres, pois afinal tivemos acesso à graduação de nível superior, o que no Brasil ainda está longe de ser ampla e irrestrita, mas estamos a milhares de léguas da enxuta e privilegiada classe dos ricos. Todavia, estávamos ainda mais perto dos pobres e isso era incrível porque é a pobreza que revela a estrutura do que somos, enquanto a riqueza só é capaz de exibir a fachada do que não somos.

Ao lado do terminal um mercado de quinquilharias (aquele da foto que abre este relato). Centenas de objetos, quase nenhum vendedor. Um dos poucos que ainda estavam por aquelas bandas, vestindo uma camisa do Independiente, não entende o que Herrmann pergunta e quando saímos eles riem, provavelmente de nós. A primeira noite de nossa viagem seria como foi o primeiro dia, na estrada. Rumo a Santa Fé.

Eu e Herrmann, aguardando o ônibus, na primeira noite de viagem.

Passo de los Libres, 19 de novembro de 2012.


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