Diários de Mochila & Sola | Episódio 4

Amanhecer em Santa Fé, Argentina (Foto: Eduardo Herrmann)

Por Rico Machado

Um dia do passado… 20 de novembro de 2012

Sem cama

Chegamos à província de Santa Fé, na Argentina, no amanhecer do dia 20. Antes disso passamos por um túnel debaixo do Rio Paraná, que divide Entre Rios de Santa Fé, cujo nome, “eurotúnel”, havíamos dado no planejamento da trip. Desembarcamos antes das 7 horas, compramos passagens para irmos a Córdoba no dia seguinte e rumamos para o Hostel. Caminhamos pela peatonal sob a companhia de um camarada negro, de olhos castanhos e muito discreto.

No meio da caminho paramos em uma padaria. Duas medias lunas e uma empanada sairam por menos de 10 pesos argentinos. Nos primeiros momentos de nossa estada, em um misto de admiração e irracionalidade, Herrmann cogitou a possibilidade de morar nesta cidade, haja visto tão belas argentinas a caminhar.

El hostel

Fomos ao albergue. Batemos à porta. Esperamos. Tocamos a campainha. Batemos à porta de novo. Ela se abriu. Antes que pudéssemos acessar a recepção nos informaram tão objetivamente quanto contrários à nossa presença naquele lugar:

— Não há vagas!

El negro, o cachorro que nos acompanhou durante as primeiras horas em Santa Fé(Foto: Ricardo Machado)

Nos olhamos e rimos. Tínhamos um problema. Pensamos em dormir na rua, mas levantamos a hipótese de adiantar a passagem que estava marcada para o dia seguinte. Voltamos à rodoviária sob a vigilância de nosso amigo negro, que não nos abandonou nem mesmo quando fomos barrados à porta do hostel. Até este momento nossos planos haviam sido totalmente em vãos. Voltamos à rodoviária. Com pressa, esquecemos de nos despedir de nosso camarada, que comportado que era sequer ousou entrar na rodoviária. Trocamos as passagens de ônibus. Conheceríamos Santa Fé (ou o que fosse possível dela) no pequeno hiato entre a troca do bilhete e a nova partida, logo no começo da tarde. Aquele dia recém tinha começado, já havíamos feito muitas coisas, mas o ponteiro do relógio não havia rompido a fronteira das 8 horas.

Caminantes

Largamos as mochilas no terminal. Na primeira visita, ao Porto, a primeira cerveja. Depois rumamos para o centro histórico, onde prédios do século XVII chamam atenção por seu estado de conservação. A Plaza de Mayo reúne em prédios imponentes os Três Poderes da província. Um pequeno, mas importante, museu antropológico mantém viva a história dos povos nativos, os indígenas, e conta cronologicamente como a cidade cresceu.

Centro histórico e Porto de Santa Fé, Argentina (Fotos: Eduardo Herrmann e Ricardo Machado)

Retornamos ao Porto. Não era exatamente uma caminhada curta, uns dois ou três quilômetros separam um ponto do outro. Precisávamos satisfazer as necessidades do corpo, dessas que ficam difíceis de disfarçar atrás da árvore, que àquela altura eram urgentes. O banheiro era tão lindo, tão limpo e tão acolhedor que certamente lembraremos dele pelo resto de nossas vidas. Essa visita nos deu novo vigor. Comemos qualquer coisa e voltamos à rodoviária.

Mente limpa e, agora, corpo limpo

Depois de pagar alguns trocados para o responsável pelos banheiros do terminal de ônibus, conseguimos tomar um bom banho de chuveiro. Talvez não fosse tão bom como os nossos chuveiros domésticos, mas naquele momento era, certamente, incrível. Vestindo o mínimo de roupas para não irmos presos, terminamos de nos arrumar no saguão, o que causava certa estranheza nos demais passageiros.

Em seguida embarcaríamos novamente em um coletivo. Outras centenas de quilômetros nos separavam de nosso destino. Até agora a viagem estava mas cheia de perrengues que de glórias, mas não podíamos dizer que não estávamos nos divertindo. Por alguma razão apertou meu peito, senti saudades de minha mãe. Preciso ligar para ela, ainda hoje.

Da cidade ao campo

Estrada em direção a Córdoba, ainda na província de Santa Fé (Foto: Eduardo Herrmann)

O ônibus foi se afastando, primeiro da rodoviária, depois da cidade, em seguida se distanciando, cada vez mais, da civilização. A paisagem era predominantemente alagadiça. Rios, lagos, várzeas inundadas. À medida que nos aproximávamos de Córdoba, a paisagem foi mudando.

Imensos campos passaram a tomar conta da paisagem que era emoldurada pela janela do ônibus. Dizem que o homem do pampa enxerga longe, seu horizonte é distante e mesmo que não consiga ver o mundo em seus detalhes sabe que a realidade é mais complexa do que a vista pode ver. Talvez isso explique por que os homens da cidade estejam cada vez mais cegos. Com o cair do dia, o destino foi chegando na mesma velocidade com que o Sol foi se escondendo. Aqui o clima é mais seco e um tanto mais visível (será?).

Do campo à cidade

Em seguida devemos chegar a Córdoba. A moldura enegrecida dos edifícios se apresenta no horizonte. Minhas pernas doem. Preciso esticar as canelas e pôr os pés para cima. Sinceramente espero ter mais sorte com o hostel, senão teremos que passar a noite no terminal.

Me despeço de mim mesmo e mergulho na (re)leitura de As veias abertas da América Latina. A propósito, até agora não se vê na Argentina uma desigualdade tão brutal como aquela à moda brasileira.


San Francisco (alguma cidade entre Santa Fé e Córdoba) — 20 de novembro de 2012.


Parte II | 20 de novembro 2012

Greve Geral

Protesto nas ruas centrais de Córdoba, Argentina (Foto: Ricardo Machado)

Por Rico Machado

Um dia do passado… tarde-noite de 20 de novembro de 2012

Chegamos a Córdoba. No relógio, 18h30. O sol e o calor ainda eram fortes. Ficamos um pouco (na verdade muito) perdidos com o terminal rodoviário. Até agora Córdoba é a cidade mais cosmopolita de nossa viagem. Não tínhamos mapa, o GPS do celular do Herrmann funcionava de forma precária. Ficamos muito tempo sentados à frente do terminal tentando advinhar para onde ir. Saímos. Sugeri que seguíssemos pela avenida que estava imediatamente à nossa frente e que depois podíamos decidir por onde continuar. Paramos e discutimos de novo. Precisávamos tomar uma decisão antes que anoitecesse de vez.

— Hey guys, are you looking for a hostel?

Silêncio.

— Estan procurando por un hostel?

Silêncio.

Instantes ainda mais silenciosos. Gargalhamos, eu e Herrmann. O sujeito à nossa frente não entendeu o motivo da risada. A supresa com que esse diálogo interrompe a narrativa é semelhante ao espanto que tivemos ao esbarrarmos em John, um alemão que há duas semanas estava na Argentina, mas que havia passado outros quatro meses na Colômbia. Superado o momento de surpresa inicial, resolvemos acompanhá-lo ao Hostel Joven Reggae Córdoba. Para nos seduzir, ele afirmava que este era o hostel mais barato da cidade.

Sois una pareja?

Embora tivéssemos pesquisado sobre um albergue anteriormente, estávamos verdadeiramente perdidos. Resolvemos, então, ir até o hostel onde John trabalhava e ver qual era. Ao chegarmos percebemos um local muito simples, precário até. O dono do estabelecimento, um sujeito meio redondo chamado Victor Ruiz (seu nome se diz “bíctor”), foi o camarada mais bonachão que havíamos encontrado.

Ao sermos apresentados a Victor, ele começou a disparar sua metralhadora de perguntas.

Sois una pareja? Tienen marijuana?

E antes mesmo que pudéssemos responder ele emendava outras perguntase justificativas às próprias questões.

Ahora, en toda la Argentina hasta el verano, no se encuentra marijuana. Estamos en tiempos de escasez.

Tudo que conseguimos fazer foi rir de Victor, que era tão amável quanto fanfarrão. Em seguida John nos mostrou o quarto onde ficaríamos. Era quadrado, pequeno, tinha uma única lâmpada incandescente, uma janela e nenhum ventilador. Alguns metros abaixo de nosso quarto uma avenida perimetral. O barulho era intenso, dava vontade de fechar a janela, mas não havia forma de dormir de tal forma, o abafamento era insuportável.

Breve tratado sobre política internacional

Acomodamos nossas bagagens e voltamos à sala. Conversamos com Victor e um hospede italiano, cujo nome não me recordo. Falamos sobre América Latina, Estados Unidos e Argentina com nosso anfitrião, que havia estudado Ciências Sociais, sem, porém, concluir o curso. Só a partir daquele momento que começamos a compreender o que estava acontecendo no país que havíamos entrado há menos de 24 horas.

Desde Paso de los Libres, na província de Entre Rios, havíamos presenciado uma série de manifestações, com piquetes de caminhoneiros nas estradas, fogo em pneus, trânsito mais caótico que o comum. Ainda hoje pela manhã, no centro de Santa Fé, um grupo de sindicalistas protestava em frente a uma agência bancária. Algumas quadras dali, centenas de estudantes se reuniam em um protesto que até então não sabíamos do que se tratava.

Quando chegamos em Córdoba, milhares de manifestantes tomaram uma avenida enorme, que tinha umas seis faixas de trânsito, tornando o centro da capital um território de luta, protestos e militância. A multidão batucava e gritava palavras de ordem contra o governo de Cristina Kirchner. Até aquele momento estávamos tão estafados com todos imprevistos que sequer fomos capazes de compreender o que de fato estava acontecendo. De um instante ao outro, eventos isolados se tornaram uma só coisa. Victor nos perguntou se havíamos sofrido com o “paro general”. Respondemos que não, o que sem dúvida foi uma boa sorte do acaso.

Crer na política

Da política Argentina fomos à política de Israel e dos Estados Unidos. Victor lembrou que na semana das eleições nos Estados Unidos, que ocorreu no dia 06 de novembro, houve uma conferência de rabinos, que, segundo ele, serviria para que os líderes religiosos pedissem à comunidade judia que apoiassem a eleição de Barack Obama. Isso porque Mitt Romney é mórmon, o que colocava em risco o apoio armamentista dos EUA a Israel.

Voltamos à Argentina. Falamos sobre os regimes totalitários, mas que se autointitulam democráticos, sobretudo na América Latina. O dono do hostel não gosta de Cristina, reclama que não pode economizar, que não pode comprar dólares, que a inflação é alta, e disso até John reclamou.

La concha libre

Logo após o tema de “política internacional”, falamos de nossas vidas e da pauta eterna: as mulheres. Contei que Herrmann continuava “enamorado por las chicas argentinas”. O italiano, que desde o começo ouvia entre silêncios, sorrisos e baforadas de fumaça de cigarro, contou sobre um episódio que ela havia flagrado em que uma cordobesa, trajada com um vestido solto, mas sem calcinha, havia passado por um daqueles dutos na calçada em que sai vento. O sujeito que veio da calábria, sem contar muitos detalhes sobre o ocorrido, apenas sintetizou a cena na expressão “la concha libre”.

Interrogatório

Perguntei a Victor sua idade, ele desviou e Herrmann largou risonhamente um “26 anos!”. O rechonchudo anfitrião não perdeu o rebolado e nos classificou da seguinte forma:

— Tengo un indiscreto y otro adulador, brincou.

— Tengo 40 anos, respondeu enfim.

Pouco tempo depois saímos e fomos jantar. Pela primeira vez dormiríamos em uma cama digna de receber a alcunha de quatro letras. Os chinelos de dedo confortam os pés e, curiosamente, sossegam a mente. Pensar fica mais fácil. Caminhando tranquilos, desta vez sem o peso da mochila e o stress da hospedagem, havíamos finalmente compreendido que este dia era histórico: a primeira greve geral em toda a era Kirchner. Bebemos uma ou cinco cervejas.

Córdoba — 20 de novembro de 2012.


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