Diários de Mochila & Sola | Episódio 5

Estrada entre Córdoba e Alta Gracia, na província de Córdoba, Argentina. (foto: Eduardo Herrmann)

Por Rico Machado

Um dia do passado… 21 de novembro de 2012

Ao assassino

Havíamos dormido a primeira noite em algo que podíamos chamar cama. Precisávamos descansar e, apesar das primeiras impressões do hostel não serem as melhores, a expectativa era de uma noite boa. Não foi. O pequenino quarto era quente. Muito quente. Dormimos com a janela aberta e mesmo assim foi quase insuportável.

Na argentina, o fuso horário de verão tem uma hora a menos em relação ao Brasil, o que fez com que tivéssemos um bônus de tempo desde que chegamos aqui. Então nada melhor para uma noite horrível de sono, o despertar e o zarpar da cama. Acordamos cedo e, de novo, antes das 8 horas estávamos na rua. Como tínhamos apenas alguns trocados de pesos, passamos em uma lan house para fazer tempo até que as casas de câmbio abrissem. Pela primeira vez fizemos contato com a família e amigos por e-mail. Ainda não liguei para casa e preciso fazer isso até amanhã à noite.

Day after

No dia após a greve geral, os jornais locais repercutiam os acontecimentos. Como havíamos nos dado conta da dimensão do fato, usei meus dez minutos que ainda restavam na lan house para escrever uma matéria para o jornal onde trabalho, relatando o que havia experimentado ao vivo. Espero que publiquem o material.

Finalmente fomos ao Mercado Sur, um estabelecimento pequeno e caótico, no coração da cidade. Lá só há coisas e pessoas simples. Não pretendíamos comprar coisa alguma, senão apanhar o “colectivo” até Alta Gracia, cidade onde Che Guevara viveu quando era criança. A localidade, que é simpatissíssima, fica a uns 40 quilômetros de Córdoba.

Edficação do Século XVII de propriedade dos Jesuítas (Foto: Eduardo Herrmann)

Alta Gracia

Visitamos um museu jesuítalocalizado em uma edificação do século XVII muito sofisticada para sua época. Trata-se de uma construção absolutamente tecnológica para o período. Segundo os mediadores, o local havia servido como residência para algumas famílias ricas em determinados momentos, o que não deixa de ser bizarro dada a suntuosidade do espaço.

Parrilla

Ao sairmos do museu atravessamos a praça e fomos comer em um pequeno e charmoso restaurante. O prato: parrilla. Era deliciosa, barata e para descer melhor o assado, Quilmes. A propósito, em toda a viagem, até agora, o tipo de hidratação mais utilizada tem sido este elixir de cevada e lúpulo, que, resfriado na medida certa, só faz bem ao corpo. Considerando que as indicações médicas é que se ingira dois litros de líquido por dia, estamos muito bem, pois até agora temos bebido quatro vezes o recomendado.

Che

Depois do almoço fomos à casa onde Che Guevara viveu a infância. Eu já conhecia, havia visitado em 2009, quando estive em Córdoba pela primeira vez. O local que agora abriga um museu, e que estava em nossos planos conhecê-lo, não foi visitado. Che, ou o que sobrou dele, foi contaminado pelo veneno que combateu: o capitalismo. Não sou contra entradas em museus, mas o preço era aviltante, 70 pesos, algo como 35 reais. Naquele momento era algo caro demais para quem havia se proposto colocar uma mochila nas costas e cruzar o continente como pudesse.

General Belgrano

Eu, na parte mais germânica de General Belgrano (Foto: Eduardo Herrmann)

O sol ardia. Pegamos um ônibus até a entrada da cidade de Alta Gracia. De lá, embarcamos em outro coletivo para a cidade de General Belgrano, na serra cordobeza, onde havia a promessa de excelentes cervejas e ótimos chocolates. Se tratava, como imaginávamos, de uma espécie argentina de cidade como Gramado (município de arquitetura germânica e turística no Sul do Brasil). Realmente era tudo muito alemão, muito bonito e muito caro. As fábricas de cervejas que queríamos visitar estavam fechadas e, no final das contas, na cidade das cervejas acabamos bebendo refrigerante.

Exaustão

O relógio marcava 17 horas. Estávamos esgotados. Herrmann jogou-se no chão na plataforma da rodoviária. Eu sequer movi meu corpo da praça que ficava nos arredores do terminal, de onde o via de longe. Na viagem de volta, a serra em que o ônibus descia era margeada por um dos lagos mais lindos que já vi e isso rendeu boas imagens.

Depois de uma jornada intensa, Eduardo Herrman à rodoviária (Foto: Ricardo Machado)

Chegamos tarde ao hostel porque ainda paramos para assistir o jogo entre Brasil e Argentina em um bar no centro da cidade. A seleção alvi-celeste venceu a canarinho por 2 a 1 e vibramos como verdadeiros hermanos. E não era performance não, estávamos torcendo pelos argentinos. A nós gaúchos, como a Belchior, “um tango argentino cai bem melhor que um blues”.

Hostel

Entramos no hostel. Havia uma movimentação diferente, intensa. Mais de dez pessoas estavam sentadas à sala do albergue, bebiam, conversavam e aguardavam as pizzas que chegariam logo em seguida. Entre o pessoal, duas meninas europeias, uma belga e outra inglesa. Conversei um pouco com a belga e pude treinar meu precário francês. Ela contou que estava conhecendo a América Latina e que em breve estaria no Rio de Janeiro para visitar o namorado brasileiro que mora no Canadá (isso que eu chamo de Aldeia Global, hein McLuhan!). Ela se chama Lis. Sua amiga britânica é tão calada que sequer descobri seu nome.

Conversei muito com Victor. Falamos novamente sobre política e sobre o nosso continente. Desta vez ele sublinhou que a liberdade deve ser o principal direito de um homem, mas fez questão de ressalvar que estava “borracho” e que eu não deveria levar a sério o que dizia. O fato é que, bêbado ou não, recebi outra aula de história política argentina. Descobri que uma das irmãs de Cristina foi ministra no período dos militares. Lembrei de Shakespeare e da lição de Hamlet: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia.”

O assassino

Fabiano. Este era o nome do italiano que nasceu na Calábria e aparenta ter por volta de 40 anos. Ele entrou na conversa e vendo meu interesse por tais temas, perguntou-me o que achava de Cesare Battisti, o exilado italiano no Brasil. Coloquei minhas considerações e tentei justificar a posição política de meu país. Disse-me ele que Battisti é um assassino. Falou com uma efusividade e emoção assustadoras.

O pai de Fabiano, contou-me o sujeito, era o presidente do partido em que Battisti era integrante. Disse-me ele.

— Battisti mata por gosto e matou mais de quarenta pessoas.

Comentei com ele que o ex-presidente Lula concedeu asilo no apagar das luzes de seu mandato, no dia 31 de dezembro de 2010. Lembrei-o que Tarso Genro simpatizava com Battisti. Ainda relutei e tentei justificar a posição do Brasil, que o ato havia sido um gesto de soberania nacional, que os crimes de Battisti haviam motivações políticas. Nada o convenceu.

— Ele matava por gosto. Era um assassino.

A essa altura da conversa o rapazinho à minha frente dava o último pito em seu baseado. Herrmann havia sumido da sala, suponho estivesse dormindo. Decidi ir descansar. O dia foi longo.

Córdoba — 21 de novembro de 2012.