Diários de Mochila & Sola | Episódio 6

Fotografias de desaparecidos políticos em Córdoba durante a repressão militar na Argentina (Foto: Ricardo Machado)

Por Rico Machado

Um dia do passado… 22 de novembro de 2012

Liberdade

Entrada do Museu Ferreyra (Foto: Ricardo Machado)

Em nosso último dia em Córdoba, acordamos como de costume, muito cedo. Era o dia de conhecer a capital da província, fazer o que os turistas fazem e descobrir quem são os cordobeses. Depois de um café ruim, servido com um panetone ainda mais ruim, mas servido pelo amável e simpático Victor, fomos às ruas.

Estávamos animados, pois o dono do hostel havia dito que hoje ocorreria a Noite dos Museus, um evento super bacana em que as mais de duas dezenas de museus da cidade ficam abertos entre 20 horas e 2 horas da manhã, com atrações musicais e artísticas gratuitas, além, claro, das exposições. A proposta principal é atrair o público jovem para estes espaços.

Passado e Presente

Catedral refletida (Foto: Ricardo Machado)

Bueno. Caminhamos algumas quadras e passamos na lan housepara mandar notícias a quem interessava. Não havíamos caminhado muito, mas a goela estava seca. Tomamos uma cerveja, óbvio. No relógio, 9 horas. Seguimos um pouco mais em direção a uma Catedral de estilo gótico, que é uma das edificações mais impressionantes da cidade. Ao lado foi reconstruído um espaço que se chama Paseo buen pastor. Arquitetonicamente é pouco original, composto em linhas retas retangulares e revestido de paredes com vidros espelhados que refletem a beleza medieval de igreja vizinha.

A dor feminina da tortura

Horas depois, na noite deste dia, descobri que o Paseo buen pastor, que impressiona pela beleza arquitetônica, havia sido um centro de tortura de mulheres durante o regime militar. Como enxergar não depende só da visão, fiquei envergonhado por ter achado tão bonito um lugar que havia sido tão funesto.

Paseo Buen Pastor (Foto: Eduardo Herrmann)

Há lugares predestinados (já escrevi isso em uma aventura literária jamais publicada). O Paseo buen pastor havia mudado a fachada. Talvez fosse mais chamativo do que era décadas atrás. Sua gênese, entretanto, era a mesma. O roteiro do teatro dos horrores escrito pelos Estados Unidos, fora encenado desde a década de 1960 na América Latina (somente na Argentina foram 30 mil assassinatos) e também protagonizado naquele local. As cartas do Tio Sam ainda eram jogadas naquele espaço, que de centro de tortura tornou-se um centro internacional de conferências. Lá também se moviam as peças do xadrez do mercado, um lugar onde o rei e o bispo estavam sempre a salvo.

Fast drug food

Era quase 14 horas quando resolvemos comer algo. Tivemos a pior ideia do mundo: almoçar no shopping. Uma chuleta muito mais ou menos nos foi servida com batatas fritas. Pagamos caro e comemos mal.

Nossa primeira parada pós-almoço foi ainda mais indigesta. No eixo central de Córdoba um dos principais centros de tortura da província foi totalmente preservado. Atualmente abriga um museu e uma biblioteca chamada “Biblioteca dos livros proibidos”. Uma exposição de fotos, vídeos e depoimentos causam arrepios. Inicialmente não é tão óbvio que o local onde se está, muitas vezes apenas ruínas do que era, são os mesmos retratados nas imagens. Não fizemos fotos destes locais, era proibido. Mas o retrato da memória é implacável, as cenas seguem vivas em minha cabeça.

Saímos. Demos outras voltas. Conhecemos outros lugares. Nenhum deles tão arrasante quanto o minúsculo museu, com suas diminutas salas de tortura e dores gigantescas.


Esqueci de comentar que antes mesmo do almoço apuramos informações sobre a Noite nos Museus e descobrimos que o evento seria amanhã e não hoje como havia dito Victor. A infeliz “novidade” resultou na indignada e resignada frase de descontentamento de Herrmann.
- É muita maconha naquela casa!

Jeremias

Eu e Jeremias (Foto: Eduardo Herrmann)

Perto do fim da tarde fomos a um autêntico bar cordobes. Lugar simples e característico, feito para bêbados e outros tipos de gentes desprezíveis, sem valor, sem status, como nós mesmos. Sentado à janela do bar, Jeremias, de apenas sete anos, passava pela calçada e me abordou. Ele disse que torcia para o Boca Juniors, ofereceu-me alguns cartões, mas como não tinha nenhum interesse por eles, ficamos conversando alguns instantes e lhe dei os trocados que tinha no bolso. Gostei de Jeremias, um pequeno homenzinho que me fez mais menino.

Sinal dos tempos

Eu em frente ao Mercado Norte (Foto: Eduardo Herrmann)

Ao fim da terceira garrafa de cerveja fomos ao Mercado Norte. Trata-se de uma espécie de Mercado Público, como o que temos em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, inclusive guardam certa semelhança arquitetônica, embora a versão gaúcha seja bem mais roots. Ao entrarmos no local, que comercializa praticamente as mesmas coisas que sua versão sul-brasileira — carnes, peixes e produtos pouco industrializados –, Herrmann fez uma relfexão interessante sobre o prédio de 85 anos.

– Aqui vende-se aquilo que é necessário para a subsistência das pessoas que vinham neste local na época de sua fundação. Hoje temos algo similar, os shoppings centers onde as pessoas também compram coisas para sobreviver: Ipads, roupas de marca, perfumes importados e gastronomia cosmopolita.

De volta

Voltando ao hostel, já no final do dia, passamos pelo bolicho mais bolicho que havíamos encontrado até então. Era um lugar precário, onde quatro pessoas rodeavam o balcão principal. Uma senhorinha velha, rechonchuda e de olhar agradável nos atendeu. Pedimos… uma cerveja. O copo em que Herrmann sorveu o primeiro gole estava tão mal enxaguado que ao servi-lo ganhou um aspecto esbranquiçado e com mais gosto de sabão que de malte. Terminamos o resto da garrafa em um único copo.

Herrmann e o único copo de cerveja limpo o suficiente para tomarmos cerveja (Foto: Ricardo Machado)

Voltamos ao hostel e fizemos um vídeo com Victor. Era fim do dia. Podemos dizer que a gravação deu certo, embora tenha ficado longe de ser tecnicamente bem executada. Victor é um sujeito atrapalhado, engraçado e apaixonado.

Antes disso, o Alemão (John), a belga (Lis), a Inglesa (grafo o nome dela em maiúsculo pois seu nome próprio é uma incógnita) e um pequeno cordões chamado Davi convidaram-nos para jogar pocker. Recusei porque não sei jogar. Herrmann propôs:

– Strip pocker?

– In next time!, respondeu Lis.

Meu parceiro de viagem se jogou no sofá e pegou no sono. Eu fui escrever.

Comida de verdade

Saímos para jantar e finalmente comemos bem. Jantamos uma pizza de altíssima qualidade e bebemos uma cerveja chamada Schneider, pela primeira vez fugimos à tradicional Quilmes. Quando retornamos ao albergue quase todos estavam dormindo, exceto os jogadores do pocker, que já estavam mais bêbados que sóbrios.

Fui para o banho. Herrmann ficou se despedindo do pessoal. Quando saí do banheiro meu parceiro de viagem estava dormindo. Fui na sala me despedir dos jogadores de pocker, afinal sairíamos muito cedo. Lis sugeriu que pegasse seu e-mail, pois estaria, segundo tinha conversado com Herrmann, em Montevidéu no mesmo período que nós e podíamos no encontrar por lá.

Saudades

Despedi-me de todos que ali estavam e já sentia saudades daquele albergue, que apesar de suas instalações precárias era um lugar com uma energia incrível. Infelizmente não consegui me despedir do primeiro cara que havia conhecido em Córdoba, John. Aliás, nem dele nem da Inglesa, cujo nome jamais descobri.

Quando deitei na cama de cima do beliche, comentei com Herrmann que os dois — John e a Inglesa — estavam de frescura antes de ele ir para o quarto. Talvez estivessem transando, pensei (algo bem mais interessante que dar tchau a um brasileiro viajante). Não vimos mais Fabiano, o italiano, que um dia nos contou que trabalhava com la bruja. Também gostaríamos de ter gravado um vídeo com ele, não conseguimos.

Terraço do Albergue onde gravamos um vídeo com Victor; ao fundo, Eduardo Herrmann procurando alguma coisa (Foto: Ricardo Machado)

Victor, em algum momento, nos disse que acreditava que o sexo era uma energia renovadora e que a liberdade (não o liberalismo) era o maior de todos os bens. Pois é Victor, eu também.

Córdoba, 22 de novembro de 2012.


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