Diários de Mochila & Sola | Episódio 7

Campos próximo a Mendoza, Argentina (Foto: Eduardo Herrmann)

Por Rico Machado

Um dia do passado … 23 de novembro de 2012

Mais perto, mais longe

Acordamos ainda mais cedo e um pouco mais cansados. Os dias em Córdoba foram intensos e o repouso não foi dos melhores, ainda que tivéssemos a excelente companhia de Victor, John, Fabiano, a inglesa cujo nome desconheço e Lis, a pequena belga de olhos claros e cabelos longos. Antes de chegarmos à rodoviária fizemos um “desayuno” em uma padaria tipicamente argentina.

Prédio mais estreito do mundo (Foto: Eduardo Herrmann)

Depois passamos pelo prédio mais estreito do mundo, quem o vê de frente não percebe como ele é exótico. Com uma arquitetura da primeira metade do século XX, a edificação impressiona pela beleza da fachada, que só revela sua verdadeira anatomia quando se observa lateralmente, não medindo mais que dois metros de profundidade. Parecia cenografia, mas é só bizarrice mesmo. A razão pela qual isso teria acontecido foi uma briga de vizinhos. Pegamos o ônibus na rodoviária.

Descobrimos que o ônibus não seria tão confortável quanto imaginávamos. Não tinha serviço de bordo, ou seja, não tinha o que mais nos interessava: comida grátis. A jornada, entretanto, foi tranquila. Portanto, o que se segue são menos as aventuras que (não) vivemos e mais as sensações que a estrada desperta.

Viagem

Dormimos muito. Os poucos momentos em que abrimos os olhos, afinal havia muito sono para colocar em dia, vivenciamos coisas bizarramente engraçadas, sem contar, claro, com a trilha sonora igualmente estranha, que só era intercalada por filmes de gosto duvidoso.

Fome

Estávamos no coletivo há mais de seis horas. Volta e meia, nas paradas em rodoviárias de cidades do interior da província de Córdoba, os ambulantes entravam no ônibus com comes para vender. Eu e Herrmann, especulávamos uma comidinha free a qualquer momento, mas como não rolou, na penúltima parada do ônibus antes de chegar em Mendoza, no exato momento em que um vendedor entrou no coletivo, uma espécie de comichão tomou conta de nossos bolsos e começamos a tatear desesperadamente (não há uma sílaba de exagero aqui) em busca de qualquer trocado para comprar algo e aliviar fome.

El puma

Compramos alfajores. Enchemos a barriga. Herrmann, novamente, pegou no sono. Eu estava escrevendo nesse diário os episódios do dia anterior. Algumas poltronas atrás de nossos assentos, comecei a ouvir uma conversa meio sem sentido em um tom de voz um pouco mais exaltado, o que acordou meu preguiçoso companheiro de viagem. Instantes depois ouvimos um gemido de dor, desespero e a frase:

El pumaaaa!!! Arrrgghhhhh!!! Ahhhhhh”.

Não entendemos nada, rimos copiosamente da cena e concluímos que o sujeito só podia estar sonhando.

Perdidos, novamente

No mais a viagem foi tranquila, embora tenhamos chegado um pouco esgotados na rodoviária. Desta vez uma guria nos ajudou com um mapa da cidade, não dependeríamos do GPS do celular de Herrmann. Descobri que, na verdade, o problema nunca foi o GPS de meu companheiro de Mochila & Sola, senão sua cognição pouco adaptada a mapas, porque fomos para o lado errado de onde gostaríamos, pois ele observou o mapa de cabeça para baixo. Erro elementar. Caminhamos uma seis quadras a mais.

A luta

Isso não foi exatamente um problema. Por conta do “equívoco” de interpretação do mapa, cruzamos por mais um protesto. Esta era a quarta cidade que visitávamos na Argentina, em três delas as veias latino-americanas pulsavam no ritmo de quem não aprendeu a calar diante das injustiças. Um grupo predominantemente formado pelo público feminino lutava em defesa aos direitos das mulheres e cobrava das autoridades uma explicação sobre o sumiço de duas jovens que haviam desaparecido há algumas semanas. A suspeita era de que elas haviam sido vítimas de tráfico internacional de pessoas.

Protesto no centro de Mendoza (Foto: Eduardo Herrmann)

A terra

Cruzar o continente era, desde o princípio, uma aventura também geográfica, não somente geopolítica e antropológica. Embora meus conhecimentos sobre distintos terrenos sejam um tanto quanto limitados e insuficientes, penso que descrever alguns cenários que eu vi podem ajudar a compreender tudo o que vivi.

Pensava que ao chegar no oeste argentino encontraria um terreno predominantemente amarelo, seco e sem vegetação esverdeada. A viagem ocorreu por intermináveis estradas em linha reta, uma cicatriz de asfalto na campanha verdejante. Mas Mendoza é um pouco diferente. Mais árida e entremeada por imensos parrerais que produzem boas uvas para vinho, afinal a amplitude climática — quente de dia e muito frio a noite — favorece tal produção.

Montanhas

As primeiras montanhas, ainda que pequenas se compararmos com os Andes, que atravessaremos daqui alguns dias, são verdadeiramente encantadoras. A beleza da pacha mama emociona e são essas coisas que desafiam o ateísmo.

Não sou capaz de falar com precisão das cidades pelas quais passei e sequer desci do ônibus. Falo do que vi pela janela, na velocidade fugaz da estrada. Falo de uma Argentina que está tão longe de ser miserável quanto de ser um país desenvolvido em termos neoliberais. O que vi foi um país que, aparentemente, sofre menos com o horror da extrema desigualdade, tão desgraçadamente habitual no Brasil.

Torre de Babel

À esquerda, de xadrez, eu e de camiseta branca Diego (Foto: Eduardo Herrmann)

Chegamos ao hostel antes do anoitecer e as acomodações eram muito, muito melhores, que podíamos supor. Depois de um rápido chek in guardamos as bugigangas e fomos conhecer uma espécie de calçadão no centro da cidade. Era incrível. Bonito, limpo e com comidas a preços honestos. Já fazia muitas horas que não bebíamos. Pedimos uma cerveja. O melhor, porém, viria horas mais tarde.

Ao voltarmos ao albergue onde havia uma janta especial, que consistia, basicamente, em “pollo asado” que não era lá algo muito apetitoso, mas vá lá. Jantamos. O prato principal da noite não era esse galeto à moda argentina, mas o que o ambiente oferecia. Sentamos todos ao redor da gigante mesa, que parecia mais uma sala de conferências da ONU, só que sem a chatice dos ternos e gravatas, mas cheio de pessoas de países distintos.

Sentei-me ao lado de um casal que, coincidentemente, compatilhava nosso mesmo quarto no albergue. Dois belgas, Josh, um pedreiro de vinte e poucos anos, e sua namorada, uma doce e tímida menina de sorriso contido e receptível. À minha frente dois caras irlandeses, um deles bancário e de riso fácil, o outro mais sério e calado. Ao lado, Augustín, um tipo de argentino pouco peculiar e muito caricato, que diz adorar o Brasil e para demonstrar todo esse amor cantava Zezé di Camargo em português (sofrível, é verdade). Ao lado dele algumas pessoas do Canadá. Na borda oposta da mesa três francesas. À direita duas suecas. Logo ao lado um argentino, que de tão sem graça, sequer me lembro de mais detalhes. Finalmente, completando a roda, ao meu lado, um camarada, que espero um dia recebê-lo na minha casa, chamado Diego.

O jogo

Mais tarde chegou um neozeandês chamado Adrian e outro sujeito da Austrália, cujo nome não me lembro, mas que era bastante parecido com o Leandro Vignoli, amigo e ex-colega do curdo de jornalismo. A dupla convenceu todo mundo a jogar um jogo de cartas que entreteu boa parte da galera e consistia em dizer se a carta era vermelha ou preta, se a seguinte era maior ou menor que a anterior ou se estava entre as duas anteriores. A cada erro um gole de destilado devia ser bebido de uma só vez.

O vida como meio, não como fim

A finalidade do jogo, como da noite, não era ganhar, mas sim ficar bêbado. Depois de uma noite memorável com tantas pessoas de tantos lugares fomos dormir embriagados pela primeira vez (será?) e felizes como em todos os demais dias dessa viagem.

Mendoza — 23 de novembro de 2012.


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