Diários de Mochila & Sola | Episódio 8

El viejo y el jóven — Eduardo Herrmann ao fundo (Foto: Ricardo Machado)

Por Rico Machado

Um dia do passado… 24 de novembro de 2012

O Dia

Nenhum dia de minha puta vida de 28 anos foi como esse. Jamais fiz tantas coisas em uma só jornada. Para que eu não esqueça de nenhuma, vamos à lista: caminhada nas praças, visita ao Parque San Martin, Cerro de la Glória, lavanderia, vinícolas, futebol com os pibes, cerveja nas praças e a festa “El carajo”. Tudo isso em Mendoza.

Mendoza é um lugar lindo, incrível. Trata-se de um raro caso de intervenção humana na geografia local que (ao que parece) deu certo. As calçadas, “cujo trânsito não permite descuidos ao caminhar”, segundo avisou previamente Paulo Herrmann, possuem largas valetas onde correm as águas que vêm das geleiras e tornam aquele pedaço desértico um vale de paisagem verde. As águas, como a vida, tem estados e se tornam mais vivazes quando descem velozes e pesadas em direção à cidade.

Sem nada nos bolsos ou nas mãos

Praça no centro de Mendoza, Argentina (Foto: Ricardo Machado)

Apesar do pequeno porre da noite anterior, acordamos, como de costume, cedo e fomos à lavanderia, pela primeira vez nesta viagem, nosso estoque de roupas usáveis havia se esgotado. Aproveitamos o trajeto para conhecer as praças do centro da cidade, que são lugares limpos, bem iluminados (havia percebido isso na noite anterior) e, em várias delas, com jatos de água que fazem (perdoem-me o clichê) um ballet aquático.

Como grana não é algo que dispomos à vontade (aliás, muito antes pelo contrário, os trocos são sempre escassos) caminhar é sempre a opção mais óbvia para conhecer os lugares. O resultado disso são algumas bolhas de águas e outras de sangue nos pés (sobretudo os de Herrmann que sofreram mais que os meus, mas o cara foi corajoso, resolvendo o problema com uma linha e uma agulha esterilizada com isqueiro).

Parque San Martin

Visitamos o parque mais bonito e mais imenso que já vi na vida. Nesse local há um lago que parece ter o tamanho de uns dez lagos daquele que existe na Redenção, em Porto Alegre, lago este que vimos de passagem. Nossa decisão foi visitar o Cerro de la Glória, um pico de 965 metros de altura em frente à primeira cadeia da montanhas das Cordilheiras dos Andes. Lá, há vários monumentos a San Martin (1778–1850), o cara que libertou o Chile e a Argentina da sanha dos colonizadores espanhóis.

Entrada Parque San Martin (Foto: Ricardo Machado)

Depois de uma subida extenuante, ao fim de uma longa caminhada, chegamos ao topo. Pela primeira vez contemplamos a cordilheira bem de perto. Olhar para as montanhas e pensar que há pouco mais de 150 anos um exército de gauchos cruzaram, durante anos, a muralha latina para libertar uma nação, dá-nos a exata dimensão do quanto somos pequenos, insignificantes, sobretudo por estamos mergulhados em um universo high-tech de obsolescência e futilidade.

Tempo… temp… tem… t…

Subida do Cerro da Glória (Foto: Ricardo Machado)

O relógio marcava perto do meio dia. Tínhamos que descer o cerro rapidamente, caminhar outros quatro quilômetros até o centro e pegar as roupas até às 12h30. Resolvemos “atalhar” e descer o monte por uma via off road, inclusive para pedestres. Um caminho horrível, íngreme, arenoso e cheio de pedras. Resultado: do ponto de vista do tempo, teria sido melhor ter descido pela via tradicional, mas do ponto de vista das gargalhadas e da emoção foi a melhor decisão de todas, com nossos quase tombos e derrapagens.

Não havia tempo. Precisávamos pegar um taxi para que chegássemos a tempo à lavanderia, pois qualquer atraso sinificaria ficar sem roupas limpas até a segunda-feira. Nesse dia almoçamos em um restaurante que servia um buffet, por sugestão do pouco falante, mas simpático taxista. Foi a primeira vez que eu vi essa categoria de restaurantes na Argentina. Pensava que era uma exclusividade brasileira. O preço foi relativamente honesto, menos de 30 Dilmas. Forramos o bucho, como se diz no Sul, e partimos para encarar uma trip por vinícolas de Mendoza.

Vista da Cordilheira desde o Cerro San Martin (Foto: Ricardo Machado)

“Ha cuspido en mi asado”

Voltamos ao albergue e do albergue às vinícolas. O mais legal de tudo era que a viagem ia ser de bike. Diego, nosso amigo portenho, preferiu ir de ônibus porque tinha dores no joelho, justificou-se. Antes de sair conhecemos Julieta,“una chica muy graciosa”, que em português ou gauchês é algo como “uma guria arriada”. A primeira abordagem foi das mais cômicas de nossas vidas. Estávamos sentados, Herrmann e eu, e havia um pequeno espaço entre nós dois, local este que foi tomado de assalto por Julieta, que após um leve sorriso levantou-se imediatamente e com um gesto com as mãos trocou de lugar comigo. A naturalidade da cena rendeu amizade imediata e gargaladas da situação.

Nesse meio tempo, Augustin conversava com duas moças, Edith, que era da Lithuania, e Hanhah, da Dinamarca, até que chegasse Goiano, um sujeito que também conhecemos na noite anterior, mas que era uma verdadeira “mala” e não bastando sua chatice, roubou a atenção das garotas de Augustin. Isso não era exatamente novo, porque nosso conterrâneo já havia feito a mesma coisa na noite anterior, momento em que Augustin disse apenas: — Ha cuspido en mi asado. Uma expressão tipicamente argentina para se referir quando um sujeito perde a mulher para o outro.

A nova derrota de Augustin chamou atenção de Julieta, que riu da situação e começou a conversar mais conosco e rir de todas nossas idiotices, sobretudo de Herrmann, que é um sujeito muito mais espirituoso e engraçado que eu. Diego, que assistiu toda a cena, resumiu a derrota de Augustin com um sorriso de resignação e a curta frase: “ — Otra vez.

Vinícolas

Herrmann e sua possante bike (Foto: Ricardo Machado)

Fomos até a primeira vinícola de coletivo. De lá, pedalamos por mais 11 quilômetros até as outras duas. No caminho sugeri a Herrmann que fizéssemos uma corrida de bike quando estivéssemos bêbados. Julieta logo quis participar. A primeira bodega era de vinhos produzidos de modo artesanal, sem uso de agrotóxicos. Foi bacana conhecer os processos, mas acabamos bebendo pouco.

Escolhemos nossas bikes e partimos para a segunda vinícola. Ali seria a largada para a corrida, mas a minha bicicleta era tão precária, que sequer tinha freios, o que fez eu desistir do desafio antes mesmo de começar. Julieta saiu voando, Herrmann tentou alcançá-la. Descobrimos depois que ela é triatleta e que no fundo, ela é quem foi desonesta conosco, que somos quase sedentários. Como sempre, rimos de tudo. Visitamos outras vinícolas, mas nosso objetivo de ficar bêbados ficou longe de ser alcançado. Lastimável.

Los pibes

Na volta para o albergue, perto de onde estávamos hospedados, vimos uma gurizada jogando futebol e poderíamos realizar o desejo de jogar bola com nossos “hermanos”. Voltamos à praça e lá estavam os pibes. Pedimos para jogar e imediatamente eles foram gentis, apenas dizendo algo como: “ — Entra um para cada lado”. Até que joguei bem. Dei passe de calcanhar, assistência para gol, arranquei pela lateral e, com um leve toquinho, passei a bola por cima do marcador que tentou me alcançar com um carrinho, briguei por um lateral, não deixando me intimidar pela catimba argentina. Me machuquei, sozinho.

Herrmann foi mais discreto. Depois ele me confessou que estava nervoso, muito nervoso, aliás. O que importa é que nos divertimos e isso era tudo o que desejávamos. Resgatei na Argentina um Brasil que não existe mais. O Brasil da minha infância, do jogo de bola com os moleques da vila, do campinho improvisado. A periferia sempre foi, e, enquanto houver, sempre será sempre muito mais autêntica que o cosmopolitismo central.

The little boy, called Kevin

Dois momentos vividos por Herrmann merecem ser contados por este ladrão de histórias, autor deste diário. Um menino chamado Kevin (diz-se Québim), perguntou a Herrmann.

— Whats your name?

Aliás, era era muito comum as pessoas confundirem Herrmann com um gringo. O menino fez a pergunta em inglês com um sotaque argentino fortíssimo de quem tem pouca familiaridade com o idioma, mas que viu naquela pelada de futebol uma oportunidade de poder falar com alguém em outra língua que era totalmente nova e parecia estar aprendendo. Essa era uma grande oportunidade de falar com alguém de fora de seu país e, talvez, distante de sua realidade social, mas que o futebol havia oportunizado. Ele não perdeu a chance. Nós também não perdemos a chance de aprender com o pequeno Kevin.

O que pode parecer tolo para os intelectuais acadêmicos, para mim é emocionante. Compartilhar momentos com pessoas simples, que tem na face a cara da América Latina e que fazem do nosso continente uma teia imensa com os mais distintos tipos de linhas, costuradas em igualdade naquilo que é essencial e elementar, é um privilégio para poucos.

Puta que lo pario, pelotudo!

O outro fato, bem mais engraçado, também ocorreu nesta partida de futebol. Devido ao desempenho do Herrmann durante o jogo, ele foi convocado para ir ao gol. Atrás da goleira, dois meninos, um deles aparentava ter uns seis anos, o outro uns dois. O pequenininho insistia em entrar em campo e o pai da dupla, o zagueiro ranzinza da equipe do Herrmann, perdeu a paciência e vociferou como uma fera com o pequeno, o de dois anos, que a esta altura já estava chorando.

— Puta que lo pario, pelotudo!

Gritou enfurecido o pai-zagueiro contra os pequeninos.

Para nós, a partida acabou quando sofri minha primeira lesão muscular. Algo como um estilhamento no músculo posterior da coxa direita, o que gerou inúmeras piadas de Herrmann sobre minha condição física. Penso que estou ficando velho. Ainda bem.

Peatonal

Saímos da praça. Herrmann propôs.

— Vamos ir comer assim, porcão?!

Fomos, é claro. O banho ficaria para depois, isso não era importante, àquela altura estávamos preocupados em comer alguma coisa e beber uma cerveja, afinal nosso plano com as vinícolas havia fracassado. Encontramos Max, um mineiro muito gente boa que dá aulas de geologia na Universidade Federal de João Pessoa, na Paraíba. Havíamos o conhecido nas vinícolas, durante a trip de bike. Bom sujeito e nos deu boas dicas sobre empresas de ônibus. Depois de bebermos duas cevas e comermos pizzas honestíssimas, voltamos ao albergue, precisávamos tomar banho para ir a uma festa com alberguistas de outros hostels de Mendoza.

Incidente diplomático

Desta vez era impossível fugir do banho. Herrmann correu para o banheiro próximo ao nosso quarto, no segundo andar; eu peguei minhas coisas e fui para o banheiro que ficava no térreo. Meu amigo não percebeu à porta do lavatório um cartaz com a palavra “Cerrado”. Enquanto tomava banho tranquilo, relaxando de um dia agitado, a água invadia lentamente a porta do quarto ao lado do cômodo onde dormíamos. A peripécia alagou o quarto onde se acomodava um casal canadense, um casal no sentido homem e mulher, não se tratava de um casal afetivo.

Herrmann sentiu-se muito mal pelo episódio. Eu também, afinal todas as roupas e coisas que estavam no chão ficaram molhadas. Na real, essa duplinha era muito pouco simpática, bufava com facilidade e ver um sorriso era raridade. Na madrugada seguinte a esta noite fatídica, Herrmann comprou três alfajores, um para ele e outros dois para o casal, em sinal de desculpas sinceras. Bem, ao voltarmos dos três doces só havia um. Herrmann recordava que havia comido um alfajor, logo, deveriam restar outros dois. Eu estava tão bêbado que, na verdade, nem me lembro quando e como o doce foi comprado. Herrmann entregou o doce à moça do quarto ao lado. Ela ficou meio sem jeito com o gesto e pareceu ter aceitado até as desculpas, mas depois disso nunca mais nos dirigiu o olhar.

Meu companheiro de viagem compreendeu o fato como algo que afetou a diplomacia entre Brasil e Canadá. Eu também. Isso porque as desculpas foram sinceras e o ocorrido foi um acidente. A postura dela soou meio arrogante, talvez quisesse que nos ajoelhássemos aos seus pés, pedindo misericórdia por sermos sulistas selvagens. Não, sem essa! Erramos e pedimos desculpas, se não quiser aceitá-las: Fuck you!

La fiesta

Voltemos ao começo da noite, à festa. Caminhamos com muitas dificuldades, eu porque sentia meu estilhamento na coxa, Herrmann porque tinha muitas bolhas nos pés. Algumas quadras separava nosso albergue do hostel da cidade que tinha um bar chamado El Carajo”. Lugar bacana. Bebemos bastante com nosso amigo Diego, Augustin e Julieta. Edith e Hannah pintaram por lá. Começamos a fumar um dos charutos que havíamos comprado, mas por pouco tempo, porque ele sumiu tão rápido quanto o tiramos do bolso.

Me lembro que estava um pouco alto, Herrmann também, e que Julieta trocou o meu nome por “borracho”, era a única forma como se dirigia a mim. Dei um abraço em Julieta, ela devolveu o gesto e quando eu disse que não estava indo embora me xingou.

— Ahhhh… sai boluuudooo!!!

Foi engraçado. Gargalhamos todos. Fiquei contente, porque boludo nem é tão agressivo (naquele momento não foi) e se diz para amigos próximos. A afinidade entre nós três — eu, Herrmann e Julieta — deve-se ao fato de que ela é tão retardada quanto nós dois.

A volta

A festa acabou cedo para os padrões brasileiros. Eu e Herrmann voltamos, novamente, a pé. A memória do trajeto só foi completada pelas fotos que vimos horas depois. Tinha até uma foto em que fazíamos carinho em um cachorro da rua. Não fosse pela fé que tenho nos meus olhos, os mesmos que viram as fotos, eu jamais diria que bati um papo com um cachorro.

No albergue saltei logo para a cama. Estava acabado. Herrmann encontrou no bar do nosso hostel Diego, Julieta e Augustin, que haviam saído antes do El Carajo. Já estava deitado quando o trio pediu a Herrmann que me intimasse para sair com eles e ir a outro bar. Não fui. Sequer cogitei a possibilidade. Meu corpo sucumbiu. Herrmann foi, mas não tardou para retornar. Terminei o dia mais agitado da minha vida borracho e esgotado fisicamente. Espiritualmente estava rejuvenescido.

Mendoza, 24 de novembro de 2012.


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