Diários de Mochila & Sola | Episódio 9

Cordilheira dos Andes — Argentina (Foto: Ricardo Machado)

Por Rico Machado

Um dia do passado… 25 de novembro de 2012

A cordilheira

Apesar da bebedeira do dia anterior, conseguimos acordar a tempo de pegarmos o café do hostel, o que significa comida em abundância sem a necessidade de pagamento extra. Conversei um pouco com uma menina da Carolina do Norte, EUA, chamada Ketrlin Anna. Nossa pauta? Estados Unidos, claro. Não, negativo. Nosso tema foi América Latina. Depois de algum tempo, ela ainda tinha fome, foi comer mais e voltou à mesa. Logo em seguida Herrmann e eu resolvemos dar uma caminhada ao sol e de chinelos, mas desta vez sem pressa e com tempo para dar um alívio oxigenador aos pés. Assim nossas bolhas de água e sangue, puderam arejar um pouco e com isso aliviar a dor sem a necessidade de remédios.

Não fizemos nada que não fosse um misto de passear e descansar. Almoçamos e nos jogamos em um sofá do albergue aguardando o compromisso que havíamos agendado para a tarde/noite: cavalgar à sombra da cordilheira. Passava das 16 horas quando chegamos à propriedade dos irmãos Javier e Daniel, onde passaríamos o final do dia e boa parte da noite.

Tornado e Barbará

Meu cavalo, um criollo chegado há pouco à fazenda, chamava-se Tornado, o mesmo nome do cavalo do Zorro, razão pela qual consegui emplacar uma espécie de piada “internacional”, gabando-me do meu animal, comparando-o com o de Herrmann, o que rendeu algumas risadas. Senti-me orgulhoso do feito, afinal meu companheiro de viagem é o mais engraçado de nós dois. Herrmann respondeu-me que o nome de seu bichano era Miguel, Miguel Barbará, fazendo alusão à “machesa” do pai de nossa amiga Bibiana, que gentilmente nos recebeu dias atrás.

Marie, uma francesa que percorre o mundo em busca de trabalhos onde pode viver sobre o lombo do cavalo (Foto: Eduardo Herrmann)

Considerando que somos dois sujeitos urbanos, daqueles que não cavalgam diariamente, o passeio não foi lá a coisa mais agradável da vida. O estribo do meu arreio não era lá essas coisas (na verdade era uma porcaria) e Tornado, meu cavalo, era troteador, o que me deu a impressão, ao final de uma hora meia de cavalgada, que minhas amígdalas haviam duplicado.

Findo o passeio, curtimos o pôr do sol nos Andes, bebemos vinho e esperamos pelo assado, umas espécie de churrasco à moda argentina. Conhecemos pessoas de todas as partes, um simpático casal dinamarquês, outras três meninas sei eu de onde, um velho austríaco jogador de tênis (que se parecia com o famoso tenista John McEnroe) que conhecia Porto Alegre, mas cujas impressões sobre a cidade eram péssimas. Conversamos bastante com Orla e Julia, esta última, mora em Singapura, . A propósito, elas acharam Herrmann muito parecido com um cantor de Country Rock Irlandês, país de origem das gurias.

Entardecer

Fim de tarde na Cordilheira dos Andes (Foto: Eduardo Herrmann)

No fim desta tarde, Herrmann conheceu Ashley, uma bela e jovem holandesa, bastante habilidosa em cavalgar. De voz mansa e olhar acolhedor, Ashley é realmente uma garota encantadora. Como eu andava vacinado, imunizei-me aos encantos femininos ainda no Brasil, antes mesmo de colocar a mochila nas costas. Assim, diverti-me com as paixões alheias. Depois de alguns goles de vinho, Herrmann convidou-me para seu futuro hipotético casamento com Ashley. Imediatamente, candidatei-me a padrinho.

O anoitecer caiu elegante e lento, descortinando-se no horizonte montanhoso. Imagens indescritivelmente belas, belezas inesquecivelmente incríveis. O sol se pôs e a chama do fogão de campanha iluminou a roda formada à volta do fogo. Foi emocionante, como quase tudo o é quando se está embriagado, sobretudo de vinho.

Ao fundo, Javier, el gaucho que fez o assado. (foto: Ricardo Machado)

Sem dúvida nenhuma, o assado que eu comi esta noite foi o melhor que já experimentei em toda a minha vida. Herrmann cantou Manah Manah e os gringos adoraram. Em pouco tempo um coro se formou. Ashley sorriu docemente, olhou com ternura para Herrmann e ele ficou nitidamente sensibilizado pela cena.

El guapo, el gaucho

Javier, colocando à prova seu personagem (Foto: Ricardo Machado)

Javier é o estereótipo do gaucho. É verdade também que o cara é um tanto quanto galanteador, não perde oportunidade alguma. Isso se deve ao seu “quê’ de performático, quase teatral. Formado em Turismo, falante de espanhol e inglês, resolveu ganhar a vida no campo, que em Mendoza fica no deserto. Na fazenda onde fomos passar o final do dia, Javier vive com seu irmão Daniel, um figurinha tão borracho quanto eu e Herrmann. Além dos dois, mais quatro ou cinco pessoas vivem lá, entre elas Marie, uma francesa que percorreu o mundo trabalhando com cavalos.

Javier não gosta de comparações entre gauchos e cowboys. Justifica, com razão, que os gauchos são mais valentes, calçavam botas artesanais feitas com o couro de animais que eram capturados para alimentação. Além disso, caçavam com arco, flecha e bolhadeiras, uma herança indígena, povo com o qual tinham uma relação próxima, tendo sido os indígenas fundamentais para as campanhas militares de San Martin, na conquista da Argentina. Ao explicar suas posições, ele ressalta que nos Estados Unidos os cowboys caçavam de Winchester e disparavam contra os índios.

Pessoas

Lugares e pessoas. Não fosse por pessoas como este gaucho, o italiano que trabalhava “con la bruja”, o maconheiro dono do Hostel em Córdoba, e tantas outras pessoas incríveis que cruzaram nosso caminho, este diário não mereceria ser escrito, tampouco lido.

Vários momentos na fazenda onde celebramos o último dia de estada em Mendoza, Argentina. (Fotos: Eduardo Herrmann e Ricardo Machado)

Na volta ao albergue sentamos no bar local, compramos um cerveja e enquanto ela não acabava, lembramos os dias incríveis que vivemos nesse pedaço de terra verde e desértico da Argentina. Aproximou-se de nós um suiço. Parecia gente boa e dizia adorar o Brasil. Compramos outra cerveja, ele prometeu pagar a próxima. Jamais cumpriu. Talvez um dia.

Mendoza, 25 de novembro de 2012.