~~ Diários de um Pisciano (até 12/05/2017) ~~

Lag (O Regresso)

Dizem por aqui que escrever espanta os demônios.
Mas e quando são os próprios demônios que atrapalham a escrita?

Tentando achar essas e outras respostas, há pouco ou muito mais de um ano atrás, mais precisamente no dia 15/02/2016, eu comecei a dar uma palinha dessas coisas doidas e monótonas que se apresentam no dia-a-dia de uma pessoa comum… quer dizer, bem… de uma pessoa aí.
De lá para cá, muito pensei e um tanto escrevi. Mas não cheguei a ficar tanto tempo sem postar desde a última vez.
Vejam bem, não é por falta de acontecimento, nem por falta de vontade.
De fato, já estamos agora em maio e meu plano era aproveitar o aniversário desses diários pra sistematizá-los em algum lugar por aí. “Cá, faz um blog”, insistiram à exaustão ̶(̶t̶i̶p̶o̶ ̶u̶m̶a̶s̶ ̶d̶u̶a̶s̶,̶ ̶t̶r̶ê̶s̶ ̶v̶e̶z̶e̶s ̶,̶ ̶b̶e̶m̶ ̶n̶o̶ ̶c̶o̶m̶e̶ç̶o̶)̶. ̶A̶ ̶v̶e̶r̶d̶a̶d̶e̶ ̶é̶ ̶q̶u̶e̶ ̶s̶o̶u̶ ̶t̶o̶s̶c̶o̶ ̶m̶e̶s̶m̶o̶,̶ ̶e̶ ̶a̶ ̶p̶r̶i̶m̶e̶i̶r̶a̶ ̶r̶a̶z̶ã̶o̶ ̶q̶u̶e̶ ̶v̶i̶ ̶p̶r̶a̶ ̶f̶a̶z̶e̶r̶ ̶u̶m̶ ̶b̶l̶o̶g̶ ̶a̶o̶ ̶i̶n̶v̶é̶s̶ ̶d̶e̶ ̶f̶i̶c̶a̶r̶ ̶p̶o̶s̶t̶a̶n̶d̶o̶ ̶t̶e̶x̶t̶ã̶o̶ ̶n̶o̶ ̶f̶a̶c̶e̶ ̶p̶r̶a̶s̶ ̶p̶e̶s̶s̶o̶a̶s̶ ̶r̶e̶c̶l̶a̶m̶a̶r̶e̶m̶ ̶f̶o̶i̶ ̶p̶o̶d̶e̶r̶ ̶u̶s̶a̶r̶ ̶o̶ ̶t̶a̶c̶h̶a̶d̶o̶ ̶c̶o̶m̶o̶ ̶b̶e̶m̶ ̶e̶n̶t̶e̶n̶d̶e̶r̶.̶ ̶E̶u̶ ̶s̶e̶i̶.̶ ̶O̶l̶d̶.̶
Mas cá estamos, quase três meses depois e só hoje eu consegui terminar de levar isso a cabo.

Pois bem. “Diários a gente escreve no dia-a-dia”, pensei desde o começo.
Pode ser. Só que muitas coisas e ideias tinham se passado no meu dia-a-dia e com elas a angústia de sufocá-las por prioridades outras quase sempre me consumiram mais do que se a própria escrita se concretizasse — quem dera eu lembrasse mais disso!
Então, que se concretize a escrita.

Pensei em falar de tudo, pensei em falar de nada, pensei e não falei nada, pensei e matei o tempo ̶(̶n̶e̶m̶ ̶e̶r̶a̶ ̶p̶r̶a̶ ̶f̶i̶c̶a̶r̶ ̶b̶o̶n̶i̶t̶o̶ ̶n̶e̶m̶ ̶n̶a̶d̶a̶,̶ ̶é̶ ̶p̶o̶r̶q̶u̶e̶ ̶f̶o̶i̶ ̶i̶s̶s̶o̶ ̶m̶e̶s̶m̶o̶)̶.̶
Então, pensei em falar do tempo. E do próprio pensamento.
Pensei em como o pensamento persiste e se opõe ao próprio tempo.
Pensei e teorizei sobre um fluxo — de ideias, práticas e pensamentos — que, como numa lagoa de águas frias, pode ser difícil de entrar, mas depois que você se acostuma, fica tudo maravilhoso.
Pensei e muito tentei escapar.
Já não era a primeira vez.

Pensei e estudei o tempo. Literalmente, aliás. Fiz um curso aí dum troço complicado chamado séries temporais meses atrás e lembrei da palavra lag e tempos depois percebi que era bem ali onde me encontrava.
Constrito, acuado. Na raiz unitária que subsiste à inferência do hoje, do agora, do(s) diário(s).
Já quase esquecendo isso tudo, lembrei de uma velha conclusão: a de que não há presente sem passado. Tudo bem se o presente não é lá tão presente. É apenas da natureza do presente que seja assim.

Então, comecei a anotar.
Anotei aquela ideia sobre a crise identitária e existencial que se formulou ao saber que meu nome tinha que ter acento no a.
Anotei para não esquecer as experiências carnavalescas do segundo Dia da Esperança no Tempo.
Anotei sobre um estranho moicano surpresa no cabelo ao acordar que também deve ter despertado uma viagem boa naquele momento.
Pensei em toda uma história de amor em San Junipero num dia de céu acinzentado.
Li umas coisas que me inspiraram a reagir. Voltei aqui e acolá e resumi o plano.
Voltando, achei então que algumas dessas ideias pudessem germinar novamente, mas estou nesse exato momento apagando metade das coisas que eu tinha escrito sobre elas em vão. Sem nenhum remorso.

Inevitavelmente, algumas eu guardarei para depois, pela própria natureza da persistência do tempo, mas dificilmente as trarei para cá. 
O lance é o seguinte: o tal do fluxo não resolve tudo pra quem tem medo de água fria. O lance é não ter medo de água fria.
Sei bem que isso não resolve o problema. Alternativamente, ao menos o coloca em perspectiva, como o teste de resistência e afirmação que ele realmente é.

Então, por fim, afirmo: o lag terminou e estou aqui regressando. Estou cansado e menos espontâneo do que o de costume, ou do que eu gostaria, mas logo logo a água esquenta. Bobagem: estou onde eu queria estar.
Para ficar.