Consumo, cotas, racismo e violência

A questão do consumo da educação no Brasil dá uma discussão boa. Postei o texto que vai no Facebook. Posto aqui também.

Está acontecendo uma discussão grande no grupo da FEA-USP Ribeirão (onde me formei, daí o interesse), já que alguém pichou “cadê os preto?” e “FEA lixo” no campus (foi o que vi nas fotos, não estive por lá). Li uma boa parte dos comentários, que se dividem em “pichação é errrado, independente do que for”, “mas cadê os pretos mesmo? USP racista” e “o problema é sócio-econômico”. E ainda teve um cara que postou uma pichação “where is John Galt?”

Na minha época (turma XIII, sou idosa), essa era uma discussão inexistente (mencionar a Ayn Rand então…) e mostra que o debate político nacional está adentrando os cursos mais técnicos, o que não é algo necessariamente ruim, afinal, ninguém, indivíduos e empresas, vive em uma bolha e pode ignorar o que acontece a sua volta: campanhas são boicotadas, discute-se se diversidade é benéfico para as empresas, reputação corporativa é relevante para bom desempenho financeiro, etc.

No mesmo dia, hoje, tive contato com o vídeo de um grupo de jovens negros fazendo uma “intervenção”, não sei se autorizada ou não pelo professor, em uma aula de direito também da USP Ribeirão. A moça que fala é extremamente agressiva e definitivamente não está levando argumentos para um debate. Seu discurso beira a violência e vingança. Ela acusa a todos que estão em sala de aula.

http://youtu.be/F-i66_24eJg

Olha, eu sei que muitas pedras vão ser jogadas em mim, eu não sou negra e não sei o que é sofrer racismo e não nego o problema do racismo estrutural do Brasil (não, a questão não é só sócio-econômica). Mas…

Realmente esse nível de agressividade é a solução? Gritar, berrar, acusar, destruir e se achar no direito de impor sua voz sem se abrir para outros pontos de vista não é debate. É agressão. É violência. Expliquem o que é lugar de fala. Com educação. Expliquem que discutir a questão racial é importante. Com educação. Briguem pelo resgate histórico-simbólico do sofrimento dos seus antepassados. Com educação. Debatam cotas (eu sou contra cotas raciais, mas não contra debates). Com educação.

É esse pensamento de “sou vítima, portanto faço o que quero, inclusive violência” que faz com que o país seja tão violento, que faz com que menores se achem acima da lei para roubarem de outras pessoas, que leva um ex-presidente a justificar o descumprimento da lei porque “foi pelos pobres” (roubando aqui uma ideia do Leonardo Cattoni).

O país é um lugar pior hoje porque toda violência é justificada por uma suposta injustiça. De novo: não é desmerecer a questão racial. Não é calar o debate. Não é nem ficar revoltada com uma pichação (fosse esteticamente agradável, a reação talvez fosse outra). É parar um ciclo de violência que certos movimentos e partidos estão desencadeando.

E que tem como resposta, o recrudescimento do “outro lado”, o Telhada dando bala (de açúcar) de brinde como zoeira, gente como o Marco Feliciano ganhando votos por ser homofóbico, a Sheherazade justificando que se amarre menor no poste (sim, ela justificou, o unfollow de quem gosta dela é livre), o Bolsonaro, um cara que ama o Estado tanto quanto petistas, virando símbolo da direita, o estatuto da família no congresso e o Guido Mantega sendo agredido verbalmente em hospital (e olha que tenho zero empatia com essa gente e pensei “bem feito” quando li a notícia, mas sei que é errado).

Querem pedir “mais amor, por favor?” Comecem a trazer certa razoabilidade para os discursos de vocês.

Tá foda o Brasil. Políticos vendidos e medíocres, quando não ditadores (oi, Lula). Debate de ideias infantilizado. Gente fazendo birrinha. Empresários em conluio e/ou defendendo o governo. Tá FODA.

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