Final Fantasy VI: Parte 5 — O final do final

Depois de 38 horas 46 minutos, enfim terminei Final Fantasy VI. Fiz basicamente tudo, com exceção das dungeons extras da versão do GBA (a que eu usei). Fechei o game com minha party no nível 51–53.

Adorei o game. Entendo perfeitamente como ele é considerado por muitos o melhor RPG do SNES, ou até mesmo o melhor jogo de todos os tempos. No meu caso não chegou a esse ponto (Chrono Trigger ainda é meu RPG favorito da plataforma e FFVI não tirou sequer o posto de Tactics de meu Final Fantasy Favorito, quanto mais jogo favorito), mas ele entrou seguramente no meu Top 100 pessoal.

Algumas considerações finais. Primeiramente, vamos falar do óbvio: a estética visual é muito boa envelheceu muito bem, a trilha sonora faz jus à franquia e a história é excelente. A trama é realmente o grande ponto forte, com momentos marcantes e um vilão interessantíssimo. Demora um pouco pra pegar no tranco, mas logo as coisas se encaixam e aí é só alegria.

Comparando com o resto da série, sinto que o jogo tentou experimentar muito mais com a fórmula criada por ele mesmo. Se FFIV era uma rendição perfeita da jornada do herói em formato digital, FFVI tenta explorar e desconstruir com mais profundidade esse molde. Há muito mais arquétipos de personagens, com arcos e motivações distintas. Na segunda parte da aventura, os moldes são jogados fora e as coisas ficam nas mãos do jogador. Ele quem decide que arcos completar e quando enfrentar Kefka. O que era uma jornada de heroísmo se torna numa busca por vingança.

Obviamente, o game não é perfeito. Comentei anteriormente que os personagens não eram lá muito desenvolvidos, e minha opinião não mudou muito depois de zerar. Eles não são rasos como uma poça, mas também não espere a profundidade de um oceano. O problema nem é a falta de motivações e conflitos (que eles têm de sobra), mas a caracterização. Em certas cenas mais parecia que eu estava lendo um roteiro em vez de um diálogo mais encorpado.

No melhor dos casos, temos a Celes. Ela é uma mulher forte e obstinada, que foi capaz de trair o império mesmo tendo sido criada e doutrinada para servi-lo. Sua acuação inicial é totalmente plausível e ela demonstra ser muito mais do que uma figura unidimensional assim que consegue a confiança do resto da equipe. Uma personagem 10/☆☆☆☆☆. Aí você compara ela com a Terra, que é seu típico “herói com passado sombrio que precisa descobrir o poder do amor e da amizade para lutar”, e os sentimentos mistos logo afloram.

Olhando para fatores mais lúdicos, o sistema de combate também traz alguns sentimentos mistos. Ele pode ser bem viciante e dá uma liberdade razoável para customizar seus personagens, mas é um belo regresso se comparado ao job system do título anterior (Final Fantasy V). Paradoxalmente, essa liberdade razoável acaba sendo excessiva demais. Eventualmente, todo mundo terá as mesmas magias e atributos semelhantes. Os personagens, tão únicos narrativamente, são basicamente os mesmos quando chega a hora da pancadaria.

Se os personagens eventualmente viram todos os mesmos, as batalhas inevitavelmente se tornam repetitivas. A última dungeon acaba se resumindo a tacar o Ultima sem parar até os chefes morrerem. Uma pena ainda maior se considerarmos que os chefões finais são, do ponto de vista narrativo e visual, incríveis. A Warring Triad e Kefka dão de mil a zero contra os vilões de todos os FFs anteriores e vários posteriores.

Mas essas coisas são apenas detalhezinhos quando vemos a experiência como um todo. No conjunto da apresentação, Final Fantasy VI é uma obra-prima. Uma obra-prima falha, mas primorosa do mesmo jeito.