Game over ou reset
Teria chegado ao fim a era dos guitar heroes?

M e lembro da época de escola. Um dos programas favoritos do pessoal era ir na casa de um dos brothers e jogar games. Quando conseguiam, então, fazer o combo “tarde de jogos + guitarrinha do Guitar Hero”, o frisson era geral. Eu nunca fui convidado, mas tudo bem. Naquela época tirava minhas primeiras notas em uma Eagle usada que ganhei de minha mãe. A sensação de empunhar uma guitarra de verdade era muito mais satisfatória do que resumir minha experiência em apertar cinco botões coloridos. Me limitei a duas ou três partidas, no joystick mesmo, quando um colega de sala me emprestou o Guitar Hero III: Legends of Rock. Mas eu não era exatamente uma representação fiel da recepção dos jogadores ao game. Por muito tempo, a franquia reinou em absoluto quando se falava em competições de eSports (pelo menos era o jogo que mais recebia atenção da mídia tradicional e, assim, chegando ao meu conhecimento). Naquela época isso nem tinha nome. Em Guitar Hero o jogador acompanha a trajetória de sua banda, rumo ao estrelato. Partindo de pequenos shows marcados pela precariedade, passando pelo crescimento de seu público, até chegar ao auge da carreira, em turnês internacionais por todo o mundo (com uma mãozinha de alguém um tanto quanto suspeito), o jogo é permeado por encontros com grandes ícones do instrumento. Nem sempre — ou quase nunca — amigáveis, por vezes os diálogos com essas lendas do rock culminavam em batalhas épicas em que as guitarras faziam as vezes de espadas e o menor dos erros era recompensado com vaias e desinteresse. Assim, o ápice da gameplay era subjugar as habilidosas particularidades de Slash, Tom Morello e até contra o próprio Diabo. Nem que fosse por alguns segundos, em frente à TV.
Contudo, uma das coisas mais divertidas no joguinho era customizar seu avatar roqueiro. Com múltiplas possibilidades de escolhas dentre os estereótipos do rock mundial, me lembro de poder optar por interpretar um representante do black metal escandinavo de raiz, uma típica integrante kawaii do J-Rock, e o icônico Axel Steel. Além desses, ainda era possível jogar com um sósia, até que convincente, de Jimi Hendrix, um punk genérico, entre outros. E as opções de customização não paravam por aí. Entre uma música e outra, era possível visitar a Guitar Center e, com muito esforço, conquistar um acervo de lendárias guitarras que toda criança do rock gostaria de, um dia, tocar, mesmo que indiretamente, por meio de um jogo de PlayStation 2. A Kramer, famosa pelo modelo signature de Van Halen, as clássicas Gibson Les Paul e SG e algumas com os designs tão mirabolantes que até Gene Simmons, se tocasse guitarra, pensaria duas vezes antes de adotá-las nos palcos.
Apoiado neste formato de jogabilidade, a franquia emplacou sete jogos principais, além de spin-offs e títulos para portáteis. Considerado uma das séries de jogos que nunca teria fim, seu desenvolvimento sempre se baseou na renovação de repertório e conservando, em quase toda sua existência, seu modo de jogo. Uma produção praticamente calcada na fidelidade de seu público. No entanto, os tempos são outros e, com a consolidação de conteúdos descarregáveis, como as DLCs — em inglês, downloadable content, ou seja, conteúdo baixável — , a necessidade de novos jogos, todo ano, perde força. Há mais de cinco anos Guitar Hero foi cancelada pela Activision, produtora da franquia, e a cada nova E3, o maior evento de games do mundo, um retorno da franquia parece mais distante. Em comunicado, na época, a Activision diz que tornou-se insustentável continuar a produzir jogos que dependem de músicas. Graças ao valor de licenciamento das canções ser muito elevado, resultando em um encarecimento exacerbado do produto. Com desenvolvedoras se dedicando a novos gêneros e plataformas de jogos, como o modo competitivo de Mobas — o formato de jogos que consagrou o “lolzinho” — e a febre dos Battle Royale, a jogabilidade recreativa do game perde adeptos à medida que novos costumes vão surgindo no mundo dos games. Resta crer que esse universo tão específico também seja regido por ondas cíclicas e, assim, em um futuro incerto, redescubram a beleza do passatempo. Por mais que “a arte imita a vida” seja uma frase parcialmente imprecisa, ela se constata em diversos episódios, e faz-nos questionar sua própria imprecisão, toda vez que se confirma. Sendo o videogame, considerado por muitos a décima arte, o fim do desenvolvimento de jogos da franquia é o reflexo de um fenômeno ainda em andamento, mas que demonstra ser difícil de controlar. Os guitar heroes da vida real estariam em extinção?
Essa foi a pergunta que fiz após assistir ao documentário Heróis da Guitarra Brasileira, produzido pelos jornalistas Leandro Souto Maior e Ricardo Schott. O documentário em curta-metragem traz relatos e depoimentos de figuras importantes para o desenvolvimento do instrumento em terras brasileiras, que resultariam no livro de mesmo nome. Em busca de uma identidade própria ao tocar, muito se produziu e as primeiras movimentações em direção ao resultado reverberam até hoje no cenário nacional. Mais que isso, grande parte dos pioneiros da guitarra elétrica no país continua atuante no clássico circuito guitarrístico.
Schoot conta um pouco do processo que deu origem ao livro e, posteriormente, documentário em questão: “o Leandro sentia falta de um livro sobre esse assunto no Brasil. Da mesma forma, ele [Leandro] pensou que o livro merecia uma contrapartida visual. Fomos cobrir em 2013 um festival chamado Brasil Guitarras, em BH, e voltamos de lá com um material enorme, que deixamos guardado. Esse material foi filmado pelo nosso amigo Felipe O’Neill, que havia feito as fotos exclusivas do livro”.
Edgard Scandurra, presente no documentário, ao comentar sobre o jeito brasileiro de tocar guitarra, ressalta como a mistura do espírito improvisador, somado ao virtuosismo garante uma marca única para a guitarra brasileira. Zé Menezes, lenda viva da música nacional, concorda com o guitarrista da banda Ira!, quando se fala em uma sonoridade singular, que permeia as plurais produções do país: “a guitarra brasileira é diferente de tudo”. A própria evolução do instrumento é marcada pelo peculiar modus operandi do brasileiro. Em meados da década de 1940, com as dificuldades em se ter uma guitarra americana, a dupla soteropolitana Dodô e Osmar decidiu desenvolver o protótipo de um instrumento legitimamente nacional. Assim, após dezenas de testes, surgiu o pau-elétrico. Posteriormente, o filho de Osmar, Armandinho, viria a refinar e desenvolver novos modelos do pau-elétrico, agora rebatizado de guitarra baiana. Ao lado de Pepeu Gomes, Armandinho é um dos responsáveis pela popularização, em nível nacional, da guitarra baiana. Claro que, acompanhado do recém-nascido instrumento, também surgiria uma nova forma de tocá-lo. E por meio dessa fusão de referências, conectando a tradição do choro de Dodô, ao calor dos ritmos tradicionais do Norte do país e a robusta renovação da guitarra elétrica de Jimi Hendrix, sua sonoridade ganha forma e volume.
Ao longo desses mais de 70 anos de guitarra elétrica em terras tupiniquins, os ciclos de sua existência começaram a demonstrar uma certa preocupação. De seu pioneirismo, com o surgimento da guitarra baiana, ao desenvolvimento de uma linguagem extremamente autoral no modo de tocar, à renovação de seus representantes, até à atual geração de guitarristas, há uma considerável baixa no protagonismo como verdadeiros artesãos do instrumento . Afinal, por que não há novos heróis da guitarra brasileira?
Ora, Kiko Loureiro, o mais novo dos entrevistados, tem 46 anos. O guitarrista do Megadeth é um dos atuais instrumentistas que ganha cada vez mais atenção por sua competência musical. Mas Loureiro atua em uma esfera que funciona de uma forma um pouco diferente de outros nichos do rock. O metal é essencialmente atencioso com o virtuosismo de seus integrantes. Desde Tony Iommi com o Black Sabbath, a tradição do gênero valoriza e fomenta o destaque dos instrumentos e das qualidades técnicas de quem está por trás. Na também tradicional e crescente extensão do metal, alguns de seus sub-gêneros criam dinâmicas ostensivas no que diz respeito a solos e arranjos extremamente sofisticados. Inserido nessa floresta de ramificações conceituais, o Animal as Leaders se destaca quando o assunto é técnica. Ainda mais em evidência está Tosin Abasi, líder da banda que é uma das precursoras do movimento Djent que, por sua vez, é uma subdivisão do metal progressivo. Em meio a uma clássica complexidade e novos modos de empregar o instrumento, Abasi já é considerado um dos melhores guitarristas de seu tempo e, quem sabe, o futuro da guitarra. Mas nem sempre o ambiente é tão encorajador para outros guitarristas.
Retornando para a realidade brasileira, o cenário é um pouco diferente. Mesmo que haja uma nova leva de guitarristas inventivos e interessantes, poucos são os que atraem olhares como que, um dia, conquistaram Sérgio Dias e Herbert Vianna. Se cultivássemos uma árvore genealógica da evolução da guitarra brasileira, veríamos que suas ramificações são mirradas, tímidas. Alguém podou errado essa planta. É claro que a guitarra continua sendo elemento importante das bandas, mas a relação do instrumento com seus companheiros sofreu drásticas mudanças nos últimos anos. Os holofotes que antes se voltavam para a protagonista da noite, e a expectativa do público, aguardando pelo tão esperado momento do solo, hoje dão lugar a uma organização direcionada à sonoridade coletiva, menos individual.
Para Scandurra, esse é o resultado de um caminho que vem sido percorrido há um certo tempo: “acho que a música atual e a música feita nos últimos 25 anos são uma música mais direta, uma música que se preocupa mais com os timbres e com a mensagem, tanto na poesia como na sonoridade. Por isso, ninguém tem tanta paciência, hoje em dia, para ver um solo em que o essencial deste seja a habilidade do guitarrista. O virtuosismo acaba flertando com a cafonisse. Esse é um modo de ver um tanto frio, porque ainda existem lindo solos em várias músicas novas que ouço. Mas tenho notado que dois ou três acordes e solos simples emocionam mais do que velocistas, que parecem que estão testando carros de corrida. Envelheço na Cidade tem um lindo riff que acredito que seja a sua principal identidade”.

Marcelo Ferraz, jornalista musical, acredita que o que mudou foi a própria consciência do instrumento que, agora, é colocado num lugar de mais união com o resto da banda: “acho que cada música tem um objetivo, uma cara diferente, e não é em todas elas que você precisa ter um riff/solo de guitarra lá na frente na mix encobrindo tudo. Guitarristas sempre foram muito o centro das atenções em músicas no rock e agora estão vendo que podem fazer o papel de uma ‘cama’ na base do som, como teclados e synths sempre fizeram. Cada instrumento cumpre uma função dentro da música, e não é sempre que a guitarra precisa ter essa função principal”.
Já Schoot acredita que o que falta é uma disposição do instrumento, e de seus instrumentistas, em se adaptarem aos novos tempos. “O que aconteceu foi que o mundo deu um passo à frente e a guitarra ficou no lugar que sempre pertenceu a ela. Chega um momento em que se uma banda quiser realmente inovar, ela talvez tenha que adquirir outras influências e não ficar tão presa ao rock-com-guitarras. O lugar-comum é que qualquer banda que queira ‘inovar’ hoje, volte fazendo um som com menos guitarras e mais pianos, como os Arctic Monkeys fizeram. O The Cure também partiu para isso, e lá pelos anos 1980. Um outro lance que precisa ser levado em conta é que cada época tem seu clássico. O ‘clássico’ da turma que tem hoje entre 20 e 30 anos talvez seja a música dos anos 1980, repleta de sintetizadores, e onde a guitarra não estava necessariamente em lugar de destaque”.
Aparentemente, a frase de Paula Toller tornou-se a máxima para muitos e solos de guitarra já não conquistam muita gente. Até mesmo bandas instrumentais, como Céu de Vênus, que tendem naturalmente a uma performance virtuosa, optam, por vezes, pela construção de atmosferas e texturas. Na cena da música underground, mas que flerta constantemente com o mainstream, alguns guitarristas se destacam pela forma inovadora que se relacionam com o instrumento.
Bandas como Far From Alaska, Medulla e Inky ganham cada vez mais notoriedade no cenário nacional, e por que não, fora do país. Em especial, a potiguar Far From Alaska vem traçando um interessante percurso em sua carreira na gringa. É claro que, por cantarem em inglês, muitos dos obstáculos são facilitados. Independentemente de barreiras idiomáticas, a música se demonstra maior que isso e o stoner rock do quarteto é reconhecido por aonde passa. Isso muito se deve a Rafael Brasil, o cara por trás das guitarras da banda. De uma forma bem espontânea ele se destaca pela relação que estabelece com outros instrumentos. Encarregado dos riffs marcantes, a guitarra de Brasil não está em busca de holofotes. Os detalhes de arranjos ficam por conta dos sintezadores e lap steel, instrumento muito utilizado no country e também conhecido como guitarra havaiana. Além dessa dupla pouco convencional no stoner rock, um elemento é adicionado ao conjunto: o pedal de voz. Criando uma atmosfera densa e misteriosa, o som da banda possui, definitivamente, presença e personalidade.
Mas quem é um fenômeno nacional é a Supercombo. Com mais de meio milhão de likes na página do Facebook (sério, isso é muito), a banda conquista uma legião de fãs por todo o Brasil e atualiza o conceito de interação com o público. A banda é uma das primeiras a produzir conteúdo com regularidade para o YouTube. E não estou falando apenas de conteúdo musical, não. De gameplays de League of Legends a daily vlogs da rotina de shows, os integrantes da banda mantêm a relação com quem os ouve ainda mais próxima. Uma das séries mais interessantes do canal é a de vídeos em que ensinam como tocar as músicas de seus álbuns. Mostrando um pouco dos bastidores de algumas canções, fica evidente que tocar guitarra na banda não é para qualquer um. Isso porque o trabalho não para entre os riffs e as palhetadas. A demanda é grande também para os pés de Pedro “Toledo” Ramos. Num mar de circuitos, cabos e knobs, o guitarrista da Supercombo navega entre múltiplas funções. Com vários pedais a seu favor, ele transforma sua guitarra em um instrumento de infinitas possibilidades. Algo que não se espera de um guitarrista em ação, por exemplo, é o uso de samples (amostras previamente gravadas de instrumentos, trechos de músicas ou efeitos sonoros) criados e ativados diretamente pelo próprio pedal, mas essa é uma das práticas mais comuns da banda. Combinado a outros pedais que permitem manipular alturas e dar alguns empurrões a mais no som dos amplificadores, a versatilidade do guitarrista representa uma interessante polivalência do grupo, contando, às vezes, com uma espécie de quinto membro (ou sexto, nunca esqueçamos do menino multifunções Paulo Vaz). Assim, eles repensam e recriam o papel do instrumento em sua formação, culminando em momentos em que, nem mesmo a guitarra é tocada, dando espaço aos loops de seus DL-4 — Leo Ramos, vocalista da banda, também é um adepto do pedal. Toledo conversou conosco e contou um pouco sobre como é o processo de desenvolvimento das linhas de guitarras.
“Sempre tento fazer coisas que estão um pouco fora do meu alcance pra eu ir evoluindo na medida que vou criando. Acho que essa é a principal característica. Curto muito desconstruir a maneira de tocar a guitarra. Principalmente pelo fato de eu não ter um lado ‘acadêmico’ de músico guitarrista. Gosto de tentar colocar uma nova maneira de tocar, até pelo fato de não ter a escola clássica”, comenta. Ainda quando perguntado sobre o atual papel do solo, ele ressalta a importância de cada elemento perceber o espaço que tem, para não prejudicar ou saturar a produção por completo: “não sei muito bem mas acho muito chato quando a banda coloca um solo no meio de todas as músicas sem motivo nenhum. Não curto muito esse lado show off de guitarrista. Prefiro tentar fazer funcionar a música sem solo e se sobrar um espaço criar alguma parte melódica pra acrescentar na produção”. Parece que os novos guitarristas tendem a entrar em consenso quando se trata dessa maneira de enxergar a guitarra. Guitarrista da banda goiana Carne Doce, Macloys Aquino observa como a maneira de tocar o instrumento tem se voltado para um método mais econômico e detalhista: “acho que essa é uma característica da guitarra, hoje. Um bom guitarrista, às vezes, é quem sabe fazer texturas, sabe escolher as notas nos lugares certos, que sabe fazer boas harmonias. Mais do que o cara que sabe solar demais. É um negócio mais sensível e menos virtuosismo”.
Mesmo assim, ainda há quem se encarregue de que a tradição da guitarra solo não caia no esquecimento. Para isso é necessário mais que um mero resgate dessa forma de fazer música, mas um trabalho, no mínimo, intrincado em aliar a tradição e presença do instrumento às novas necessidades da música moderna. Esses remanescentes atualizam a prática em músicas que unem dois tempos distintos. A Ventre é desse jeito. Orgulhando a tradição do rock, o trio carioca proporciona o encontro do clima soturno do rock noventista à energia criativa da psicodelia. Incumbido de dois quartos do trio (guitarra e voz), Gabriel Ventura dita, por meio de sua semi-acústica ancestral, uma intensidade saturada e poluída — no melhor sentido que a descrição possa ter — , tal qual um amplificador valvulado no ápice de seu fervor. Passeando ao redor de temáticas da vivência poética contemporânea pós-Los Hermanos, a instrumentação de suas canções é o contraponto perfeito para o que é cantado. É como se a realidade se materializasse diante das lamúrias da juventude como uma sintonia entre o baixo brilhante, uma bateria condutora de toda a energia do grupo e a agressividade de um solo com muito fuzz e instinto pulsante, à la Jimi Hendrix. Falando nisso, Ventura é mais um que herda o seleto legado da guitarra canhota. Se não fosse o bastante, as semelhanças se extendem pelas minúcias da execução. Assim como o lendário músico, Ventura toca sem inverter as cordas da guitarra. Ou seja, para eles, todas as cordas estão ao contrário. Scandurra também é dessa escola e conta que, apesar de ser um diferencial em sua sonoridade, a canhotisse não faz milagres: “acho que ser canhoto e não inverter as cordas me dá uma particularidade especial e essencial na forma e no som que tiro da guitarra. Mas isso é uma particularidade. Não é algo mágico, que faz com que eu toque bem ou mal o instrumento”.
Definitivamente essa particularidade está inserida na sonoridade de Ventura. Além da Ventre, o guitarrista faz parte de ínumeros outros projetos, como a banda Posada e o Clã e o supergrupo Xõó, composto também por conhecidos atuantes do cenário independente. Ainda assim, ele acompanha importantes nomes da nova e da clássica MPB, como Cícero, Duda Brack e Lenine. Cada qual em seus distintos escopos sonoros, a atuação do guitarrista em cada projeto garante uma multifacetada carreira, no entanto, mantendo sua assinatura em todas suas participações.
Muito em comum com Ventura tem Tim Bernardes. Desde compor um power trio, até a preferência pelas semi-acústicas, ambos operam um resgate da musicalidade de outros tempos. Mas, se com a Ventre, a energia é desmedida, com O Terno, as reminiscências são sutilmente introduzidas, de forma que elementos clássicos ganhem novos ares em uma performance nostálgica e ao mesmo tempo renovadora. O líder do power trio paulistano é um dos que Edgard Scandurra cita como representantes da nova geração da guitarra brasileira: “gosto muito dos guitarristas do Nordeste como Catatau, do Cidadão Instigado, Lúcio Maia, do Nação Zumbi, Tim Bernardes d’O Terno e alguns outros guitarristas”.
Bernardes é filho de Maurício Pereira, integrante da terceira menor big band do mundo, Os Mulheres Negras. Quem conhece o duo formado também por André Abujamra, sabe que a irreverência de sua musicalidade não é uma completa aleatoriedade. Por trás está todo um arcabouço de estudos, escutas e experiências. O que foi possível passar para os filhotes, Pereira passou. Algumas coisas são aprendidas apenas em experiências individuais. Com o decorrer de seu amadurecimento, Tim foi delineando características singulares em sua atuação como músico. Para além da guitarra, o ainda menino carrega em suas referências uma infinidade de artifícios a serem usados e seu espírito peralta, diante da música, o impede de desperdiçá-los no enclausuramento da não realização. Muitos desses recursos ainda se mantêm em segredo, mas o que o cantor já mostrou para o mundo comprova sua relevância e aptidão de mudar os paradigmas da música nacional. Atualmente, ele é um dos nomes mais proeminentes do universo da música brasileira, ganhando atenção tanto do mainstream, quanto da cena independente. Desde 2016, lançou dois trabalhos: Melhor do Que Parece, com O Terno e Recomeçar, em projeto solo. Ambos sendo bem recebidos pela crítica e pelo seu público. Enquanto com Recomeçar, o cantor expôs o lado mais sensível e melancólico de términos, inícios e o sentido cíclico da vida, com Melhor do Que Parece, ele aborda o mesmo assunto, porém com um otimismo experiente, consolando os abatidos com um acolhedor “vai melhorar”. Muito disso se deve às roupas com que o líder do trio decidiu vestir suas composições para o terceiro álbum do grupo. Com mais aberturas para orquestrações, riffs e participação da cozinha da banda, os quase onipresentes solos das produções anteriores passam a ser pontuais e, consequentemente, tornam-se momentos mais especiais. “[A guitarra] perdeu para novos sons tecnológicos, como os samplers, muitos desses sons de guitarra, inclusive. Perdeu para os teclados, perdeu para os rappers, para a dança, enfim, não é o momento de protagonismo da guitarra na música atual. Porém, isso não é tão importante assim, para quem gosta de boa música. A boa música não vem necessariamente da guitarra. Isso serve pro rock and roll também”, analisa Scandurra. Talvez Tim seja o novo perfil do Guitar Hero contemporâneo.

ABANDONO — Nos últimos meses uma notícia causou alvoroço e preocupação no mundo da música. Feito um sinal de alerta, o anúncio da falência da Gibson, uma das grandes fabricantes de guitarras, baixos e afins, atraiu mais olhares para a atual situação dos instrumentos analógicos, de modo geral. A verdade é que cada vez menos as pessoas se interessam em utilizar instrumentos para produzir músicas. Segundo dados da Anafima (Associação Nacional da Indústria da Música), em cinco anos, as importações do instrumento caíram 78% no país. Em entrevista à rádio CBN, Daniel Neves, presidente da associação, considera a ascensão de gêneros nos quais a guitarra não tem papel de destaque um fator para a baixa na procura do instrumento. “Existe uma questão de moda. O sertanejo foi um estilo musical que pegou. O número de violões sobe, não o de guitarras. Quando a gente tinha um movimento da indústria fonográfica para o forró, o número de acordeons aumentou incrivelmente. Acho difícil dizer se a guitarra vai voltar a ser um instrumento do momento. É muito mais uma questão de quem será que vai reinventar a roda da música.”
Apesar de o cenário ser propício à alarmância, Ferraz enxerga a situação das grandes fabricantes de instrumentos a partir de uma ótica um pouco diferente. Segundo o jornalista, o nicho continua alimentando o mercado e essa nova situação permite novas possibilidades para outras fábricas se estabelecerem e conquistarem público. E pode ficar tranquilo, segundo o precioso achismo dele, a guitarra não corre risco de extinção: “guitarras sempre vão existir. No mundo inteiro. A escala com que elas são produzidas e comercializadas deve cair mais, mas temos uma série de marcas produzindo instrumentos paralelamente aos gigantes como Gibson e Fender. Eu acredito que o mercado nichado tem força pra sustentar uma série de marcas produtoras menores e qualificadas, enquanto as grandes vão ter que se virar pra achar novas demandas que as mantenham de portas abertas. Eu acredito na força da música que usa instrumentos ‘orgânicos’, sejam eles de sopro, corda, teclas”.
É claro que grandes gravadoras e artistas da indústria fonográfica não vão abrir mão de terem suas músicas produzidas na Abbey Road Studios, com uma guitarra de U$20 mil, plugada em um amplificador Vox AC30 usado por George Harrison, microfonado com equipamentos que são guardados em um cofre após o uso. Mesmo assim, a tendência é que programas de computador e aplicativos móveis, cada vez mais sofisticados, tornem a produção ainda mais acessível. Há tempos, gravações caseiras — aliadas com a popularidade da estética massiva do Lo-fi — têm feito sucesso e conquistado uma consistente comunidade de fãs.
Ricardo Schoot acredita que uma parte dessa fase ruim que passam as fabricantes de instrumentos seja pela visão turva com que miram seu público-alvo: “um vício que qualquer pessoa que lida com rock precisa perder pra ontem, é o de tratar o rock como algo que tem que ser ouvido pelos jovens. Quem cresceu tendo a guitarra como um instrumento-fetiche tem entre 40 e 70 anos. Eu nunca vi nenhuma campanha de marca de guitarras que servisse para apresentar seus produtos a um público que já tem certa idade mas nunca pegou numa guitarra na vida. É com essa turma que qualquer pessoa que lide com rock tem que se preocupar”.
Rafael Brasil é um dos entrevistados do Melodias Sonoras #2, grande reportagem produzida por Marcelo Ferraz para o Podcast TMDQA! (Tenho Mais Discos Que Amigos!). O guitarrista comenta sobre como os novos gêneros predominantes no Brasil, como o sertanejo, o rap e o funk (majoritariamente sem guitarras) contribuem para um certo enfraquecimento do instrumento para as novas gerações: “tem vários hits e singles que tocam no rádio que nem tem guitarra. Hoje em dia você consegue fazer essas músicas inteiras no computador”.
O produtor Steve Lacy é prova viva. Eternamente grato ao Garage Band (aplicativo disponível para o sistema iOS), o jovem rapaz já colaborou com alguns dos maiores nomes do hip-hop mundial, como Kendrick Lamar, J. Cole e Tyler, The Creator. Lacy também é integrante do grupo The Internet, um dos mais promissores da cena de neo-soul norte-americano. Se não fosse o bastante, no auge de seus 19 anos, ele lançou um dos trabalhos mais interessantes com que me deparei recentemente. Steve Lacy’s Demo é exatamente o que o título sugere. No melhor estilo de “caseirices experimentais”, o produtor apresenta um outro lado de suas composições, no qual o casamento entre o ritmo e a poesia sofre a intromissão do blues, que toma posse da companhia musical da dupla para estabelecer, então, uma conexão ainda mais melódica: o R&B. Elogiado pela crítica, o compacto, além de sua amadurecida coerência, flerta com o soul, o indie e o funk em uma fluidez digna de nota. Tudo fica ainda mais interessante ao descobrir que grande parte das canções que compõem o EP foram produzidas no iPhone de Lacy. Pois é, se não tivessem me contado, eu nunca desconfiaria. “Posso conectar a guitarra no iPhone e todos os amps [amplificadores] estão lá e consigo tirar ótimos sons da guitarra”, ele conta para o portal Wired. Mesmo que o jovem produtor toque em instrumentos de qualidade, a ideia de que bons instrumentos já foi rebatida e, hoje, essa discussão já é superada, após o fenômeno de Mac Demarco e sua Mosrite/Teisco de U$30.
Eleito como o último herói da guitarra pela revista Rolling Stone, Jack White acredita que a volta do rock está eminente. Quando participou de uma entrevista para a rádio norte-americana KROQ, ele demonstrou estar bastante esperançoso pelo retorno do gênero e acredita que o que falta é um pouco mais de ímpeto: “o Rock & Roll precisa da injeção de sangues novos, jovens que destruiriam todo mundo atualmente. Acho que [isso] está se formando e irá acontecer em breve. Acho que é algo muito bom”, analisa o cantor. Mas o prolífico músico não se resume apenas ao The White Stripes e sua empreitada como artista solo. Ele também fundou as bandas The Racounters, The Dead Weather e a gravadora Third Man Records, que lançou, além dos projetos de White, nomes importantes do rock independente. Habituado com a natureza oceânica da música, ele enxerga, adiante, novas águas alcançando a rebentação: “desde a criação do rock, a cada dez ou doze anos existe algo refrescante e uma nova injeção de algo que eu acho que poderíamos chamar de atitude punk ou algo do tipo. Algo selvagem. As coisas ficam loucas e então continuam assim por alguns anos e então ficam mais sutis, e aí você precisa esperar pela próxima onda para que as pessoas fiquem animadas e obcecadas novamente”. No que diz respeito à perspectiva dos períodos de intervalo da música, Ferraz assina embaixo: “Acho que da mesma forma que existe uma busca por sonoridades dos anos 80, 90 hoje na música mundial, muitas crianças e jovens acabarão redescobrindo o poder desses instrumentos e decidir montar uma banda ao invés de compor uma faixa de música eletrônica no notebook. Então acho que sim, tudo é reversível. Amanhã pode surgir uma banda/artista que toque guitarra e inspire uma geração nova de brasileiros inesperadamente, nunca se sabe”. Rafael Brasil, quando perguntado no Melodias Sonoras #2, sobre o retorno do instrumento, ele também tem muitas esperanças: “acredito que [a guitarra] volta, acredito no ciclo das coisas”. Pelo menos de forma indireta, todos estão de acordo com o espírito de Melhor do Que Parece, último álbum d’O Terno: “Há uma chance de um novo começo/ Um tempo bom pra fazer diferente.” Nos resta crer nas palavras de Tim Bernardes e eis que é tempo de recomeçar.

