Eduardo, Elliot, Snowden, eu e você. O que nós todos temos em comum?


Eduardo tem um adesivo que cobre a webcam de seu computador. Ele também tem mania de fechar a janela do quarto por achar que está sendo observado pelos vizinhos. Suas senhas são gigantescas e ele tem medo da internet em geral. A porta de seu apartamento possui uns 4 ou 5 tipos diferentes de trancas. Além disso, toda vez que Eduardo usa um computador diferente, seu procedimento padrão é abrir uma aba anônima para só depois entrar em seu email. Ainda assim, antes de ir embora o moço confere mais de uma vez se realmente saiu de seu correio eletrônico.

Eduardo poderia facilmente ser um personagem de um filme qualquer, mas não é. Ele é uma pessoa normal que permeia o meu cotidiano e, com certeza, você também tem algum Eduardo em sua vida. A realidade é que todos nós, em maior ou em menor instância, nos sentimos assim. Vigiados, perseguidos, controlados e, sobretudo, vulneráveis.

Mr Robot é uma série que fala exatamente sobre isso. Sua sinopse diz respeito a um hacker que quer derrubar o sistema. Sistema esse no qual estamos completamente imersos: nosso cotidiano é rodeado por inúmeras marcas, o tempo todo estamos com algum aparelho eletrônico ligado por perto, o nosso dinheiro define não só o que podemos ou não fazer, mas também quem somos e qual o nosso papel na sociedade. E, enquanto isso, existe o 1%. O 1% que está no topo da sociedade e que brinca de Deus. Que tudo detêm, que tudo comanda, que tudo sabe. Mas sobre ele não sabemos nada.

Apesar disso, o enredo do seriado não importa tanto assim. O ouro da obra está no subjetivo, ou melhor, nos detalhes que possui ao mostrar com maestria os efeitos que o mundo digital produz sobre nós. As câmeras espalhadas por todos os lugares. O GPS do celular. A tal da nuvem, que armazena tudo o que pesquisamos, ouvimos, fotografamos e escrevemos, bem como a hora e o lugar em questão. E, se essa nuvem tanto contém, é provável que ela também possa a qualquer momento chover o que guarda, principalmente após uma ordem desse 1% que brinca de Deus. A verdade é que Elliot, o hacker que protagoniza a série, pouco difere do Eduardo, de mim ou de você.

Snowden é um filme lançado em novembro de 2016 e baseado em fatos reais que muito se parecem com o tema central de Mr Robot. Retrata a trajetória de um ex-funcionário terceirizado da Agência de Segurança dos Estados Unidos, chamado Edward Snowden. Após se incomodar com uma prática abusiva do governo, o personagem principal torna-se inimigo número um da nação por divulgar a jornalistas uma série de documentos sigilosos que comprovam atos de espionagem praticados pelo governo norte-americano contra cidadãos comuns e lideranças internacionais. O filme não só debate sobre a inocência ou a culpa de Snowden, como também abre os olhos dos espectadores em relação a privacidade de pessoas comuns. Uma coisa é usar a tecnologia para investigar suspeitos de algum crime ou terroristas, outra é espionar os indivíduos sem um motivo inicial e usar essa informação com objetivos não esclarecidos. Richard Stallman, criador do ‘software livre’, e apoiador de políticas mais inclusivas no ciberespaço, chegou a afirmar, em novembro deste ano, que “a democracia precisa de heróis como Snowden”, querendo dizer que seus vazamentos expuseram a realidade na qual as pessoas estão inseridas, muitas vezes sem sequer ter consciência de tal situação.

Um romance e um filme biográfico que evidenciam uma realidade cada vez mais intrínseca ao nosso cotidiano. Com a premissa da busca por mais segurança, somos completamente cercados de vigilância e, em troca, não recebemos nenhuma certeza da eficácia de tal estratégia. Muito pelo contrário, nos sentimos mais inseguros a cada dia que passa. Perdemos nossa liberdade às custas de absolutamente nada.

A teoria do “cérebro dividido” do neurobiologista e fisiologista americano Roger Sperry é um viés plausível para analisarmos tal fenômeno. Em seus estudos, ele chegou a conclusão de que em cada parte do cérebro reina determinadas capacidades cognitivas do ser humano: no hemisfério esquerdo, o lado racional, lógico, matemático e linear domina majoritariamente o funcionamento do mesmo; em contrapartida, o lado direito é caracterizado pela sensibilidade, criatividade, bem como pela arte e pela não linearidade do pensamento.

Assim, a realidade na qual nos encontramos acaba privilegiando o nosso lado mais racional em detrimento do criativo. Passamos muito tempo agindo em prol do “modo automático” proporcionado por um dia a dia cada vez mais enlatado, repetitivo e superficial. Assim, perdemos gradativamente a nossa capacidade de criar e, se não conseguimos mais desenvolver o nosso lado subjetivo, mais difícil fica a possibilidade de pensarmos em um escape eficaz para esse aprisionamento imposto pelo mundo digital no qual estamos imersos.