Ex-Machina, Her e Westworld: uma crítica à inteligência artificial

Ex-Machina narra a história de Caleb, um jovem programador que é sorteado para testar um projeto de inteligência artificial. Lá, ele é apresentado à Ava, uma robô cujo comportamento é perfeito, e também ao seu criador, Nathan, um bilionário socialmente isolado. O que ninguém esperava, no entanto, é que a perfeição de Ava fosse tamanha que ela pudesse não só seduzir Caleb, como também o deixar em dúvida em relação a quem confiar.

Her possui um enredo completamente diferente: o solitário escritor Theodore adquire um novo sistema operacional que basicamente cumpre a função de dar assistência ao seu dono, porém de forma digital. Apelidada de Samantha, embora seja o primeiro software a possuir inteligência artificial, a tecnologia que está em jogo no filme não difere muito da Siri, a secretária pessoal disponível nos aparelhos da apple. Theodore, porém, vai além da proposta do dispositivo: se apaixona pela voz de Samantha e, então, mantém um peculiar relacionamento amoroso com a mesma.

Westworld, por sua vez, é uma nova série da HBO que tem como base um filme homônimo lançado em 1973. A obra aborda a história de um parque de diversões com tema de faroeste no qual os convidados têm a oportunidade de vivenciar a época e o lugar em questão. O “plus” é que ali as experiências são vivenciadas em sua totalidade: todos os moradores do local são robôs absolutamente perfeitos e semelhantes à nós. Logo, por não serem reais, os visitantes podem fazer o que quiserem com os mesmos, inclusive estuprar e matar. O problema é que, justamente por serem tão reais, os robôs acabam criando consciência de si próprios e saem do roteiro previamente estabelecido, causando inúmeros conflitos.

Mais do que três produções sobre inteligência artificial, as obras nos fazem questionar o conceito de realidade e, sobretudo, de consciência.

Em Ex-Machina e em Westworld, a tecnologia é exaltada. Nada absurdamente distante do que permeia a realidade atual (mesmo que em fase de testes), mas ainda assim são obras um pouco futuristas ao exaltarem robôs tão perfeitos que são completamente passíveis de serem confundidos com seres humanos. Entretanto, em Her a situação é um pouco diferente, uma vez que a tecnologia em questão equivale totalmente à que possuímos nos dias atuais. Nos três, porém, a situação converge para um mesmo ponto: se a inteligência artificial é tamanha a ponto de desenvolverem consciência tal como ocorre com um ser humano, ainda assim eles devem ser tratados como robôs? Ou, se podem ser equiparados à nós, logo adquirem os mesmos direitos que nós possuímos?

E não para por aí: na era digital, busca-se a perfeição. Não o auto-aperfeiçoamento, mas o simples aparentar ser perfeito. As redes sociais se tornam uma espécie de definição do que somos. Portanto, quanto melhor for o que expormos das nossas vidas, melhor será o feedback que receberemos, ou seja, maior será o nosso retorno em likes e visualizações. E, se não alcançamos nosso objetivo, simplesmente editamos o post ou o excluímos. Assim, nos tornamos seres idealizadores. Buscamos o platônico e nada menos. Descartamos com facilidade tudo o que não nos sacia por completo, assim como evidencia o conceito de modernidade líquida desenvolvido por Bauman. O que isso tem a ver com Ex-Machina, Her e Westworld? Se outro ser humano, com toda a sua complexidade psíquica e individual, não consegue corresponder a nossa expectativa idealizadora, por que não utilizarmos a tecnologia para conseguir exatamente o que queremos? E, assim, aparecem os robôs. A coisificação do ser humano. Uma forma de escravizar sem culpa. Uma resposta a altura de nossas expectativas platônicas.

No entanto, se a tarefa for realmente bem executada, o dilema se estabelece: o que caracteriza de fato um ser humano? Se for o seu cérebro e a sua consciência, em breve a inteligência artificial se igualará ao ser humano. No entanto, se for o pulsar do coração, ainda teremos mais algum tempo para digerir toda a dialética que se estabelece em torno do assunto. Afinal, os corações são uma das poucas exclusividades que se restringem apenas a nós. Pelo menos por enquanto.