10 tendências para um mercado digital de notícias com conteúdo pago

A mudança no eixo principal do financiamento do Jornalismo — da publicidade para modelos de receita gerada a partir dos conteúdos, seja por subscrições, paywall, branded content ou micropagamentos — deverá produzir ainda muitas alterações no modo de produção da informação e, por consequência, no tamanho das redações e no modo de contratação dos profissionais de comunicação.

Nas últimas duas décadas, os jornais americanos perderam quase 40% de sua circulação diária, que caiu para 35 milhões no ano passado, segundo estimativa do Pew Research Center reproduzida pelo site The Economist na semana passada. Já as receitas anuais de publicidade diminuíram 63%, ou 30 bilhões, apenas nos últimos dez anos. As redações americanas perderam 40% dos repórteres e editores desde 2006.

Os números do quadro acima mostram com clareza como é vertiginosa essa queda da receita obtida com publicidade pelos jornais nos Estados Unidos. A circulação, por outro lado, tem se recuperado em função da temperatura do noticiário, principalmente o político. Comparados à realidade brasileira, os números são de dimensões diferentes, mas é possível dizer que mostram tendências que aqui se repetem. Nós também observamos uma queda importante de receita publicitária, os veículos estão mudando seu foco para o conteúdo como fonte principal de receita e o contexto político e econômico instável gera muita informação de interesse público. E aqui houve também redução significativa no tamanho das redações, como mostra a conta dos passaralhos do Volt Data.

Esse contexto é bem conhecido pelos profissionais de comunicação, o que provavelmente não esteja tão evidente são as consequências dessa guinada na vida de jornalistas e de empresas de comunicação. Proponho, então, um exercício que ajude a vislumbrar algumas tendências, próximos passos desse caminho que não deve se afastar nunca da sustentabilidade econômica.

  1. Com o conteúdo sendo valorado diretamente e considerando que a notícia não escolhe hora, é possível imaginar que teremos um mercado dinâmico de produção de conteúdo. E esse mercado será influenciado diretamente pela demanda criada pelo interesse do público.
  2. Fugindo da obrigação de produção de conteúdo para suprir uma demanda que nem sempre é do público, mas de grades de programação ou número de páginas pré-determinado, o volume produzido poderá ser variável, dependendo da relevância da notícia e do interesse do leitor/usuário.
  3. A menor dependência da publicidade implicará também em menor exigência de volume de conteúdo. Sem a obrigação de gerar mais inventário para atender anunciantes, podemos pensar em atender mais e melhor o leitor. Produzir menos deve permitir produzir melhor, em formato e tempo mais adequados ao contexto do público.
  4. A demanda básica será suportada por redações mais enxutas, dedicadas a produzir informação de qualidade, mas limitadas ao atendimento de uma demanda média. A demanda extra, quando surgir, será suprida com a produção de terceiros.
  5. Para atender picos extraordinários de demanda, os veículos de comunicação necessitarão contratar conteúdos produzidos por profissionais especializados ou por empresas que atuem em setores segmentados, que produzam conteúdo de nicho ou que tenham estrutura para fazer cobertura local.
  6. Essa terceirização terá que seguir critérios de qualidade bem definidos para que os padrões do veículo sejam reconhecidos pelos leitores. Para isso, será importante que esses veículos que irão terceirizar a produção de parte de seus conteúdos formem parcerias com seus fornecedores de conteúdo. Como se vê no quadro mais abaixo, resultado de um estudo da Sharethrough/Qualtrics, também um dado americano que é possível projetar para o Brasil, os veículos ainda desfrutam de maior credibilidade quando comparados às plataformas de redes sociais. Para obter receita com conteúdo, é importante que essa relevância seja mantida.
  7. A terceirização de parte da produção de conteúdo deverá criar uma rede de fornecedores. A remuneração por esse fornecimento ajudará no financiamento de novos empreendimentos jornalísticos e, por consequência, a formar um novo ecossistema digital.
  8. Oferta e demanda variável e a diversidade de fontes de informação vão exigir uma nova dinâmica para as assinaturas. Os leitores procurarão modelos de curto prazo, renováveis, e deverão se afastar de compromissos mais longos. Estará na mão do veículo a produção de conteúdos capazes de capturar a atenção de seus públicos por mais tempo.
  9. A facilidade para assinar e deixar de assinar será um diferencial competitivo. A dificuldade para cancelamento será cada vez mais um inibidor para subscrições de médio e longo prazo.
  10. Se o paywall, o muro de cobrança, for inevitável, que ele seja de vidro. A transparência é amiga íntima da credibilidade e ela deve ser exercida com um mínimo de restrições, do modo mais amplo possível.
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