Reprodução de Mercado de Notícias, filme de Jorge Furtado

Assinaturas digitais e a realidade do leitor

Uma análise da crescente exigência de assinatura para acesso a conteúdos digitais e a desconexão com a realidade do leitor

Desde sempre bato na mesma tecla: conteúdo digital não se grampeia. Ele é produzido a granel. Cada grão é único, tem tamanho, sabor e textura diferentes, mas no mercado de notícias você só consegue comprá-lo por quilo, em pacotes embalados a vácuo pelo produtor. Esse é um mercado centrado em produto, quando deveria ter no centro quem consome: o leitor. E quando falamos na necessidade de mudança do eixo de financiamento do Jornalismo para a remuneração pelo conteúdo, isso fica ainda mais evidente.

Por que insisto nessa tecla? Porque num ambiente de conteúdos fragmentados como é a web, no qual uma infinidade de notícias navega na órbita do leitor, usando suas conexões e redes, é comum que este leitor, ao se deparar com um conteúdo que o atraia, abandone a rota e tome outro rumo. E também é comum que, ao chegar no destino que o atraiu, este leitor se depare com um aviso de paywall ("você está lendo uma das três notícias a que terá direito neste mês") ou avisos como este, cada vez mais comuns:

"Não tem assinatura? Você está perdendo".

A necessidade e a urgência da obtenção de remuneração pelo conteúdo produzido cada vez mais nos coloca diante de conteúdos fechados para assinantes, cujo acesso só é possível a quem faz uma assinatura por no mínimo 30 dias.

Vou desenhar.

Isso é o mesmo que você, ao passear por um bairro que visita raras vezes, sentir vontade de comer uma maçã que viu exposta numa fruteira mas não poder comprá-la. Para comê-la, você terá que pagar um valor que lhe dará direito a comer também as uvas, laranjas e bananas, mesmo que você não goste das uvas. Não lhe parece um exagero? Mas mesmo isso não será suficiente para você comer a maçã. Você terá que adiantar à banca um valor que lhe dará o direito de comer maçãs, uvas, laranjas e bananas nos próximos 30 dias, mesmo que você não tenha planos de voltar àquele bairro.

Muita gente boa já pagou caro por uma maçã, mas considere que essa mesma transação vai ser exigida nas fruteiras da sua rua, do seu bairro, por onde habitualmente você passa, lugares em que até faz sentido você abrir uma conta firme para pegar as frutas da sua ração diária.

Você vai me dizer que, bem, maçãs, assim como as notícias, custam caro e o fruteiro precisa receber pela maçã que pôs à venda, é justo que ele seja remunerado. E se eu lhe disser, que essa mesma maçã, mesmo depois de comida, ele poderá continuar vendendo para todos os clientes habituais e forasteiros que passarem pela sua vitrina? Que o valor que ele gastou para produzir uma maçã é o mesmo que ele gasta para produzir mil maçãs iguais àquela?

Olhando para as maçãs, aquele modo de comprá-las pode parecer um absurdo, mas é o mesmo que ocorre com o mercado de notícias. Para ler o que nos interessa, estamos obrigados a fazer uma cesta de assinaturas que limita a nossa liberdade de escolha pelo orçamento. O que faria sentido não fosse a obrigatoriedade de pagar por informação independente dela ser consumida. Se, por uma limitação de custos e uma questão de conveniência, no início do mês eu tiver de escolher assinar o Estadão em detrimento da Folha, não poderei mais ler gente como Antônio Prata ou Celso Rocha de Barros, embora quisesse pagar para lê-los. Minha assinatura do Estadão me permitiria ler Eliane Cantanhêde todo o dia, mas isso quase nunca faço.

Os muros interpostos entre leitores e conteúdos fazem com que as pistas livres da rede se transformem em labirintos pelos quais esses leitores trafegam em busca de saídas.

Uma das soluções sempre mencionada é o marketplace, o "Netflix" de notícias. Se você pensar bem, qualquer site genérico de notícias que cubra uma determinada região, como Folha, Estadão, O Globo ou Diário Catarinense, é também um marketplace que reúne várias fontes de conteúdo. Você paga um valor mensal e pode usufruir do conteúdo que aquele site oferece, produzido por ele, por sites associados ou por articulistas independentes. É o caso da Folha, que recentemente restringiu o acesso aos conteúdos de opinião somente àqueles leitores que pagam pela cesta mensal e também é o caso da Banca Digital do UOL, que cobra cerca de 15 reais por mês para dar a chave de acesso aos conteúdos do portal e de mais uma centena de outras publicações. É pouco, mas só uma pequeníssima parte desse conteúdo me interessa.

Tampouco aplicativos como o festejado Blendle resolvem o problema do leitor. Lá, você pode comprar uma única reportagem que o atraia, mas passa obrigatoriamente pelo ambiente do aplicativo e, portanto, é guiado por uma curadoria feita por seus editores. O Blendle não resolve o acesso aos conteúdos com os quais você se depara nas redes, nas newsletters e na navegação pela web, mas ele se aproxima da solução ao usar uma bolsa, uma ferramenta para micropagamentos.

No Brasil, surgiu uma solução de micropagamento que empacou. O Libre foi criado para ajudar a alavancar o jornalismo e foi adotado por sites como Aos Fatos. A aplicação é um avanço significativo porque coloca nos sites de notícias, no ambiente em que a transação deve ocorrer, o botão para o pagamento. Mas a plataforma parece não ter evoluído.

É uma lástima porque o Libre, de tudo o que vi por aí, é o que mais se aproximaria da ideia da compra por um único click da Amazon. Mas, quem disse que não será Jeff Bezos quem nos dará a solução que nos permita escolher e pagar pela informação que realmente iremos acessar?