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Fake news e jornalismo independente:

Entrevista com doutoranda em jornalismo sobre a busca por credibilidade no meio digital

Camila Selhorst — 20160847@ielusc.br

A internet teve importante papel para o surgimento de iniciativas independentes, mas ao mesmo tempo colaborou para a disseminação de notícias falsas. O jornalismo tem muitos repórteres independentes que inventam notícias ou distorcem fatos e citações.

Disfarçadas e sem apuração jornalística, elas interferem na interpretação dos leitores que não conseguem identificar o que é verdade e o que é boato. Essas informações são dos mais variados tipos e estão acessíveis, a todo momento, em qualquer plataforma.

O jornalismo independente não é comprometido com interesses corporativos e políticos como as grandes mídias do país, assim ele se torna um ambiente mais aberto para discussões que não estão no contexto mais midiático de massa.

“O bom jornalismo sempre vai existir e se torna cada vez mais fundamental no cenário atual, acho que a grande questão contemporânea é a reconquista da credibilidade no espaço web.”

Entrevista

Para falar um pouco mais sobre isso, nossa equipe esteve em contato com a doutoranda em Jornalismo pela Ufsc, Kérley Winques.

DIGITAL EM FOCO — Nunca se teve tanto acesso a informação como agora. Vivemos em tempos de Internet, redes sociais, informações a todo momento e dispositivos que nos permite estar sempre conectados. Estar sempre conectado e ter mais informações significa estar melhor informado?

KÉRLEY WINQUES — Nem sempre. A bolha midiática criada pelos algoritmos, principalmente em redes sociais como o Facebook — um dos espaços em que o público mais utiliza para se informar, auxilia no enfraquecimento da disseminação de informações com variados posicionamentos. Sim, informações são produzidas diariamente, mas a partir do momento em que demonstro um posicionamento político ou discurso de luta os algoritmos definem que é esse tipo de conteúdo que devo receber, consequentemente isso me afasta de um debate mais democrático. Portanto, não temos usuários em rede mais informados mas sim pessoas informadas por aquilo que querem ler ou que os algoritmos “acham” que elas devem receber. Por isso, a indicação é de que o acesso ao conteúdo jornalístico produzido na internet se dê principalmente por meio de portais de notícias, de variadas fontes.

“Muitos dos assuntos fake news vem de pessoas que vivem nos extremos, na maioria das vezes, não são jornalistas.”

As fake news causam um grande impacto, principalmente pela massiva divulgação e por encontrar audiências férteis que aceitam as informações passivamente sem contestá-las. Quanto a essa audiência que não contesta as informações, como ela pode afetar a visão do bom Jornalismo?

Não devemos culpar a audiência pela recebimento de informações fake news, principalmente porque não existe uma alfabetização para o consumo midiático. Num projeto de lei de 2009, Eduardo Cunha propõe a disciplina de “Leitura e educação para as mídias” nas grades curriculares de ensino fundamental e médio nas escolas do país. Talvez esse tipo de ação poderia auxiliar na formação de leitores mais críticos e melhor preparados para leituras jornalísticas. Além disso, numa pesquisa realizada recentemente pela USP, em São Paulo, foram identificadas algumas características que portais fake news utilizam com frequência, tais como: layout de home page de site parecido com jornais de referências, as notícias não possuem assinaturas de repórteres, não existe pluralidade de fontes, não apresentam hiperlinks com notícias que complementam o assunto e o mais importante: o site não apresenta contato, endereço e formas de interação com a audiência. Esse resultado foi amplamente divulgado nas redes; porém, como mencionado anteriormente, os algoritmos impedem que a grande maioria das pessoas sejam informados sobre essas questões. O bom jornalismo sempre vai existir e se torna cada vez mais fundamental no cenário atual, acho que a grande questão contemporânea é a reconquista da credibilidade no espaço web.

A força de uma mentira ou de um boato está ligada a credibilidade daqueles que as propagam. O que assegura credibilidade ao meio de comunicação? Como conquista-lá?

Bom, pergunta difícil. Mas creio que a qualidade daquilo que é apresentando e a busca pelos diferentes posicionamentos sobre determinado fato auxiliam na conquista da credibilidade. Qualidade está diretamente relacionada com inovação, sem dúvida a adoção de elementos multimídia numa determinada pauta e um layout bem desenvolvido auxiliam na confiança. Já sobre a pluralidade de fontes, não é possível desenvolver um conteúdo sem ouvir todas as vozes envolvidas no acontecimento. A conquista da credibilidade acontece nesses dois momentos, uma página estruturalmente bem elaborada e diferentes vozes comentando o mesmo assunto, esse é o meu ponto de vista.

Os meios de comunicação devem ser comprometidos com o papel o qual são responsáveis.Um deles corresponde desempenhar a democracia na sociedade. Aos jornalistas, cabe o papel de bem informar. Iniciativas independentes vêm ganhando força nos últimos tempo. Na cidade de Joinville, temos plataformas como o Paralelo Jornalismo e O Mirante. Qual sua opinião sobre os meios independentes?

A mídia tradicional vive condicionada nas suas políticas editoriais e amarras impostas pela publicidade que paga seus funcionários e circulação. Esse cenário impõe certas “censuras”, temas que envolvem seus patrocinadores ou ferem diretamente seu posicionamento político resultam numa espécie de silêncio. Essa problemática, observada por jornalistas, culminou no surgimento de veículos independentes. Por que são independentes? Porque não estão presos aos itens mencionados, com isso conseguem desenvolver publicações mais livres. O Mídia Ninja, que marcou as manifestações de 2013 no Brasil, é um dos portais pioneiros no país no que se refere à mídia independente, ganhou notoriedade, principalmente, porque decidiu mostrar aquilo que a televisão estava escondendo. Fico muito feliz de ver esse tipo de veículo surgir em Joinville, acho que todos nós precisamos de pluralidade de vozes e posicionamentos; ainda mais neste momento, em que a cidade mantêm apenas um veículo impresso de expressão em circulação. Aliás, percebo uma preocupação com os direitos humanos e pautas mais sociais nesses veículos que você mencionou e que não encontro no A Notícia, por exemplo.

“Creio que a qualidade daquilo que é apresentando e a busca pelos diferentes posicionamentos sobre determinado fato auxiliam na conquista da credibilidade.”

Os avanços tecnológicos exigem reflexão. Se agregarmos ainda os interesses daqueles que se beneficiam com a disseminação de mentiras, para o cidadão restam poucas formas de se defender e proteger a democracia. As iniciativas independentes não interferem na confiança do leitor quanto ao jornalismo?

Pelo contrário, acho que veículos independentes vem como um respiro para o jornalismo. A Agência Pública, o Nexo Jornal, a Lupa, entre outros, são marcas fundamentais de como fazer bom jornalismo. Enquanto jornais tradicionais estão preocupados em defender seus interesses os veículos independentes buscam respostas para acontecimentos que estão afetando nossa democracia. A Lupa, por exemplo, é a primeira agência de fact-checking no Brasil e busca justamente acabar com o fake-news. Não vou dizer que não existem veículos independentes ruins, eles existem. Mas as iniciativas que aparecem no mapa do jornalismo independente, levantamento realizado pela Agência Pública, são de extrema importância no cenário atual do nosso país.

Uma grande parte do problema está nas plataformas da Internet como Google, Facebook e Twitter. Nessas redes as informações circulam livremente. Não existe distinção entre o bom jornalismo e as mentiras que disseminam discursos não condizentes com a realidade. Grande parte das plataformas de jornalismo independentes somente surgiram graças a internet. Porém, é nela que se encontra muita informação falsa. Como conquistar e garantir credibilidade para gerar confiança ao jornalismo independente?

Será que é nas plataformas de jornalismo independente que estão as notícias falsas? Será que são jornalistas que constroem esse portais de fake news? Vejo muita polarização de ideias na internet, assim como pessoas que vivem nos extremos da política. Minha observação empírica, sem um estudo avançado, permite compreender que muitos dos assuntos fake news vem de pessoas que vivem nos extremos, na maioria das vezes, não são jornalistas mas indivíduos que sabem fazer um blog/plataforma e escrever; isso basta. A confiança no jornalismo independente, como o Paralelo e o Mirante, surge a partir do momento que eles buscam a verdade nos fatos apresentados.

“As iniciativas que aparecem no mapa do jornalismo independente […] são de extrema importância no cenário atual do nosso país.”

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