Entre vistas: Filipe Souza Leão e O dia em que o velho voltou a sonhar.

O escritor Filipe Souza Leão, integrante do Discórdia, fala sobre seu novo livro.

Filipe Souza Leão é produtor, roteirista e escritor. Nasceu em Maceió e atualmente mora em São Paulo. Dia 10 de novembro ele lançará o livro “O dia em que o velho voltou a sonhar”, na feira Miolo(s) na Biblioteca Mario de Andrade. Vamos falar um pouco do livro e seus personagens pitorescos, cordel, xilogravura e processo criativo.

Arquivo do autor

1- Seus personagens são cheios de trejeitos regionais, personalidades muito próprias. Como se deu a criação deles? Eles foram inspirados em pessoas reais?

Eles existem, essa é a primeira coisa que precisa ficar clara. Eles são mais reais do que você, minha esposa ou minha mãe. Durante a escrita eu converso, discuto, brigo, dou risada com as histórias deles. Então, pra mim, eles existem. Sou obcecado por personagens, escrevo pequenas biografias, trejeitos, tiques até mesmo dos secundários. Essas notas me ajudam durante o processo de escrita, na hora que um deles fala, de decidir como devem agir ou reagir. Neste livro o personagem central, o velho Benedito, foi inspirado em parte no meu avô materno. Se conta na minha família que ele pediu muito a Deus o dom de receber revelações através de sonhos que ajudassem as pessoas e isso aconteceu. Ele sonhava e ajudava muita gente. Fisicamente, Benedito é inspirado em um Benedito real, tio da minha avó que vivia em Afogados da Ingazeira e vez ou outra se hospedava em nossa casa no Recife para tratamentos médicos.

2- Seu Benedito, protagonista da história, tem um grande dilema. O bacana é que o leitor se prende e se envolve com isso de uma forma bem intensa, até o final. Qual conselho você daria para o seu Benedito no meio do enredo?

Nenhum. Ele viveu muito mais do que eu, tá com mais de 90 anos, e eu espero que quando chegar na idade dele ninguém venha me dar conselhos. A única que o aconselha na história é a esposa, Francisca, e me parece justo ela fazer isso. Se eu chegar na idade de Benedito, o que não pretendo, talvez só aceite os conselhos de minha esposa, porque ela, assim como Francisca, é mais racional e coerente do que eu.

Para não ser ranzinza demais em minha resposta, diria apenas uma coisa a ele, “Ela tá certa”.

3- Seu Benedito poderia ter sonhado com o destino dessas eleições? Se ele estivesse na nossa pele o que ele sonharia para o Brasil depois dessas eleições tão turbulentas?

Poderia, mas não adiantaria de nada. As pessoas escolheram não ver, não ouvir, não saber (ou saber apenas o que queriam saber). É possível que apedrejassem o coitado, o chamariam de profeta do anticristo em jornada contra o “Messias” salvador da pobre nação. Eu acho que esse meu livro fala muito sobre os dias atuais, sobre a histeria das redes sociais, ainda que seja uma história que se passa no sertão do Pajeú numa época em que ainda nem existia celular. No fim das contas, as pessoas agem do mesmo jeito e se tem algo que aprendemos durante esse período é que as pessoas só vêem o que querem ver.

4- Se você fosse um dos seus personagens, qual seria?

Todos e nenhum. Uma das lições mais valiosas que aprendi com o mestre Raimundo Carrero é que os personagens somos nós se estivessémos no lugar deles. Um outro aprendizado importantíssimo foi o de nunca criar um personagem 100% baseado em uma só pessoa. Isso levo pra sempre no que escrevo. Eu sou Benedito, Francisca, Maria de Biu Zé, Ana Bolinha, Pedro Bolinha, Élder, Padre Eugênio. E eu não sou Benedito, Francisca, Maria de Biu Zé, Ana Bolinha, Pedro Bolinha, Élder, Padre Eugênio.

5- Sua infância em Recife trouxe muitos elementos para a história? Aproveitando, conte algo bem pitoresco de quando você era criança.

Nasci em Maceió, depois fui morar com minha mãe em Vitória de Santo Antão, interior de Pernambuco, e aos 5 anos mudamos pro Recife. Essa infância em Recife foi muito urbana, com algumas poucas viagens ao interior. Acredito que o que mais me influenciou a escrever o livro foram as histórias que ouvia, principalmente da minha avó, que nasceu e cresceu no sítio Carnaubinha, que ficava na zona rural do distrito de Tuparetama, que pertencia à cidade de Afogados da Ingazeira. Sempre fui uma criança muito medrosa e tímida, talvez a coisa mais incrível que tenha feito foi atravessar de barco duma margem a outra do Rio Capibaribe (que corta boa parte do centro do Recife) com amigos num barquinho a remo de um cara chamado Mala Véia, que além de pescar, dizem que vendia maconha. Cada um pagou 2 reais e ele nos levaria até o outro lado do rio e voltaria com a gente. Era pra ser um passeio divertido, mas minha mãe viu da janela do apartamento que morávamos e quando chegamos com o barco ela me esperava na beira do rio. A bronca foi bem grande e talvez eu tenha ficado de castigo, não lembro. De resto, era jogar bola, brincar com os outros meninos da rua, nada muito interessante.

6- O que você falaria para o Filipe de 20 anos atrás caso o encontrasse jogando bola por aí?

Dê um murro em Renato e corra, ele é gordo e não vai lhe alcançar. Dê um murro na boca dele, você vai dormir melhor e ele vai parar de encher seu saco.

7- O livro segue a linguagem da literatura de Cordel. Inclusive com um trabalho lindíssimo de ilustração do Jefferson Campos. Você escreveu a história pensando nesse trabalho artístico? Qual a importância do Cordel na sua vida?

Quando terminei a primeira versão da história, pensei que ela tinha muito de Cordel, apesar de não ser versada, rimada, e sim em prosa. A identificação foi imediata e logo pensei que ficaria muito interessante se fosse ilustrada com xilogravuras. Comecei a pesquisar xilogravuristas e encontrei Jefferson, que é um artista fantástico. Ao enviar para a editora Lamparina Luminosa, contei que gostaria de fazer algo do tipo. Eles gostaram da ideia e então tudo aconteceu. São 10 gravuras feitas diretamente na madeira, de modo totalmente artesanal e o resultado ficou excelente.

O folheto de cordel é uma obra literária e artística riquíssima e extremamente acessível. Acho que isso é um resumo do que quero para minha obra e da maneira que penso a literatura.

8- Você teve algum personagem que na ideia inicial não tinha tanto espaço e foi ganhando força ou vice e versa?

Eu reescrevo demais, muito mesmo. Não sei dizer quantas vezes reescrevi esse texto. Minha esposa, que é sempre minha primeira leitora, não aguentava mais ler tantas versões. Não consigo lembrar quem ganhou força, mas consigo lembrar quem perdeu, porque gosto muito de cortar, de deixar mais seco, mais curto, mais enxuto. Aluizio, neto de Benedito, é um exemplo desses, antes aparecia muitas vezes, mas depois pareceu pouco necessário tanto destaque.

9- Como roteirista e diretor você já imagina “O dia em que o velho voltou a sonhar” na televisão ou cinema? Tipo: Escrito e dirigido por Filipe Souza Leão.

Eu não sei se gostaria de dirigir alguma coisa que escrevi. Adoro ver como outras pessoas interpretam o que escrevi. Acho que cada um tem uma interpretaçao diferente sobre uma obra e considero isso fundamental para um bom trabalho artístico. Se fosse para transformar em audiovisual, vejo algo como uma minissérie, seria interessante. Gostaria de fazer parte da equipe, mas a proximidade com a obra não me permitiria fazer um bom trabalho de adaptação, acho.

10 — Se pudesse escolher um diretor que admira para colocar o livro nas telas. Quem seria?

Acredito que Marcelo Gomes e Karim Aïnouz. Cinema, Aspirinas e Urubus e O Céu de Suely estão entre meus filmes favoritos e se passam no interior do Nordeste, nesse mesmo Brasil profundo de O dia em que o velho voltou a sonhar.

11 — Quais escritores você aponta como influentes na sua vida literária?

No Brasil, meu amigo e mestre Raimundo Carrero, Graciliano Ramos e Rubem Fonseca. Pelo mundo tem Wiliam Faulkner, Alejandro Zambra e Ernest Hemingway.

12 — Se tivesse o dom do Seu Benedito, mataria alguém em sonho?

Com certeza. Melhor em sonho do que em vida.