Entre vistas: Renata Py e #minicontos

RIDÍCULA
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Sep 7, 2018 · 5 min read

Integrante do coletivo Discórdia conta sobre seu projeto de minicontos.

Renata Py é publicitária, foi editora-chefe da PUNKnet e locutora na Antena Zero. Trabalhou com jornalismo cultural em veículos como Showlivre e Kultme. Hoje dedica-se apenas à escrita e outros bicos para pagar as contas. Talvez um dia abandone tudo para virar yogue ou fundar uma banda punk.

Começou um projeto de minicontos no Instagram @minicontospy, que foi crescendo e hoje tem mais de 2 mil seguidores. Como muita gente perguntava como adquirir, o projeto ganhou também uma versão impressa, criada de forma independente pela Renata, que além de tudo é também designer. Para ter o seu, é só falar direto com ela no Whatsapp (11) 982691464. Vamos à entre vista?

1. Tamanho importa? Digo, por que Minicontos?

Em termos de qualidade, não. Temos coisas gigantescas e grandiosas, como Ulisses de Joyce e A Montanha Mágica de Thomas Mann. Temos também mini narrativas geniais do Dalton Trevisan. Mas quando falamos em internet, talvez. No mundo digital o tamanho pesa. Obviamente que os interessados no assunto vão ler matérias, independentemente do tamanho. Quando trabalho com jornalismo musical, eu noto que uma chamada de show ou uma curiosidade qualquer de até 140 caracteres dá muito mais visibilidade entre os jovens do que a tese da vida do Jimi Hendrix, por exemplo. O que é triste, hoje as coisas são muito reduzidas e as informações acabam ficando superficiais. Elas já chegam sem profundidade, na maioria das vezes. Percebendo isso, eu peguei como desafio tentar colocar meus contos em apenas um parágrafo. Eu vi que era possível e assim comecei a divulgar nas redes sociais, na esperança de alguém ler. O negócio foi indo, foi rolando mesmo. Acabou despertando mais curiosidade do que meu trabalho com narrativas mais longas. Viciei nos minis.

2. Explique seus contos através de uma playlist.

Eu tenho dois gêneros predominantes de histórias. Sempre brinquei que tenho em um pé um coturno preto e no outro, uma bota folk. Meus personagens viajam nesses dois mundos. Um mais regional, brasileiro, com texto coloquial e cheio de trejeitos de algumas regiões do Brasil. Nesse primeiro não caberiam músicas que não fossem muito características. O outro estilo são personagens malditos, que vivem à margem da sociedade, urbanos, niilistas, punks ou boêmios. Esses caberiam numa infinidade de sons, como jazz, punk ou até mesmo música clássica. Vou dividir minha playlist em duas: (escute aqui)

1 — Edith Piaf — Non, Je Ne Regrette Rien

2 — Ramones — My My kind of girl

3 — The Clash — I Fought The Law

4 — The Pogues — Haunted

5 — Adolescents — Amoeba

1 — Luiz Gonzaga — Eu só quero um Xodó

2 — Johnny Cash — Out Among The Stars

3 — Lupicínio Rodrigues — Cadeira Vazia

4 — Elza Soares — Espumas ao vento

5 — Zé Ramalho — Mistérios da meia noite

3. Aliás, qual deles viraria uma boa letra de música e por quê?

Ahhh, eu tenho um miniconto que sempre que eu leio, imagino uma melodia de baião ou sanfona. Inclusive ele entra num romance como uma passagem de música de um violeiro. É esse aqui:

Partiu sem pressa, raiva ou choro. Vivia fazendo promessa de partida, nunca considerei. No meu ordinário cotidiano, acomodei. No cinzeiro, ficou bituca. Nossa cama, emaranhada. Filha da puta, nem ligou se foi amada. Me deixou só, amargurado. Sem seresta ou muita prosa. Dou dinheiro, rapé ou música. Só me tragam Dona Lúcia.

4. Você já usou suas filhas como cobaias dos textos?

Sabe que não, agora pensando eu vejo que nunca usei. Eu invento personagens que não têm muito a ver com a minha vida. Talvez essa seja uma vontade de viver todos os mundos, vai saber. Houve uma época em que eu até fazia uma catarse nos textos. Quando eu era mais jovem. Hoje em dia eu não consigo mais fazer isso. Apesar de que, mesmo distantes da minha realidade, nos meus personagens existem muitas sutilezas da minha personalidade e, por consequência, das minhas filhas.

6. Quais palavras você se recusa a usar? Quais você queria guardar num potinho?

Pergunta linda. Tem isso, né? Palavras que gostaríamos de guardar num potinho.

Bom, as que eu não gosto de usar de jeito nenhum são aquelas que entram num lugar comum: Saudade, Amor, Dor, Sonhar. Ainda prefiro citar esses sentimentos de outra maneira, como descrevendo sensações físicas bem literais ou indo para um completo absurdo que pode fazer algum sentido.

Algumas palavras que tenho verdadeira paixão:

Forrobodó, Bulir, Carecia, Ligeiro, Acolá. Vixe, tem mais um monte delas.

7. Complete com um miniconto inédito: Quando acordou, …

Quando acordou, saiu ligeiro. Dormiu mal. Estranhou o travesseiro, quem sabe? Sentiu-se confuso, achou melhor rezar. Duvidava de Deus, mas na aflição talvez o que lhe faltasse era fé. Orou, parou, não era isso. Percebeu ser apenas desalento. Tentou distrair-se com a lembrança da camisola de Emilia encostando em sua perna, diaba. Só sabe é atiçar. Ficou mais ansioso, aumentou a passada. Queria ir longe. Quem sabe nem voltar.

8. Já transformou estranhos em contos?

Faço isso o tempo inteiro. É terrível. Muitas vezes até fotografo alguns estranhos na rua, para lembrar bem e personificar mais ainda o personagem na minha cabeça.

9. Papel ou Pixel?

Quando vou resenhar shows, uso somente papel. Com literatura, pixel. Escrevo em celular, tablet ou note.

10. Faça aqui uma propaganda descarada do seu livro.Vale usar Dollynho e tudo.

Adquira instantes!

olha que lindo, freguesia!

11. Deixe aqui anotada uma previsão para 2025, pra um dia a gente voltar e ver se estava certa.

Olha, na atual conjuntura, não consigo prever nem 2019. Tantas coisas nos surpreenderam, não é mesmo? Espero que em 2025 a gente possa afirmar com mais clareza o que podemos prever para 2030. As coisas estão muito nebulosas, parece que cada dia mais. Que seja um processo de muito aprendizado, pelo menos. Sobre projetos pessoais espero que as narrativas longas ganhem mais espaços nos campos de pesquisas virtuais. Ano que vem, se tudo der certo, teremos o segundo volume dos Minis e um romance nas paradas. Se isso não der certo provavelmente virarei Yogue na Índia ou estarei em turnê pela Europa lançando um álbum punk chamado “Cabeças Podres”.

Discórdia

Coletivo literário em modus discordantis. Prós em dizer não. Contra a simples repetição, desde que não seja por anáfora. É coletivo, mas cada membro tem seu jeito de expressar, e uma visão, um meio, um método, um motivo justo, justíssimo, pra discordar. Pode isso? Aqui pode!

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RIDÍCULA

Nathalie Lourenço, mulher, publicitária e ridícula de nascença. Não possui um pônei. Autora do Livro Morri por Educação.

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