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Entrevista: Thainá Carvalho e As coisas andam meio desalmadas.

Arquivo da autora

Converso com a escritora sergipana Thainá Carvalho sobre seu mais recente livro de poesias, “As coisas andam meio desalmadas”, lançado esse ano pela editora Penalux. São mais de cinquenta poesias inéditas, em que a autora aborda a busca da alma, tantas vezes perdida, pelo cotidiano. Thainá mostra essa descoberta deixando claro que os deslizes de rota fazem parte do caminho.

1- Thainá, encarando “alma” no sentido mais simples da palavra — como “princípio da vida”, podemos nos dias de hoje entender que muito possivelmente deixamos de viver o que é essencial? Talvez por questões do mundo atual, como a busca de se encaixar numa sociedade, capitalismo, desejos desenfreados, poder etc.

Acredito que, independentemente das características de uma época na história, o ser humano está sempre em busca do que é essencial porque são da nossa natureza a inquietação e a insatisfação. É verdade que o modelo social e econômico atual criam e tentam nos vender constantemente o conceito de “essencial”, que pode bem ser um celular maior ou um carro 0km. Já a poesia tenta mostrar um outro conceito de essencialidade, bem como a sociologia, a filosofia e outras ciências. Cabe a cada um de nós fazer essa busca pelo essencial da melhor forma possível com as ferramentas que temos. Eu particularmente me utilizo muito da poesia.

2- A pergunta anterior me veio em mente após ler seu poema “Nascer”. Ele me passa a sensação de que hoje já nascemos com tantas escolhas determinadas para nós. Ele me passa a sensação que é preciso desviver o que já nos predestinaram, para que assim possamos encontrar de fato nossa verdadeira alma.

Sim. Muitas categorias e classificações são criadas para nós antes mesmo de nascermos e, à medida que vamos crescendo, somos estimulados de determinadas formas específicas para apresentarmos resultados esperados pela família e pela sociedade. Acho que somos um pouco ratos de laboratório. Então, temos que lutar o tempo inteiro para desviver uma vida que não escolhemos, descobrir aquilo que de fato queremos e insistir em vivenciar nossas escolhas. Tudo isso enquanto crescemos e nos transformamos constantemente. Viver é um desafio.

3- A sua trajetória na literatura é disciplinada e feita de forma independente. Traz uma alma perdida pelo sistema editorial que vivemos. Fale sobre como se deu as suas iniciativas no meio.

Não é muito mágico quando um escritor diz “comecei a mostrar meus escritos no instagram”, mas essa é minha história. Apesar de escrever contos desde meus quatorze anos de idade, eles não saíam muito do âmbito familiar até o momento em que a internet e suas diversas plataformas possibilitaram aquilo que todo escritor precisa, mas nem sempre consegue: visibilidade. Então, comecei com o pacote básico para apresentar minha escrita: instagram, facebook, twitter e blog. E isso foi me dando um retorno positivo que fez com eu desenvolvesse confiança no meu trabalho para iniciar outros projetos literários. Uma coisa vai puxando a outra. A partir daí, desenvolvi a Revista Desvario, uma revista digital independente e colaborativa voltada à publicação de mulheres escritoras e artistas visuais, que me fez conhecer escritoras incríveis. Com algumas delas, criei o coletivo feminino URBANAs de produção de newsletter e podcast literários. Também sou coorganizadora do Sarauema, um sarau virtual desenvolvido em tempos de pandemia. No meio disso tudo, escrevi um ebook de prosa poética, Síndromes, e o livro “As coisas andam meio desalmadas”.

4- Essa forma independente do seu percurso literário me lembra também o seu poema “Desandar”, como se fosse preciso sair dos trilhos para encontrar o lugar ao qual se pertence. Você acha que, na literatura, precisamos sair dos padrões já estabelecidos para encontramos a nossa voz?

É preciso já que, infelizmente, o meio tradicional de publicação não oferece oportunidade a todos os escritores. Existem muitos escritores contemporâneos com iniciativas incríveis e independentes, acessíveis e diversas, que precisam ser lidos e apoiados agora, no momento em que escrevem. Às vezes, o mercado acaba conduzindo muito os olhos dos leitores à literatura do passado pois coletâneas póstumas de escritores já consagrados são mais fáceis de vender. Nesse cenário, o escritor independente precisa não apenas escrever, mas também existir enquanto escritor. Por isso, precisamos chamar a atenção dos leitores com variados tipos de iniciativas e plataformas para mostrar que a voz de uma boa literatura está se desenvolvendo também fora dos meios tradicionais de publicação. Precisamos desandar para que se abram novos caminhos na literatura.

5- Conta um pouquinho do seu trabalho com mulheres na escrita através da revista Desvario e do Coletivo Urbanas.

Esse projeto é meu xodó! Sinto que as mulheres precisam ser mais reconhecidas na literatura. Não se trata de dar espaço — elas já ocupam um território, mas ele precisa de mais visibilidade. A Desvario é uma iniciativa nesse sentido, que visa à publicação semanal de textos de escritoras, aliadas a artes visuais também desenvolvidas por mulheres, para compor uma pequena amostra de todo o trabalho incrível que vem sendo desenvolvido por escritoras contemporâneas. A partir daí conheci as escritoras Maria Vitória, Beatriz Helena e Tábita Martins, bem como a ilustradora Cristina Braga, e fundamos o Coletivo feminino URBANAs, com o objetivo de desenvolver uma newsletter quinzenal para mostrar a força do trabalho de mulheres que se unem. Hoje, temos uma nova integrante, a fotógrafa Carolina Altino, e também estamos apresentando um podcast semanal do coletivo: o Palavra na Palavra. Acredito que nenhum projeto é pequeno demais para não trazer impactos.

6- Thainá, você considera a poesia como a busca do encontro com o que realmente é essencial?

Para mim, sim, mas acho que a poesia funciona de diferentes formas para cada pessoa. Para mim, a poesia se mostrou de forma muito inesperada. Eu nem posso sair falando isso, mas olhe: nunca fui muito de ler poesia. Tinha aquele contato básico com Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros e Cecília Meireles, mas foi nos últimos anos que vim descobrir um gosto maior e hoje tanto a leitura quanto a escrita de poesia são verdadeiras terapias pra mim. Toda vez que estou à beira de um colapso nervoso, ouço o poema Fevereiro, de Matilde Campilho, e vou ficando calminha calminha. Se não escrevo pelo menos uma poesia por dia, de manhã cedinho antes de ir pro trabalho, sinto que o dia já começou errado. Hoje, a poesia é a ferramenta que uso para me encontrar com o que é essencial.

7- Thainá, conte um pouquinho de como se deu o processo criativo do livro e como foi feito o percurso pós-criação — a busca por editoras e publicação. Qual o conselho que você dá para um escritor iniciante que está vivendo esse momento?

O livro começou com uma meta que estabeleci de escrever sempre dois poemas por dia. Até então, escrevia de forma um pouco indisciplinada, apenas pra atender as demandas de postagem nas redes sociais. Depois de cinco dias, consegui definir um fio condutor para o livro, que é justamente essa jornada do ser humano ao longo da vida, entre o que ele é o que ele gostaria de ser. Então, já produzia os textos com foco no resultado final, o que facilitou muito a produção do livro. Enquanto escrevia, também ia pesquisando o perfil das casas editoriais que dialogariam com a proposta do meu livro. Não acho interessante para quem está começando sair disparando o original para todas as editoras que vir pela frente, em uma tentativa de “vai que cola”, porque as editoras realmente não aceitam nada muito fora da sua proposta editorial e a rejeição ou a falta de resposta acabam gerando uma frustração muito grande para o escritor iniciante.

8- Querida, fale um pouquinho sobre as suas influências poéticas.

Bem, confessei minha vergonha de não ler muito poesia quando era mais nova. Como fui me aprofundar só recentemente no gênero, cheguei já com olhos voltados para as escritoras contemporâneas. Gosto muito da beleza das imagens poéticas de Matilde Campilho, e me inspirei muito na cadência das poesias de Mell Renault para a construção do ritmo dos poemas em “As coisas andam meio desalmadas”. Outra poeta que me encanta é Jacinta Passos, que não teve muito do seu trabalho reconhecido em vida.

9- Você tem memórias de infância que alimentam o seu desejo de escrita de hoje?

Sim, sonho ser escritora desde sei lá quantos anos. Sempre li muito e achava o mundo dos bastidores da literatura algo quase inacessível. Um conto de Tchekhov, chamado Angústia, particularmente me marcou muito, não só pela sua beleza, mas pelo que o irmão do escritor diria pra ele em carta sobre as últimas linhas do conto: “eu naturalmente estou exagerando, mas nessa passagem do conto você é imortal” . Quando li isso, pensei: eu também quero ser imortal.

10- Quero agradecer, não só a sua disponibilidade por responder essas perguntas, mas pelo seu trajeto literário, que sempre foi feito de forma tão competente no cenário independente. Parabéns, pelo lindo livro recém-lançado e também pelo projeto “Síndromes”, que saiu em formato ebook esse ano. Deixo aqui um espaço para que você comente o que quiser; novos projetos, conselhos, poesia…

Eu que agradeço esse espaço, e o que eu gostaria de dizer é exatamente sobre isso: vamos nos dar espaços. Iniciativas independentes e, principalmente, coletivas têm muita força por mais que às vezes pareçam passos de formiguinhas. Vamos criar nossa própria visibilidade para aquilo que acreditamos e, assim, existir.

Links para perfis das escritoras mencionadas:

Maria Vitória https://www.instagram.com/a_estranhamente/

Tábita Martins https://www.instagram.com/entaotabita/

Beatriz Helena https://www.instagram.com/elafalante/

Mell Renault https://www.instagram.com/mellrenault/

Carolina Altino https://www.instagram.com/carolina_krol/

Outros links mencionados:

Coletivo URBANAs https://mailchi.mp/b8700a490c23/coletivourbanas

Revista Desvario https://medium.com/desvario

Sarauema https://www.instagram.com/sarauema/

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Coletivo literário em modus discordantis. Prós em dizer não. Contra a simples repetição, desde que não seja por anáfora. É coletivo, mas cada membro tem seu jeito de expressar, e uma visão, um meio, um método, um motivo justo, justíssimo, pra discordar. Pode isso? Aqui pode!

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Renata Py

Renata Py

Autora do livro “Firmina” — Laranja Original (2019)

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