TIO ANTONIO

Boa noite, Cid Moreira

Começou sutil. Parecia uma pluma. Ninguém enxergava as ondas além das notícias do Jornal Nacional fora das três primeiras paredes. A quarta em si parecia desinteressante, apesar do boa noite do jornalista de terno alinhado. Não pra mim. Eu era uma pentelha em calcinha de rendinha, que já tinha vivido quatro longos anos. Bem vividos. Fui semi empurrada escada abaixo por um primo estilo Nazaré, deixei em carne viva minha mão esquerda ao tentar sentir a textura de óleo quente e tomei espuma de cerveja no copo americano. Minha empolgante vida encontrava a mesma empolgação nos olhos sorridentes do tio Antonio. Homem de coração fraterno, que cheirava a cigarro e boas histórias.

Seu cumprimento contente, de aperto de mão sem força formava par com a sutileza de seus novos atos. Respondia ao boa noite do jornalista com a responsabilidade gentil de um interlocutor e contava histórias cada vez mais divertidas. Eu ria um bocado com a mãozinha encostada na barriga saliente de bolacha recheada de morango. Nunca gostei da de chocolate. A cada nova história, minha admiração por ele crescia. Traduzindo ao português infantil, eu curtia ele de montão. Tio Antonio era diferente dos demais e era por isso que gostava dele. Histórias de pessoas voadoras, imprensa conspiratória, vida fora da Terra, fora do comum, o futuro dos telefones e dos aparelhos de TV, as cápsulas que trariam nitidez pra televisão, até então bastante analógica. Pra ele não restava dúvida de que um dia poderíamos sentir o cheiro vindo dos programas de culinária e conversar com os apresentadores de TV e as atrizes. Ele queria falar com a Bruna Lombardi. Eu com o Kiko.

Nossas ideias eram como chave e fechadura. Eu com quatro, ele com quarenta e muitos. Ele também tomava espuma de cerveja e já tinha queimado a mão. Nunca o tinham quase empurrado escada abaixo. Ponto pra pequena, ele dizia.

A aura do cigarro sumiu. Assim como as vacas e misses universo voadoras. Assim como o sorrir com os olhos. Assim como o aperto frouxo de mão.

Ninguém falava diretamente comigo. Tinha que pescar pequenos peixinhos de informação no aquário da sala enquanto penteava o cabelo rosa da Bem Me Quer. Andava estranho, sumiu do mapa, vamos procurar foi o que consegui pescar pro nosso jantar nada mediterrâneo.

Pegou um ônibus errado e foi parar em outro estado, já não lembrava quem era e foi enviado para uma clínica ligada no duzentos e vinte, com botões vermelhos “não me aperte”, choques que não eram da tropa. Eu enlouqueceria lá. Já enlouqueço aqui. Quando voltou já não tinha tantas histórias, mantinha a mão solta. Mais solta do que nunca. Não deixei de admirá-lo. Sigo seus passos, conto histórias descabidas, faço os outros rirem e viajo por aí. Raramente sei pra onde estou indo. Geralmente perco o rumo. Boa noite, Cid Moreira.

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