Abismo de rosas

Toinho Castro
Jul 11, 2018 · 4 min read

Meu pai morreu há alguns anos. Viveu a vida, até se aposentar, pelo mundo, nas estradas do Brasil. Trabalhava numa empresa de transportes rodoviários, assim recordo, como também recordo seus telefonemas de Imperatriz, no Maranhão, ou Tucuruí, Belém do Pará, e tantas outras cidades, ou melhor, nomes de cidades. Às vezes, quando vou numa rodoviária, para viajar para São Paulo ou esperar alguém, fico olhando os nomes das cidades estampados nos luminosos dos guichês de venda de bilhetes das empresas de ônibus, jogando o jogo de imaginar as possíveis cidades em que ele esteve.

Os telefonemas são sim uma recordação; nos dias combinados previamente, num telefonema anterior ou antes da viagem, para o aeroporto, para o posto da Telpe, a Companhia Telefônica de Pernambuco. Lá pedíamos à telefonista uma ligação, íamos todos… minha mãe, eu, meus irmãos. Ficávamos aguardando até que nos chamavam, para atender na cabine número dois, ou, três, ou a que fosse. Lembro do carpete, do revestimento de madeira da parede, do cheiro das cabines. Então falávamos com meu, pai. Minha ma~e falava com meu, preocupada com as coisas da vida que levavam desse jeito. Ele longe, ela sozinha com a gente numa cidade que ela detestava.

Tudo isso para dizer que… meu pai levou uma vida dura. Teve uma infância dura e quando adulto as coisa também não foram fáceis. Por muitos motivos que não cabem aqui. Acostumou-se a viver a vida de um jeito estóico, sem muitas sutilezas. Então posso dizer que ele não era muito ligado em arte, música, cinema e coisas afins. Lia aqueles pequenos livros de bang-bang, edições de bolso com as páginas amareladas por conta do papel vagabundo e gostava de filmes de faroeste. Arrisco dizer que Um dólar furado era seu filme preferido. Mas tudo isso de um jeito muito vago, pouco expressivo.

Mas curiosamente, ele gostava de violão. De música de violão. Disso lembro bem. Marcou-me de certa forma, porque ele gostar daquelas músicas era uma espécie de oxímoro. Então o violão foi o primeiro instrumento que chamou minha atenção, e eu achava aqui muito bonito também, aquele som. Havia esse disco, de um violonista que foi muito popular nos anos 50, chamado Dilermando reis. Hoje ninguém mais sabe dele. Tocava choros, valsas, um repertório tradicional do cancioneiro brasileiro da época. Era instrumentista e compositor. O disco chamava-se Abismo de rosas, nome de uma valsa de Américo Jacomino.

Essa melodia está impregnada em mim e creio que foi a primeira vez em que a música se materializou num disco, num LP. Lembro demais da capa, um violão descansando numa almofada de veludo e, naturalmente, as rosas. E eu, criança ainda, imaginava essa queda num abismo feito de rosas, do violão pousando suavemente na forração de pétalas do fundo do abismo. Era uma imagem louca.

Como cresci com o rock’n’roll, influenciado por um primo mais velho e muito querido, esse disco ficou para trás como uma cafonice. Nada poderia ser mais cafona que um abismo de rosas e aquela almofada de veludo. Levei tempos, anos, para reencontrar as valsas que ouvi na infância. Para reencontrar o choro, a seresta. Para fazer as pazes com Dilermando Reis. Mas o reencontro foi tipo velhos amigos, retomamos a conversa do ponto em que paramos, sem ressentimentos. Agora mesmo enquanto escrevo estou escutando o pinho de Dilermando no Youtube; porque uma falha minha é que ainda não comprei esse LP para ter em casa. Isso é fazer as pazes com meu pai também.

Porque Abismo de rosas, de certa forma, é meu pai. Aquele homem que parecia não se importar muito com as coisas e que sentava para escutar as melodias desse disco, que acabou por ser um disco de formação para mim, tanto quanto um do Kraftwerk ou outro do Milton Nascimento.

Quando escuto um violão lembro do meu pai.

Mais sobre Dilermando Reis:
Revista Bula — Sua Majestada, o Violão

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