Vetor Brasil
Jul 2, 2018 · 5 min read

A missão do Vetor Brasil de criar uma rede engajada e diversa que potencialize o setor público brasileiro, não deixa margem para tratar da diversidade como um tema secundário. Sua importância para um setor público cada vez mais efetivo não deve ser subestimada: apenas um serviço público representativo da população é capaz de pensar em soluções coerentes com as demandas da sociedade brasileira. A falta de representatividade no governo termina por reduzir a sua capacidade transformadora, seja pela falta de criatividade que a homogeneidade implica, seja pelo risco de captura do Estado por um único grupo, alimentando assim o ciclo de desigualdades.

Mas como promover a diversidade de forma justa? Como manter a igualdade de condições e, ao mesmo tempo, reconhecer a diferença entre grupos e indivíduos? São questões que surgem com frequência quando pensamos em programas de fomento à diversidade e combate à discriminação em instituições públicas e privadas. Fato é que uma postura neutra em relação à discriminação não se traduz em igualdade.

Quando a desigualdade já está posta, a neutralidade discrimina. Se o sujeito “padrão” da igualdade tem as características de um homem, branco e heterossexual, instituições de ensino, ambientes de trabalho, serviços públicos etc., serão pensados para atendê-lo, considerando suas condições de existência em detrimento de todas as outras. Só é possível pensar em igualdade entre todos a partir do reconhecimento das diferenças. O alcance da igualdade real não depende do discurso anti-discriminação, mas do fomento efetivo da diversidade, como ação afirmativa e reparatória.

No Vetor Brasil, levamos o fomento à diversidade muito a sério. No primeiro processo seletivo do Programa Trainee de Gestão Pública, apenas 17% das candidatas selecionadas eram mulheres [1]. Várias hipóteses poderiam explicar tal resultado. Considerando a elevada proporção de mulheres inscritas, não há como indicar um menor interesse no programa entre as mulheres. Outra hipótese seria o déficit de competências adequadas entre as candidatas mulheres. Provocados por esta última hipótese, resolvemos investigá-la.

Olhando os dados a fundo, percebemos que a maior parte das mulheres eram reprovadas em testes de lógica, mais especificamente nas questões de lógica espacial. No entanto, estudos apontam que tal desigualdade de performance entre candidatos do gênero masculino e candidatas do gênero feminino se deve em parte à diferença de estímulos na infância: os brinquedos oferecidos à meninas raramente contribuem para desenvolver a sua percepção espacial [2]. É evidente que lógica espacial não era uma habilidade necessária para o trabalho que seria realizado nos governos parceiros do Vetor Brasil. Por esse motivo, atualizamos as questões do teste de lógica. No processo seletivo do primeiro semestre de 2018, 54% dos candidatos selecionados para o Programa Trainee eram mulheres. Ou seja, em 3 anos, o percentual de mulheres aprovadas no processo seletivo aumentou mais de 3 vezes. Se tivéssemos permanecido neutros ao quadro de desempenho das mulheres, colocaríamos em risco nossa própria capacidade de atração e seleção de talentos, e o que é pior, ressaltado tendências de desigualdade de gênero que se estabelecem ainda na infância e comprometem a alocação de talentos no mercado de trabalho.

Hoje, o Programa de Diversidade do Vetor Brasil envolve múltiplas ações. Incluindo, a capacitação de membros e avaliadores sobre desigualdades brasileiras; ações específicas de redução de vieses de recrutamento e seleção; fomento à iniciativas de acolhimento de representantes de grupos minorizados dentro da rede [3], entre outras. Mais do que condenar discriminações, as capacitações do Programa de Diversidade visam conscientizar e apoiar todas e todos que formam nossa rede na luta contra as desigualdades. Com isso, esperamos que os profissionais da nossa rede, que querem potencializar o serviço público, encontrem e criem mecanismos apropriados para se posicionar e agir diante de situações que evidenciem desigualdades. Nosso objetivo é instigar e colocar em pauta estratégias de inclusão e ações contra as desigualdades nos projetos da administração pública nos quais os indivíduos que formam nossa rede atuem.

Firmes no compromisso de adotar políticas com base em evidências, após diversas avaliações identificamos que as capacitações do Programa de Diversidade não seriam suficientes para atingir o objetivo de aprovar uma porcentagem representativa de pessoas pretas e pardas em nossos processos seletivos. Analisando os dados do processo seletivo, percebemos que pretas(os) e pardas(os) tinham notas inferiores às demais candidatas e candidatos no teste de lógica. Esses resultados se correlacionavam com os dados socioeconômicos coletados na inscrição do processo seletivo: as candidatas(os) negras(as) eram aquelas com menos acesso à educação de qualidade.

A situação identificada representa um problema estrutural da educação pública e da desigualdade racial no Brasil, que ao se confundir com a desigualdade socioeconômica limita o acesso a serviços de qualidade. Por este motivo, decidimos pela adoção de uma ação afirmativa. Desde o segundo semestre de 2017, os testes online, que representam a segunda etapa do processo seletivo, têm uma nota de corte diferente para cada grupo racial. As diferentes notas de corte são adaptadas para manter proporção racial de inscritos no processo.Após a adoção dessa medida, observamos que o índice de aprovação de pessoas negras se mantém estável nas outras três etapas do processo seletivo, que por hora prescindem de ações afirmativas.

A breve experiência do Programa Trainee de Gestão Pública nos permite afirmar que a implementação de programas de formação em diversidade, ainda que importantes, são insuficientes para promover a diversidade real em ambientes organizacionais. A diversidade deve se tornar um valor fundamental de toda organização que se proponha ser criativa, inovadora e inclusiva. Mas ela não se concretiza sozinha. Sem ações afirmativas, poucos representantes de grupos minoritários terão os meios ou os incentivos para ocupar espaços de liderança. Práticas antidiscriminação, eliminação de vieses, formações e capacitações são importantes, mas devem andar juntas com medidas efetivas de inclusão e equidade para uma política de diversidade efetiva.

[1] As mulheres representaram 52% das candidatas inscritas.

[2] http://www.bbc.com/news/av/magazine-40942691/girl-toys-vs-boy-toys-the-experiment

[3] Hoje a rede de trainees conta com três coletivos auto-organizados: Vetor das Minas, mulheres da rede do Vetor Brasil (líderes, trainees, ex-trainees e membros da equipe administrativa) que tem como missão desenvolver, formar e acolher mulheres líderes, trabalhando temáticas que ajudem a promover igualdade de gênero e combate ao machismo dentro e fora dos ambientes de trabalho; Vetor dos Pretxs, que visa criar um espaço debate e reflexões com enfoque em identidade racial e representatividade de negrxs na sociedade; e Transvetor, grupo transversal e transformador, focado em pensar, criar, desenvolver e compartilhar ações de integração e empoderamento de LGBT+ a partir do âmbito da gestão pública.

[4] Na divulgação ativa do processo, optamos por comunicações inclusivas e focalizadas com foco em minorias étnico-raciais e nas regiões Norte e Nordeste. No âmbito do processo de seleção, além das adequações nos testes mencionadas, desenvolvemos um treinamento de diversidade para os avaliadores do processo seletivo, visando diminuir possíveis vieses na avaliação.

[5] Nota oficial sobre a ação afirmativa: http://produtos.vetorbrasil.org/wp-content/uploads/2018/04/19042018-Comunicado-sobre-A%C3%A7%C3%A3o-Afirmativa.pdf

Diversidade para o Vetor Brasil

Como o Vetor Brasil inovou no desenvolvimento e implementação de um programa de diversidade voltado para a seleção e capacitação de profissionais de gestão pública.

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Nossa missão? criar uma rede engajada e diversa que potencialize o setor público brasileiro.

Diversidade para o Vetor Brasil

Como o Vetor Brasil inovou no desenvolvimento e implementação de um programa de diversidade voltado para a seleção e capacitação de profissionais de gestão pública.

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