Difícil mesmo é fazer

Por Gabriel Tarrão

Já há algum tempo tenho observado o quanto vem mudando a noção que as pessoas têm sobre o que é empreendedorismo. Na semana passada, aconteceu o estouro sobre o financiamento coletivo promovido por Bel Pesce para a concretização de um negócio chamado Zebeleo — nada mais, nada menos do que uma hamburgueria… que vende hambúrgueres. Abriu-se, com isso, a reflexão sobre o bom uso das plataformas de financiamento coletivo, mas, principalmente, notei a abertura de um pretexto para opiniões diversas a respeito do dilema “pouca prática e muita fala” no cenário empreendedor.

Hoje, li dois textos sobre a notícia, ambos questionando a formação e o desenvolvimento profissional de Bel Pesce e, principalmente, dando a entender que se trata de uma empreendedora de falácia, reduzindo a relevância e os resultados de suas atuais três empresas. Pessoalmente, concordei com diversos pontos abordados pelos dois textos, porém passei a refletir sobre algumas questões específicas.

Primeiro, acredito que as empresas devem ser reconhecidas essencialmente pelo valor que geram para seus clientes e para a sociedade. Em um dos textos, a FazINOVA, empresa de Bel Pesce especializada em ensinar outras pessoas a abrirem novos negócios, é criticada a partir de um argumento vazio e solto: “A Bel não sabe o que é abrir empresa”. E ponto. Só isso. Sem justificativas. Nunca fiz cursos da FazINOVA, nem conheço em detalhes casos de clientes da empresa, mas é inegável que a empresa gera valor para seus clientes — muitos, diga-se de passagem.

Uma segunda reflexão é o tom pejorativo que as pessoas têm conferido ao termo empreendedor. Um dos motivos para isso, ao meu ver, é a ascensão mercadológica do “empreendedor de palco”, aquela pessoa cheia de termos da moda sobre empreendedorismo, mensagens de motivação e ideias para se alcançar o sucesso através dos negócios. Entendo o empreendedor como a pessoa que toma uma iniciativa que gera mudanças positivas para si ou para uma comunidade, respeitando os princípios legais da sociedade. Eu mesmo me considero um empreendedor, por gerar pequenas mudanças dentro do trabalho para facilitar minha vida e gerar melhores resultados. Da mesma forma, considero a minha mãe uma empreendedora, por dirigir diariamente uma microempresa que gera valor para seus clientes. E acredito também que vários desses empreendedores de palco são, fatalmente, grandes empreendedores.

Não sigo Bel Pesce e não me afino muito com o modelo de promoção que ela propõe. Também já segui (por pouco tempo) figuras como Erico Rocha e Gabriel Goffi, e também não me afino com seus modelos de geração de valor. Entretanto, muitas pessoas se afinam e consomem conteúdo e produtos para crescer. E crescem! Ou seja, independente de concordar ou discordar do formato, não dá para negar: existe geração de (algum) valor, valor esse que um grupo (grande) de clientes considera relevante. Então é negócio. É empreendedorismo.

Criticidade é essencial. Inclusive a esse texto, claro. A quantidade de informação veiculada diariamente só aqui no Medium é imensa e, para se deixar levar por uma “tendência”, bastam três textos convincentes e convergentes em sua timeline.

Após o “fiasco Zebeleo”, vi uma enxurrada de compartilhamentos de textos sobre Bel Pesce e muitas pessoas assumindo automaticamente uma postura crítica negativa à pessoa e à empreendedora. É preciso parar um pouco para refletir e ver que diante de uma notícia como a do financiamento coletivo da hamburgueria, é muito fácil escrever para criticar de vez os personagens envolvidos, afinal, isso gera ibope, facilita o compartilhamento, molda opiniões rasas, meramente por serem opiniões alinhadas ao senso comum.

Escrever que Bel Pesce não faz, ou faz mal algo, é muito fácil. Difícil mesmo é fazer.