Impacto da pobreza e da desigualdade na saúde

Como a expectativa de vida e multimorbidades se comportam em regiões com condições socioeconômicas diferentes

São muitos os fatores que determinam a qualidade da saúde de um país: posição geográfica (clima, vegetação), nível de escolaridade, acesso à água potável, pesquisa científica, entre outros; sendo que a maioria depende de recursos financeiros. Podemos ver, pela figura abaixo, que existe uma relação entre a condição econômica de um país e sua saúde: países com maior PIB per capita apresentam também uma maior expectativa de vida ao nascer.

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Expectativa de vida por PIB per capita. Note que a escala horizontal está em escala logarítmica. Fonte: autor. Dados extraídos de https://ourworldindata.org/grapher/life-expectancy-vs-gdp-per-capita, acesso em 24/08.

Embora esse comportamento pareça óbvio, é importante entendermos quais condições financeiras têm maior impacto na saúde. Um artigo recente [1] faz uma análise desse tipo: qual o tamanho do impacto da desigualdade e da pobreza na expectativa de vida e nas multimorbidades? Explicamos mais sobre esses critério de desigualdade social e multimorbidade ao final do texto.

Inicialmente, os autores coletaram os índices de Gini e de extrema pobreza de todos os estados brasileiros. Em seguida, utilizaram uma técnica que agrupa os dados (Hierarchical Clustering), resultando em 3 grupos distintos: o primeiro grupo contém os estados com maior taxa de pobreza extrema e maior desigualdade; o segundo grupo contém os estados com menor taxa de pobreza e menor desigualdade; o terceiro grupo contém apenas um estado que possui baixa taxa de pobreza mas possui bastante desigualdade. A Figura (a) abaixo (extraída do artigo) mostra como esses grupos estão distribuídos.

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Imagens do artigo: Grupos criados (a); a expectativa de vida dado a idade (b); expectativa de vida com multimorbidade dado a idade (c); proporção de anos com multimorbidade (d). Extraído de [1].

Para os dados de saúde, foram utilizados os dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) realizada em 2013, que podem ser acessados pelo site do DataSUS [4]. Analisando a imagem acima, o gráfico (b) nos indica que o grupo 1 (cor preta; com maior taxa de pobreza e desigualdade) possui uma expectativa de vida menor que os grupos 2 e 3 (cinza claro e cinza escuro, respectivamente). Já o gráfico (c) nos indica que os indivíduos que possuem multimorbidades do grupo 1 apresentam uma expectativa de vida menor do que os outros dois grupos. O último gráfico (d), por sua vez, mostra que os indivíduos do grupo 1 apresentam uma proporção de anos que vivem com multimorbidades menor do que os outros dois grupos.

Esses resultados nos leva a concluir que regiões com menor taxa de pobreza extrema e desigualdade possuem uma expectativa de vida maior quando comparado com regiões mais pobres e desiguais. Por outro lado, essa expectativa de vida maior vem acompanhada por um problema: a presença de multimorbidades por mais tempo. Isso pode ser explicado pela diminuição da resistência do sistema imunológico com o envelhecimento.

Na discussão do artigo, há também um debate na forma de tratamento no Brasil e em vários outros países: o tratamento de uma doença por vez. Em um cenário onde a população idosa que apresenta mais de uma morbidade começa a crescer, há a necessidade de mudanças no sistema de saúde. Dessa forma, será possível garantir uma qualidade de vida melhor para essa parcela da população.

Essas duas características ajudam a entender a qualidade da saúde de um país. A expectativa de vida diz qual a média de anos que a população de um país vive. A multimorbidade, por sua vez, é a presença de duas ou mais morbidades (problemas de saúde) na mesma pessoa, sendo que elas podem ser físicas ou mentais. Exemplos: diabetes, problemas no coração, depressão.

Uma forma de medir a desigualdade (concentração de renda) de um país é pelo Índice de Gini. Esse Índice varia de 0 a 1 (ou de 0 a 100), sendo que um valor igual a 0 seria um país sem desigualdade. O Brasil, em 2017, tinha um índice de 53.3 [2], ocupando a 7º posição de país mais desigual do mundo. A extrema pobreza, por sua vez, é definida como a parcela da população que recebe menos de U$1.90 diários. Em 2019, cerca de 6.7% da população (equivalente a 13.8 milhões de pessoas) brasileira estava na condição de extrema pobreza [3]. Na figura abaixo, apresentamos o histograma dos Índices de Gini dos estados brasileiros (esse gráfico está nos mostrando quantos estados possuem um Índice de Gini entre 0.30 e 0.40, entre 0.40 e 0.50 e entre 0.50 e 0.60).

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Histograma do Índice de Gini nos estados. Dados extraídos de https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_unidades_federativas_do_Brasil_por_%C3%ADndice_de_Gini, acesso em 25/08.

Esses dados, de 2013, indicam que maior parte dos estados (16)possuem um Índice entre 0.40 e 0.50. Apenas 3 estados possuem um Índice menor que 0.40 e 8 estados apresentam um Índice maior que 0.50.

Divulgação Científica — Grupo ARGO

Esse é um projeto do Grupo ARGO —  primeiro grupo extracurricular…

Felipe Augusto de Moraes Machado

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Engineering Student

Divulgação Científica — Grupo ARGO

Esse é um projeto do Grupo ARGO —  Grupo de Engenharia Biomédica e inovação em saúde da USP —  que envolve a divulgação de informação sobre a área da saúde, abrangendo produção científica e tecnológica, políticas públicas, notícias, curiosidades, entre outros temas.

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