Vem?

Vem, chega aqui perto. Não tão perto a ponto de achar que conheço mais a você do que a eu mesma. Existem barreiras que a gente não pode ultrapassar e mesmo sendo pega de surpresa por elas, escolhi ficar.

Vem, chega aqui perto. Eu preciso voltar a acreditar e confirmar que confiar é possível, mas por hora não me abro da mesma forma que você por saber que essas coisas levam tempo. Tempo demais pra gente. Nosso fim está próximo e uma certa dor, do apego e carinho que eu tanto evitei sentir, já vem com antecedência. A data de expiração de tudo isso já estava especificada no pacote com seu nome e, mesmo assim, escolhi ficar.

Vem, chega aqui perto. Perto o suficiente pra me dizer com a voz do seu olhar, dos ângulos das fotografias compartilhadas e da seleção das palavras escritas, o que você sente, quer, ou pretende por hoje e para hoje. Não podemos usar nossa voz para nada do que gostaríamos, não existe planejamento, não sabemos do meu, seu ou nosso amanhã. Somos apenas o hoje, o agora, um momento. Isso é óbvio, claro e explícito desde o início, mas eu escolhi ficar.

Não, não vai pra longe. Fica e chega mais perto. Perto o suficiente para viver um pouco do que já sente, mas não deveria. Era o nosso acordo manter distância. Chega e fica. A nossa inexistência tão viva por todo esse tempo se transformou em algo maior e tangível. Chega e fica. Mas sem apagar os rastros e esconder os vestígios de que já veio e viveu comigo.

Chega e fica. Aquela madrugada insone de primavera nos presenteou com a frase que interrompeu o nosso observar em silêncio. Chega e fica. Fica como tantas vezes tentou e eu recuei. Fica. Eu não vou ter medo. Fica. Eu sei, as armadilhas serão muitas daqui pra frente. Fica. Mudamos ao longo do tempo. Fica. Quero te chamar de meu amigo.

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