Diferencial competitivo versus semelhanças colaborativas

Durante anos da minha formação profissional, fui colecionando referências, atualizando-me, indo atrás das tendências e, usando a máxima dos escoteiros, estava “sempre alerta” para qualquer ferramenta que pudesse tornar melhor o meu trabalho. E, assim, estabeleci meus balizadores que permitiam que eu fosse fazendo meu trabalho com aquela certeza de lição de casa bem feita.

Acontece que eu tenho uma inquietação que nasceu comigo e me faz, desde pequena, sentir uma necessidade muito grande de mudar o rumo do vento que sopra em mim. Mudo a cor e o corte do cabelo sem apego, mudo de casa, de cidade e de Estado (fiz as contas, desde que nasci, morei em 17 lugares diferentes, entre cinco cidades distintas de dois Estados do Brasil) e mudo de opinião, sem constrangimento nenhum em admiti-lo. Tenho minhas convicções, claro, mas não a rigidez de quem assume ter nascido de tal jeito e, portanto, vai morrer igual. Tédio de quem pensa e age assim.

Em determinado momento, fui sentindo um certo vácuo no desenvolvimento do meu trabalho e aquilo me incomodava muito sem que me desse conta do quê. Então, quando criamos em 2016 um novo serviço na Dobro, o Soul, comecei a ver as coisas sob uma ótica diferente. Inclusive a forma de fazê-las também se revelou para mim de maneira interessante.

Iniciamos o Soul com um cliente já de longa data, a Sulati, que acolheu de maneira entusiasta a proposta de cocriarmos um projeto, ou serviço, ou produto, que fosse desenvolvido por meio das competências estratégicas da empresa, na cidade onde atuam. E esse projeto/produto/serviço teria a missão de ser autossustentável e causar um impacto positivo e transformador na vida da comunidade. O desafio foi encarado com muita seriedade pela equipe destacada para dar o start.

Nesse ponto, cito uma frase da Darlene Coelho: “Não precisamos de diferenciais competitivos, precisamos de semelhanças colaborativas”.

Como o Soul entrou na Casa

Logo após os primeiros meses de caminhada, tivemos que fazer ajustes na rota. Já que é uma cocriação, nada mais justo que a própria Sulati vir com a proposta de deslocarmos o esforço do Soul para um outro projeto que estava sendo acalentado pela direção há algum tempo, mas que, por circunstâncias do negócio, poderia ser posto em ação mais rápido do que o previsto. A empresa precisava construir uma nova sede, ampliando suas instalações, pois sua capacidade operacional já excedia o espaço atual. O local escolhido tem todo um contexto histórico e pessoal que envolve a trajetória dos diretores (uma empresa familiar que tem marido e mulher como gestores) e poderia abrigar, além dos galpões, um sonho latente, que é o de se construir uma casa que abrigue “algo” que tenha valor para as pessoas da cidade. Assim, surge a Casa Sulati, como estamos chamando carinhosamente o futuro espaço.

Pelas sincronicidades que acontecem com quem se dispõe a se entregar ao novo, topamos com o pessoal da Transformar, empresa que desenha processos de mudança nas organizações, transformando o negócio em propósito. Eles abraçaram conosco a Casa e, juntos, começamos, novamente, a pensar o que aquela Casa poderia oferecer.

Sobre nutrir o fluxo

Logo que se falou e se pensou na Casa, ficou claro que tínhamos de abrir ainda mais a rodinha. Além de várias pessoas de diferentes posições na empresa, precisávamos também envolver outras da própria comunidade. Foram convidadas pessoas que, de alguma forma, tinham alguma ligação com a cidade, ou com a Sulati, ou com ambas. Mas eram de áreas bem diversificadas.

Depois do primeiro laboratório de sensibilização onde foi apresentado ao grupo qual era o sonho, cada um foi convidado a incluir o seu próprio naquela jornada e buscar dentro de si o que fazia sentido. Já no segundo, partimos para a visualização em campo, o que ajudaria bastante na ideação, que seria o momento seguinte.

Para quem está extremamente acostumado com o pragmatismo das reuniões de planejamento e criação, mesmo que elas possam ser descontraídas e tumultuadas, trabalhar com um grupo tão heterogêneo pode ser assustador.

Acostumados que estamos ao brainstorming e com a sua sequência rotineira (anotem tudo, tudo mesmo, e tenham uma quantidade boa de insigths, depois descartem as abobrinhas e pincem as melhores ideias, vista-a com uma boa abordagem e argumentação, faça uma apresentação fodástica e mostre ao cliente), parece que a coisa não vai fluir se não estivermos entre os nossos iguais. Mas flui lindamente e isso foi o que mais me empolgou.

E aí que percebi que alguma coisa estava muito errada na forma que nós, gente da comunicação, lidamos com uma solicitação do cliente. Talvez estejamos tão obstinados a oferecer a melhor solução, que nos abstemos de envolver o próprio cliente (e quando digo cliente, me refiro também às pessoas que fazem parte da equipe dele, àquelas que irão usufruir da solução e àquelas que não irão necessariamente se beneficiar com ela, mas têm muito a contribuir) na problemática. Nos esquecemos, com muita frequência, de nos conectarmos com todas essas pessoas e com o propósito verdadeiro e sincero que está por trás. Não raro, limitamos as conversas com a mesa diretora e validamos com eles mesmos as ideias que surgem, sem ao menos avaliarmos a inclusão de outras óticas na equação. Sei por experiência própria o quanto é difícil ganhar adesão para esse novo olhar, quer seja pela dificuldade do cliente em aceitar/entender uma horizontalização dentro da sua própria empresa ou pela dificuldade/espanto do colaborador em se engajar nos problemas, sendo ele parte da solução e, até mesmo, pela nossa incapacidade de aceitar (com uma grande dose de humildade) que nós (eu, você, todo mundo que faz parte desse mundinho) não temos a verdade absoluta e que não somos os mestres imbatíveis e que, podemos sim, aprender com pessoas que são completamente estranhas ao nosso métier.

Então, as conclusões que tirei a respeito do Soul, da ideação, do planejamento, de tudo isso que falei até agora e de como ele foi se desenvolvendo, me levam a fazer um “de” “para”:

de brainstorming racional, para processo de conexão;

de planejar e de programar, para sentir o fluxo;

de fazer análise, para fazer apreciação;

de filtrar, para incluir;

de argumentar, para escuta ativa;

de usar apenas a lógica, para dar espaço à sensibilidade.

Mas, isso tudo é um novo olhar, não adianta mudar apenas no discurso.

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