A Mostra em seu número 43: os quinze filmes que compõem cada um a sua maneira a grandeza dessa arte.

A mescla de produções que vi em cinemas da cidade de São Paulo, do dia 17 de Outubro até a data de ontem dava o tom do que foi a Mostra Internacional de Cinema da cidade, em seu número 43. Ao alcançar o número de quinze filmes vistos, decidi-me a uma tarefa ingrata de fechar uma resenha do que foram essas semanas de MOSTRA, sem ter visto uma quantidade enorme de filmes, seja por questões de agenda, seja pela impossibilidade de ver tais filmes em tais localidades, ou por simplesmente não ter conseguido os muitos concorridos ingressos para as sessões. Ao final me deparo com um excelente apanhado de longas, curtas e experiências virtuais vistos nas já mais de duas semanas de MOSTRA.
O critério da escolha dos filme foi baseado no desejo de somar experiências de dentro de uma sala escura com uma tela em movimento. O desejo de apreciar a composição de boas histórias, com bons roteiristas, bons diretores, seja experientes no oficio ou novos. Infelizmente não pude ver a retrospectiva de Olivier Assayas nem Madame Satã, do Ainouz no IMS, mas estive nas duas exibições de encerramento, com os trabalhos mais recentes do Meirelles e do novato Eggers, assim como a sessão de Wasp Network (para não dizer que não teve Assayas na lista).
O ponta pé inicial foi com a Maratona de Brittany, filme cem por cento indie norte-americano, com a direção do estreante Paul Downs Colaizzo feito pela Amazon Studios. A produção em seus acertos e erros convence com uma performace deliciosa de todo elenco. O segundo filme foi uma pancada. Literalmente. Amazing Grace é um filme inédito dirigido por ninguém menos que Sydney Pollack, e terminado agora por Allan Elliot. Se trata na realidade não de um filme com uma estrutura temporal, de começo, meio e fim. É a gravação de uma performace de uma jovem Aretha Franklin em uma igreja batista em Los Angeles. A sua voz estremece os nossos poros. A intensidade de sua performace é de causar arrepios, com direito a platéia presente naquela apresentação a cair em prantos. Se tratava de uma gravação para um disco que seria lançado pela Warner, com a acústica, sons da platéia presente na gravação. O albúm é um dos mais vendidos da história.
Entre uma sessão e outra percebo que as pessoas estão cada vez mais inaptas ao ritual de sessões de cinema. Falam em voz alta, mexem em seus celulares a todo instante, e em todos os momentos possiveis. Se mostram impacientes. Em tempos de séries de Netflix que duram 30 minutos, videos do YouTube e stories do Instagram, as pessoas se permitem serem inconvenientes em um lugar que se impõe o cumprimento de se estabelecer regras sociais. Eu pondero se seria eu o chato de galocha, mas se um comportamento, sobretudo em uma mostra de cinema, não inspira um comportamento minimo de presença em tais ambientes coletivos não há mais esperança para apresentações de qualquer tipo sem que algúem se sobressaia com uma bela de uma interferência no espetáculo.

The Report, longa do famoso roteirista norte-americano Scott Z. Burns consegue parecer com muitos filmes do gênero de filmes politicos e de espionagem (sobretudo em Hollywood, com os desfechos que trazem um tom emocional), mas entrega uma realização notável por somar tantos ótimos atores em roteiro agil e interessante.
Orson Welles em Fortaleza. Orson Welles filmando os jangadeiros do Nordeste. Orson Welles prefere mil vezes tomar umas pinga com os negros do que com a elite. Jangada de Welles é um daqueles documentários que impressiona pela montagem, pelas imagens, pela história em si.
No Cinesesc vi dois filmes de realidade virtual impressionantes. “A Linha”, de Ricardo Laganaro, fez o Brasil vencer pela primeira vez, ao lado do filme de Barbara Paz, troféis no Festivel de Veneza. Na mostra VVR (Venice Virtual Reality), levou o prêmio de melhor. Quando fui ver o filme, fui inicialmente orientado a me sentar numa marca de x colada no chão. Depois tive que me levantar para abrir uma porta. Desse momento em diante, “A Linha” encanta ao me tornar o ‘destino’ dos personagens, pressionando botões, puxando alavancas. É a história de um sujeito que em sua bicicleta poderia percorrer qualquer caminho para entregar os jornais. Até que ele resolve sempre deixar uma flor amarela para a mulher que ele mais ama. O resto é a surpresa da experiência. No segundo filme, “11.11.18”, de Django Scherevens e Sébastien Tixador temos a experiência em VR de estar dentro de uma trincheira da Primeira Guerra Mundial.
O filme de Fernando Grostein Andrade filmado em Nova York, Abe é um filme muito interessante nos momentos em que vemos as comidas sendo preparadas e o jovem personagem título preparando os pratos, mas não vai muito além. O embate entre judeus e arabes, representado pelos pais do garoto torna o filme cansativo, mas não estraga o prazer do resultado final.
O Fantasma de Peter Sellers, do diretor Peter Medak é surreal, absurda e hilariamente desconfortavel. Peter Sellers e o seu temperamento dificil fez arruinar o longa que Medak dirigiu décadas atrás. Aqui o documentário serve como um acerto de contas com o passado.
Wasp Network, do diretor homenageado pela MOSTRA com o premio Leon Cakoff, Olivier Assayas faz um filme muito bem filmado, com uma Penelope Cruz em uma de suas melhores performaces como atriz. A trama que remonta ao resultado do embargo dos EUA sobre Cuba e o que muitos cubanos vieram a fazer para escapar da ilha, ao mesmo tempo que espionagem do governo cubano frusta os planos do grupo de oposição sediada na Florida. Um filme fraco se juntado com outros do diretor, mas não menos surpreendente.
O filme de Barbara Paz sobre o seu companheiro e um dos maiores diretores da história do cinema, Hector Babenco é um retrato intimo do diretor que se permite ser visto em imagens pessoais, de seu tratamento em hospitais e de sua relação com o cinema, ao revisitar locais que estiveram em seus filmes. Doloroso e ao mesmo tempo um lindo filme sobre a vida, em todos os seus aspectos. A história de Babenco é a história de seu cinema.
Ao mesmo tempo que assisti filmes em realidade virtual, fui ver filmes mudos de ninguém menos que George Mélies. A viagem á lua, de 1902 e Joana D’Arc, de 1904 foram os dois belos destaques dentre os muitos do diretor exibidos no vão do MASP. Incrivel a seleção de filmes do diretor exibidas, todas embaladas ao som do piano de Tony Berchmans.
Com a presença de Willem Dafoe e do diretor Robert Eggers, The Lighthouse, filme inédito em muitos países, surgiu na MOSTRA como um dos grandes filmes presentes. O diretor do já cult, A Bruxa (2015), Eggers traz aqui com a produção executiva da RT Features, de Rodrigo Teixeira, o seu mais ambicioso projeto. No filme Dafoe divide a cena com o ator Robert Pattinson, no que remete a uma encenação teatral. Os dois surgem em interpretações tão bizarras quanto pode parecer nas imagens divulgadas. O filme é nada previsivel e tudo pode acontecer, em cenários sombrios. Cenários esse que foram todos feitos manualmente, nada ali é puramente chroma key, o que torna a experiência de assistir ao filme mais imersiva.
O filme que encerrou a mostra foi o melhor da MOSTRA. Dois Papas, de Fernando Meirelles é um verdadeiro exemplo de como uma direção segura, de uma fotografia belissima e atores fantásticos podem resultar em filme inesquecivel. Os papas Bento 16º e Francisco e a relação construida desde o momento em que o papa João Paulo 2º faleceu. A história de Jorge Mario Bergoglio, antes de ser o papa Francisco é contada em todos os detalhes no filme que não deixa escapar nenhum assunto sensivel para a igreja, dos abusos cometidos aos escandalos de corrupção.
Para fechar, assisti ontem ao filme de Karim Ainouz, exibido no começo da MOSTRA, no Theatro Municipal com a presença de Fernanda Montenegro e elenco no tapete vermelho da pré estreia. “A Vida Invisivel” foi o escolhido para concorrer a uma indicação ao Oscar desse ano pelo Brasil e tem uma história dolorosa sobre frustrações em vida, sobre feminismo. As atuações das atrizes e de todo o elenco é o ponto alto, junto com um roteiro muito bem escrito. Montenegro entrega uma performace que coroa todo um filme muito bem feito, da reconstituição dos anos 50, em tudo.
A lista de filmes da MOSTRA desse ano assistidos, sem cerimonia, está abaixo:
A Maratona de Brittany, Paul Downs Colaizzo.
Amazing Grace, Sydney Pollack e Allan Elliot
The Report, Scott Z. Burns
A Jangada de Welles, Firmino Holanda e Petrus Cariry
A Linha, Ricardo Laganaro
11.11.18, Django Scherevens e Sébastien Tixador
Abe, Fernando Grostein Andrade
O Fantasma de Peter Sellers, Peter Medak
Wasp Network, Olivier Assayas
Babenco, Alguém tem que ouvir o coração e dizer: Parou, Barbara Paz
Viagem á Lua, George Melies
Joana D’Arc, George Melies
The Lighthouse, Robert Eggers
Dois Papas, Fernando Meirelles
A Vida Invisivel, Karim Ainouz


