Antonio Calloni é Halim, o marido de Zana

“Sempre mais poesia do que prosa”. Ator escreve sobre as sensações vividas durante as gravações.

Paixão, memória, tempo presente, desespero criativo, alegria. Alegria!!! O prazer do faz de conta infantil. Ator. Ser criança, esquecer da alta literatura, da música clássica, de Botticelli e deixar que essas “coisas” passeiem livremente por nossa carne, sem pensar nelas. Esquecer para sentir prazer.

‘Dois Irmãos’, história “quase” inventada pelo infante que habita Hatoum (Milton Hatoum, o autor da obra) e repleta da mais poderosa paixão: aquela que mata e gera vida. E com essa mesma paixão avassaladora, a trupe de ‘Dois Irmãos’ entra num galpão enfeitiçado e começa a moldar a história de uma família de imigrantes libaneses que tenta a vida em Manaus. Imigrantes que constroem o Brasil. Um país que melhora e depois piora. Um país que piora e depois melhora. Um país que melhora e piora ao mesmo tempo, reforçando a ideia de que a história não é, e jamais será, linear.

“Não é linear o gigante amor que Halim sente por Zana, sua mulher. É um amor maior do que as horas. Filhos são uma ameaça. Os gêmeos Yaqub e Omar, encarnação clássica do equilíbrio e do caos, provocam o amor, o ciúme e a sexualidade, sempre num ambiente pleno de música, festa, surras, sexo e beijos”

No processo de criação pudemos sentir o calor dessa família, maravilhosamente conduzidos pelo “músico” Luiz Fernando Carvalho, por meio de exercícios de corpo, improvisações, aulas de dança, de culinária, prosódia e palestras.

Um elenco que se uniu pelo afeto e pela admiração que duram até hoje, um ano e meio após a conclusão das gravações, e que promete durar para sempre. Aconteceu uma mágica, se boa ou não, cabe ao público decidir. Da nossa parte, vale dizer que tentamos da melhor maneira possível, contar um pouco da história desse nosso país tão vigoroso e exuberante, dessa família tão vigorosa e exuberante.

Trago na memória o prazer: de ir para o ensaio e experimentar a vida, o fragmento, o discurso recortado, a sequência de lógica suspeita, o bom inferno e algum céu. Sempre mais poesia do que prosa e, quando prosa, poesia também. Um ambiente de diversão e descobertas. Difícil definir claramente uma obra que, como toda grande obra, fala da mesma coisa: da vida. Dostoiévski, Clarice Lispector, Miró, Vivaldi… farinha do mesmo saco, falando da mesma coisa — não consigo ver diferença.

“Por incompetência ou por uma doentia capacidade de sonhar, só vejo semelhanças. Assim é a familiar e semelhante ‘Dois Irmãos’: amor incondicional de Halim pelo prazer, pela esposa. A paixão, a beleza e a força de Zana e seu amor tonelar pelo marido, pelos filhos e pela vida. O mistério da filha Rania, e a vida e a morte encarnadas nos gêmeos Yaqub e Omar. Uma obra que provoca, emociona e faz viver”

Da obra de Milton Hatoum, Dois Irmãos é uma minissérie de 10 episódios, escrita por Maria Camargo, com direção artística de Luiz Fernando Carvalho. Confira alguns capítulos que estão disponíveis para assinantes do Globoplay.

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