Milton é Hatoum, o pai da obra

Escritor mergulha no seu processo criativo: “Quando alguma coisa começa a dar errado é quando a vida se transforma em literatura”.

1998 foi um ano de ruptura na minha vida. Tinha escrito o romance ‘Relato de Um Certo Oriente’ e naquela época eu havia voltado da França. Fiquei quinze anos em Manaus trabalhando na Universidade do Amazonas e não conseguia escrever outro romance. As coisas por lá começaram a dar errado. Como diz o Nael (narrador de Dois Irmãos): ‘a vida parece que caminha numa linha reta ou às vezes numa linha ascendente e de repente alguma coisa começa a dar errado’.

“Quando alguma coisa começa a dar errado, este é o momento do romance. É quando a vida se transforma em literatura. Todo mundo quer que a vida dê certo, evidentemente. Só os loucos procuram esse desvio”

Em 1997, muita coisa foi acontecendo: perdi algumas pessoas muito queridas, não tinha mais tempo para ler e escrever, queria escrever um romance que estava na minha cabeça há muito tempo desde a leitura quase adolescente de ‘Esaú e Jacó’. E esse romance era o ‘Dois Irmãos’. O momento decisivo para escrever este livro foi minha saída de Manaus e minha ida para São Paulo, quando decidi mudar de profissão e não ser mais professor universitário. Eu dava aula de língua e literatura francesa e tinha uma carga horária pesada que me impedia de ler.

“E escrever antes de mais nada é ler. Quando não se tem tempo para ler, não se encontra tempo para escrever”

Passei três anos trabalhando nesse romance, escrevendo todos os dias. Por alguma superstição ou mistério eu achava que esses dois irmãos um dia me libertariam de alguma coisa. E de fato quando publiquei o livro, passei a viver de literatura. Dos meus poucos livros, ele é de longe o mais conhecido. Das coisas que eu enfrentei para escrevê-lo, eu diria que a construção do narrador foi a mais difícil. De alguma forma ele tem algum paralelo com a minha vida, embora eu pertença a outra classe social. Na minha infância, muitas das empregadas eram índias trazidas pelas missionárias religiosas do Rio Negro ou do Solimões. Muitas delas não falavam português. Era comum que essas pessoas não tivessem salário.

Para quem escreve romance o narrador é uma questão central. Você tem que perguntar: Qual é a voz? Como ele se relaciona com os outros personagens? Quando escrevi as primeiras versões de ‘Dois Irmãos’, alguns leitores de manuscritos, que são implacáveis e não piedosos, fizeram observações sobre a figura do narrador. E eu tinha errado a mão porque era distante. Tive que refazer por isso tem dezesseis versões até chegar ao livro como ele é. Quando você mexe numa peça importante tem que controlar tudo de volta. O romance no fundo tem uma amargura profunda. Você não sabe quem é o pai, tem essa mulher que é explorada há quatro séculos, como é até hoje, infelizmente.

“Se um dos irmãos contasse não seria o mesmo romance, o meu esforço era que esse menino curumim, filho de uma violência, fosse um porta-voz da memória dessa tribo”

Eu tinha a história na minha cabeça armada. Isso também aconteceu com os outros romances. Você fica pensando, pensando, até o momento em que você não aguenta mais, senta e escreve sobre aquilo que gostaria de escrever. E eu só consigo escrever quando eu sei o fim. Sou assim um típico escritor do século XIX. No romance começa com a morte da Zana. Eu preciso visualizar o começo e o fim e depois faço a ponte da morte para vida. Começo pelo fim e vou até as origens. Então os quadros e sequências eu montei em esboços que fiz exaustivamente para cada personagem. Fazia esquemas para cada um, e depois que ia escrevendo, as coisas iam mudando, como na filmagem, como muda a vida. Às vezes, você começa um romance jovem e termina velho de bengala. O “Cinzas do Norte” demorou cinco anos. Quando eu o terminei tinha um filho e minha mãe tinha morrido.

“O romance é a arte da paciência. É um pouco como o Halim, se você não tiver paciência, você queima etapas”

Não tinha ideia que ele seria adaptado para outras linguagens: seja teatro, quadrinhos, audiovisual… Nunca pensei que um dos meus livros seria recriado para a TV, eu não penso nisso e os escritores de maneira geral também não. Porque o roteiro é muito diferente do romance. Eu não tinha essa expectativa, mas eu fiquei animado porque eu conhecia a obra do Luiz, sou um admirador incondicional do trabalho dele.

Há uma particularidade em ‘Dois Irmãos’, histórias de gêmeos tendem ao clichê e ao estereótipo. Esse foi meu maior desafio. A literatura francesa do século XIX está cheia de histórias de gêmeos, é o arquétipo, vem dos textos sagrados. Então o meu desafio foi não fazer uma caricatura, já que não funciona para o romance realista contemporâneo. Quando vi os primeiros trechos senti essa diferença na atuação de todos os gêmeos, você inventa uma personagem, vê na tela e pensa: nossa é isso mesmo. É o grande barato do cinema e eu não me senti traído como escritor.

“Você não imagina a emoção que eu senti quando eu vi o primeiro episódio. Eu que como dizia Euclides da Cunha: ‘quem vem do Amazonas tem pele de Sucuriju, não cede facilmente a emoção’. Esse cara (Luiz Fernando Carvalho) me colocou numa salinha escura e disse: ‘vai’. E eu fui sozinho com aqueles fantasmas todos da minha família, da minha tribo…” (Milton Hatoum)

Texto extraído de entrevistas concedidas pelo escritor durante a divulgação da minissérie.

As fotos desta publicação foram feitas pela fotógrafa Gabi Carrera.

Da obra de Milton Hatoum, Dois Irmãos é uma minissérie de 10 episódios, escrita por Maria Camargo, com direção artística de Luiz Fernando Carvalho. Confira alguns capítulos que estão disponíveis para assinantes do Globoplay.

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