Domingadas #4 — O bicampeonato no contrafluxo

Antes de começar meu depoimento, devo pedir desculpas. O Domingadas aponta que as crônicas aqui presentes teriam de ser de jogos acompanhados in loco. Mas, mesmo vendo o segundo jogo da final do Campeonato Paulista pela TV, acredito que a minha experiência merece ser contada e compartilhada.

Assisti Palmeiras (3) 0 x 1 (4) Corinthians no Itaquerão, a 20 quilômetros do Palestra Itália — no outro extremo da Linha Vermelha do metrô paulistano.


O domingo de jogo do Corinthians é um acontecimento que segue alguns ritos em casa. Quase sempre almoçamos mais cedo para chegar às 16h no estádio, ainda mais agora em Itaquera. Temos que sair por volta das 14h.

Vamos até o metrô Santa Cecília de carro e embarcamos na Linha Vermelha. Se der tempo, uma cerveja do lado de fora. Se não, entramos direto.

O que me levou, então, para o outro lado do derby — ainda que o de sempre?

O roteiro começa com um convite na quinta (5 de abril). Mensagem no WhatsApp de número desconhecido. Convite para assistir à grande decisão no camarote do Itaquerão. Tudo pago. Feijoada, chope, caipiroska, petiscos, DJ e grupo de pagode. E, claro, telão para seguir o que aconteceria em campo.

Em momentos de trotes de todo tipo e até fake news, desconfiei. Liguei para o Fiel Torcedor e confirmaram a oferta. Eu estava convidado a assistir o jogo justamente no estádio que não receberia o clássico. Tudo porque sou um assíduo sócio-torcedor há 10 anos — desde que o programa existe.

Lá estávamos nós, eu e meu irmão, duas crias da arquibancada, no luxuoso camarote do Itaquerão. Espaço do estádio em que nunca imaginamos pisar. A cerveja dos jogos comuns, do lado de fora, meio quente, chacoalhada das fugas do “rapa”, virou o chope gelado do patrocinador. A pizza a "déiz real" do fim de jogo, um banquete. A Maria Mole suspeita do portão de entrada virou a famosa caipiroska. Atrás da gente, gramado e cadeiras vazias. E silêncio.

Um cara na nossa frente pegou mesa e cadeiras para se sentar junto à esposa. O segurança do camarote veio na perseguição. Para quem instintivamente prevê alguma atitude mais ríspida, como é comum quando se trata de agentes da segurança do estádio e da Polícia Militar, ledo engano. Ele estava vindo, gentilmente, trazer as duas canecas de chope do casal.

Depois de alimentado (e já um pouco bêbado, admito) o jogo, de fato, começa. Pufes em formato de bola permaneceram intocáveis, bem em frente ao telão. Preferimos ficar de pé, como na arquibancada, encostados na parede para não atrapalhar ninguém e evitar a famosa frase “senta aêêê”, infelizmente cada vez mais recorrente nos estádios brasileiros.

Nem todos estavam acomodados quando Mateus Vital ganhou da zaga palmeirense e tocou para a finalização de Rodriguinho. Menos de dois minutos de jogo. Imaginei o silêncio dos mais de 40 mil em Perdizes e participei da festa dos pouco mais de cem no nosso camarote de Itaquera.

Não importa o tamanho do luxo, comemoração de gol é algo universal. Teve quem gritasse na frente do telão (meu irmão), quem abraçasse desconhecidos (eu) e gente pulando como se a bola tivesse entrado ali, a poucos metros.

Logo após a catarse, um cara se aproximou. “Vou ficar aqui. Vocês são da arquibancada como eu”. Sei da estranheza de falar em igualdade dentro de um camarote. Sei bem que é um espaço para pouquíssimos. Eu mesmo só estava lá porque pago uma anuidade salgada há uma década. Mas deixando as problematizações de lado, entendi a empatia do amigo de 90 minutos.

Um gol e nada mais. A defesa corintiana teve desempenho quase impecável. Vamos aos pênaltis. Estava confiante. Numa daquelas coisas que só frequentadores de estádio entendem, cantei que o Dudu ia perder. Cássio cai para a direita e pega. Lucas Lima, outro craque badalado, coloca na esquerda. Cássio de novo! Fagner bate para acabar. Loooonge. Maycon pra última cobrança. É só fazer… Bate e confere! A festa atravessa a cidade. O camarote explode. Bicampeão depois de 35 anos, contra o arquirrival após 19 anos.


O jogo e o chope acabam. Hora de ir embora.

No contrafluxo da maioria verde, pegamos o metrô já sem as camisas do Corinthians. Não queremos virar o exemplo perfeito da expressão “mais fácil do que bater em bêbado”. Viajamos estação por estação quietos. Em silêncio.

Não teve pórópópópópópó, não teve comemoração, mas a cada para em que via o trem lotado de vice-campeões do outro lado, tinha vontade de sorrir — nem que de canto de boca. Afinal, era dia de gritar "é campeão".

Ainda tive tempo de chegar em casa, na Zona Sul de São Paulo, para ouvir o finalzinho da festa fora do camarote, com os últimos fogos de artifício estourando já um pouco longe e num som não tão alto.

A experiência do camarote foi muito legal e se quiserem chamar outra vez, lá estarei — alô, Fiel Torcedor. Mas ali não é o meu lugar. Ainda bem que domingo tem mais. E dessa vez é na arquibancada, pra sentir mais emoção.


Volta da Final da Série A-1 do Campeonato Paulista de 2018 (8 de abril)
Palmeiras 0 (3) x (4) 1 Corinthians
Itaquerão — (Arena Corinthians) — São Paulo (SP)

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