Asaléa — Uma flor vencendo os canhões



Por: Leandro Rodrigues

Foi em 1968 que Geraldo Vandré ganhou notoriedade ao defender no Festival da Canção da Rede Globo a antológica “Pra não dizer que não falei das flores”, uma espécie de hino da resistência à ditadura. Não fosse a canção ser claramente um manifesto contra o regime militar e se tivesse sido um ano antes, em 1967, muitos desconfiariam que a musa inspiradora de Vandré tivesse sido Asaléa de Campos Micheli, mineira de Belo Horizonte, nascida em 1945 e que, a partir de sua paixão pelo futebol, tornou a quebra de paradigmas a marca maior de sua vida.


Formada em educação física pela Universidade de Brasília (UnB), Léa enveredou por outra área também pouco receptiva ás mulheres naquele tempo, a do jornalismo esportivo. Léa atuou como radialista em Minas e foi Relações Públicas do Cruzeiro Esporte Clube. Sua paixão pelo futebol começou ainda na escola secundária, onde atuava como centroavante. Apesar disso, não era masculinizada — como se temia que as mulheres que praticassem futebol pudessem ficar e que foi o principal argumento para a proibição da prática da modalidade por elas na década de 40 e que perdurou por quatro décadas. A prova é que Léa chegou a ser Miss Belo Horizonte e dos Ex-combatentes. Faixas essas que ela engavetou sem nenhum constrangimento para se dedicar á sua paixão maior, o futebol.


Sua trajetória na arbitragem teve início em 1967 quando passou oito meses na escola de árbitros da Federação Mineira de Futebol. Depois foram quatro anos de intensa batalha para ter seu diploma de árbitra reconhecido pela FIFA e poder atuar. Teve de enfrentar a lei brasileira que desde os anos quarenta proibia a participação de mulheres no futebol e que fora reafirmada pelo governo militar. Lutou também contra a resistência dos dirigentes em permitir sua atuação, inclusive de João Havelange, á época presidente da FIFA e abertamente contrário á presença de mulheres no futebol. E foi assim que em 1971, depois de quatro longos anos, Léa conseguiu o direito de apitar em jogos oficiais. No Brasil, somente não apitou jogos no estado de São Paulo, onde isso era ilegal para mulheres. Representou o país no Mundial Feminino do México. Trabalhou em centenas de jogos nas Américas e na Europa e terminou sua carreira, em função de uma lesão no joelho, sem nunca ter a suas arbitragens questionadas pelo fato de ser mulher. Seu pioneirismo foi importante para inúmeras que outras mulheres pudessem alcançar seu espaço no mundo do futebol como árbitras e assistentes. No Brasil, nomes como Silvia Regina de Oliveira, Ana Paula de Oliveira e mais recentemente, Janette Mara Arcanjo devem á coragem de Léa Campos o destaque que alcançaram na arbitragem brasileira.


A única lamentação de Léa, que hoje vive nos Estados Unidos é o fato de o país ter demorado mais de quatro décadas para reconhecer a importância do seu trabalho e da sua luta:


“Acalentei por mais de 40 anos o desejo de ter minha luta, de abrir uma oportunidade de trabalho para as mulheres reconhecidas pelo meu país. Confesso que me sentia frustrada por nunca ter recebido um reconhecimento público no Brasil por tudo que fiz. Depois de ser homenageada em diversos países, nos quais incluo EEUU, onde o futebol ainda usa fraldas, e isso me incomodava, porque o que eu mais desejava era ter essa homenagem em meu país. Dia 19 (de 2015) de maio esta decepção que carreguei comigo por mais de quarenta anos anos chegou ao seu final. Fui homenageada pelo Museu do Futebol de São Paulo, Visibilidade para o Futebol Feminino. Como eu sempre digo, nunca é tarde quando a meta é nobre. Emoção é um sentimento indescritível, por isso não tenho como dizer o que senti naquele momento”.


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