Auroras boreais são temperamentais

E a Islândia não é tão fria quanto você pensa.


Visitar a Islândia no inverno parece ser uma decisão que só um louco com tendências suicidas teria. Mas, na prática, o frio islandês não é tão tenebroso quanto parece: em fevereiro, quando a primavera já vem batendo, a maior parte dos dias fica no zero grau, o que é bem ok, desde que você seja sensato o suficiente pra usar roupas apropriadas. A pior parte é o vento, sempre, que faz com que a sensação térmica chegue em uns 15 negativos, o seu rosto congele, seu nariz escorra como a Gullfoss* e seus canais lacrimais criem vida própria. Nada que um estoque de lenços não resolva.

Mas, de qualquer forma, mesmo que fosse possível perder o seu mindinho para o frio (imagens fortes aqui) nessas condições climáticas, a visita durante o pico do inverno ainda valeria completamente a pena: é nessa época do ano em que as auroras boreais BOMBAM.

*Gullfoss, essa aí da foto, é a maior cachoeira da Islândia: seria o equivalente das Cataratas do Iguaçu, mais ou menos, considerando que as Cataratas são maiores e provavelmente mais bonitas. Mas fica aí o aprendizado e a referência: sempre que você quiser soar muito pedante, assim como eu, é só falar que “meu nariz está parecendo a Gullfoss”. Provavelmente um amigo mais pedante que você vai fazer aquela cara de quem entendeu perfeitamente.

Veja bem, a natureza encontrou um ótimo jeito de recompensar os nórdicos pelo inverno constante de lá: entre novembro e fevereiro, as chances de você encontrar luzes dançando no céu são grandes. LUZES DANÇANDO NO CÉU!!! Tudo o que você precisa é que não hajam nuvens e que as partículas de explosões solares sejam carregadas por raios magnéticos e naves alienígenas até os oompa-loompas franceses da camada de ozônio. Ou alguma coisa assim. Você pode perguntar pra Wikipedia.

Mas existem algumas coisas que ninguém vai te falar sobre a aurora boreal. Por isso, resolvi ajudar.

COISAS QUE NINGUÉM VAI TE FALAR SOBRE A AURORA BOREAL

  1. Que as vezes elas aparecem, mas é como se não aparecessem.

As auroras aparecem com intensidades diferentes — alguma coisa a ver com os oompa-loompa franceses que falei acima, não sei. Isso significa que elas podem aparecer, mas muito fraquinhas, e te deixar bastante decepcionado. Foi o que aconteceu quando vi uma pela primeira vez: em uma viagem pelo interior do país, a galera do hotel ficou toda alvoroçada porque tinha uma aurora no céu. Quando vi, fiquei meio na dúvida se era uma aurora mesmo ou se a lente do meu óculos estava suja.

2. Que as fotos absurdas de auroras boreais não são exatamente realistas.

Sabe aquelas fotos lindas de morrer que a gente encontra no Google? Geralmente aquilo ali é lorota — aquelas auroras grandonas, maravilhosas, não aparecem sempre. Não que as fotos sejam photoshopadas, mas elas são tiradas com câmeras super-potentes e com muita, muita longa-exposição, o que significa que elas ficam muito mais bonitas no computador do que a olho nu. Mas eu não devo ser a primeira pessoa a te falar pra não acreditar em tudo que você encontra na internet, né?

3. Que existem tours para caçar auroras boreais e eles geralmente são furadas.

Passar quatro horas rodando o país atrás de algo imprevisível raramente vai ser uma boa ideia. Se a meteorologia ajudar e você encontrá-la, fazer uma parada no meio do nada com mais vinte chineses barulhentos que você nunca viu na vida provavelmente não é o que você procura.

4. Que elas não têm hora pra aparecer (e as vezes aparecem na hora errada).

As auroras boreais podem aparecer basicamente a qualquer hora, desde que não haja luz do sol. No meu primeiro dia de céu aberto na Islândia, depois de me decepcionar com a aurora-micro-pênis que brotou umas nove da noite, voltei pro meu quarto. Tomei um banho quente, botei a roupa de dormir, tirei as lentes de contato e me enrolei na coberta só para, antes de fechar os olhos, espiar pela janela do quarto e encontrar uma aurorona, bem maior que a primeira. Botar as botas, segundas-pele e roupas de frio novamente estava fora de cogitação. Deixei passar. Na mesma noite, por volta das três da manhã, ela apareceu de novo: dançando, tomando conta do céu inteiro. Só descobri no dia seguinte, conversando com um casal no café da manhã.

A primeira — e única — aurora que eu vi pra valer foi em um dos meus últimos dias em Reykjavík. Quando meu amigo voltou pra casa mais cedo porque tinha ~se dado bem~ na balada, resolvi andar pela cidade, rumo ao oceano, quando vi uma luz no céu que era ou uma invasão de alienígenas carnavalescos, ou uma aurora boreal bem lindona. Deitei no chão e fiquei olhando por um tempo, com um James Blake no ouvido, quando um grupo de vinte chineses barulhentos apareceu do meu lado. Esses caras estão em todos os lugares.

A experiência te ajuda a encontrar o ritmo certo e balancear os riscos: se entrar em um bar, fique de olho na conversa alheia pra ver se auroras são mencionadas. Ao ir dormir, deixe suas roupas de frio separadas, caso apareça uma de repente. E, mais importante, só faça sexo casual em noites de céu limpo caso você ache que VAI SER REALMENTE MUITO BOM, porque meu amigo está arrependido até hoje. Meça suas transa, parça.

Tirei essa foto na varanda de casa, no centro de Reykjavík, no mesmo dia da aurora sobre o oceano. Baita sorte.

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