Eu vejo gente pelada. O tempo todo

(Ou “o que acontece quando você vive na Alemanha”)


Eu não precisei passar muito tempo na Alemanha pra ver gente pelada.

Eu nem morava lá quando rolou pela primeira vez. Em 2011, em um festival de música no interior do país, presenciei em momentos diferentes rapazes muito bêbados que, debaixo de um frio de uns 8 graus, abaixaram as calças e fizeram xixi sem se preocupar muito em esconder nada.

Eu achei esquisito mas não achei, ali, que estivesse observando (entre outras coisas, nesse caso, né) um padrão cultural. É claro que em todas minhas experiências com gente bêbada no mundo nunca vi ninguém voluntariamente abaixar as calças e fazer xixi onde estiver, então eu devia ter notado. Felizmente, a bebedeira parece ser fator essencial. Alemães não saem por aí abaixando as calças do nada pra se aliviar, fiquem tranquilos.

No mesmo festival, o banheiro feminino não tinha divisórias e todo mundo tomava banho junto. Eu devia ter começado a notar então o que ficou bem claro depois, quando eu vivi por um ano em Berlim: os alemães têm uma relação completamente diferente com o corpo nu do que aquela que nós, brasileiros, geralmente temos. Pra eles, um corpo nu é só um corpo nu, dissociado de qualquer conotação sensual ou sexual — e esse corpo só ganha essa carga em um contexto apropriado. Fora dele, um corpo nu não significa nada: ninguém olha, ninguém repara, ninguém se importa nem em estar pelado, nem em estar rodeado de gente pelada.

Em Berlim, no verão, quando os alemães vão em bando para os lagos nos arredores andar de barco e tomar sol, todo mundo fica pelado. Homens e mulheres não se preocupam com biquíni, maiô, sunga. Nas saunas, todo mundo fica sem roupa — em alguns casos, elas são mistas. Gente pelada no metrô não é só lenda urbana e sempre tem um amigo que já viu.

Como eles não veem a nudez de maneira sexual, a pressão social pelo ‘corpo perfeito’ é menor. E dá pra entender, já que por lá, você passa a maior parte do ano com o corpo bem coberto por causa do inverno.

O nudismo sempre foi algo muito mais tolerado pelos alemães culturalmente, e há registros de grupos sociais defendendo o hábito (ou a falta dele, se a pessoa for uma freira ou um padre) desde o fim do século 19. Existe até um orgão (risos) responsável por promover o nudismo no país, a German Association of Free Body Culture, e os naturistas têm até força política (sério!). Durante o nazismo, Hitler passou uma lei pra tentar proibir essa amoralidade inaceitável. Daí, ficar pelado acabou se tornando uma forma de protesto. Com tantos banimentos, essa era a maneira que os alemães encontraram para mostrar controle, ainda que mínimo, pela última coisa que lhes restava controlar: o próprio corpo. A proibição durou um mês.

Em determinado momento da minha vida alemã, comecei a frequentar uma academia onde o vestiário feminino era uma grande profusão de corpos de mulheres nus.

Veja bem — qualquer corpo nu chama a atenção pra quem não está acostumado a ver tantos. Na Alemanha, não rola aquela preocupação em se enrolar na toalha para ir do chuveiro até o armário. Na sauna, permanecem sem roupa. E o vestiário tem uma centena de espelhos posicionados estrategicamente de maneira que, não importa onde você se esconda, alguém do outro lado do recinto vai estar vendo você pelada.

Eu era nova nesse lance de nudez e, no início, tive um monte de questionamentos sobre a etiqueta do estar pelado. Sabe, tipo aquelas regras que dizem que homem tem dentro do banheiro masculino?

Se eu ia tomar banho com todo mundo e caminhar pelada pelo vestiário, eu precisava entender o que estava dentro da normalidade pra elas. Entenda que a partir do momento em que a normalidade é todo mundo estar pelado, fica difícil estabelecer novos parâmetros. Mas eu precisava descobrir se era aceitável me secar no vestiário ou se eu tinha que me secar na antessala dos chuveiros; se eu precisava levar calcinha e sutiã pro chuveiro ou se podia colocar tudo na frente do meu armário, mesmo.

Alguns dias de observação depois, o modus operandi ficou claro. No chuveiro, as regras parecem sensatas — cruzar olhar com alguém pareceu não aconselhável, mas você pode sorrir (pelada) pra alguém que vê ali sempre, até porque não cumprimentar é mal educada. Aprendi um monte sobre os hábitos de depilação das mulheres alemãs, também: eles são bastante diversos. Tem quem tivesse pêlo em todos os lugares e quem não tivesse nada, e tava tudo bem — imagina isso no Brasil, se a moça cheia de pêlos não ia ser considerada uma doida no vestiário. A Alemanha, em geral, tem uma cultura bastante igualitária e eu acho que a sementinha do feminismo começou a germinar pra mim depois desse ano por lá.

No banho, algumas mulheres conversam enquanto peladas, mas a maioria o faz bem calada e de maneira econômica. Havia quem fechasse o chuveiro na hora de se ensaboar. Não havia um código sobre para que lado você deveria ficar virada, mas um código geral não-pronunciado era o da eficiência: entrou, ensaboou, enxaguou, saiu.

Mas havia uma mulher esquisita que, me lembro, não parecia seguir regras. Falar de alguém esquisito em um lugar em que todo mundo está pelada é, eu sei, uma demonstração maravilhosa da capacidade de adaptação do ser humano, mas divago. Essa mulher, me lembro bem, tomava banho virada pra frente, o corpo perfeitamente paralelo à parede, e com um olhar morto ela só deixava a água cair nas costas. Imóvel.

Ainda estou tentando entender se o que ela fez é socialmente aceitável em um ambiente pelado. Mas acho que não seria normal nem se todo mundo estivesse de roupa.

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