Pensei que fosse morrer

Leite-com-perismo em alto-mar


Você já teve a sensação de que estivesse fazendo algo com um potencial altíssimo de dar errado a ponto de considerar a possibilidade da sua morte?

Eu não tô falando daqueles momentos "ó as ideia, se eu morrer minha mãe me mata", tão abundantes na adolescência e que — se somados a algum bom senso e um tiquinho de sorte — acabam se tornando combustível pra roda da vida, fazem as coisas acontecerem e se tornam histórias maravilhosas em mesas de bar e em murais de Facebook. Esses riscos pequenos eu acho que a gente precisa correr, mesmo, senão de que serve a vida, né? Mas não, eu tô falando de momentos em que algo pode estar potencialmente muito errado e ficar a salvo está completamente fora do seu controle. Tipo estar em alto-mar e enfrentar ondas de quase 10 metros.

A inspiração pra cruzar do Panamá pra Colômbia de barco veio de um norueguês muito gato e muito interessante chamado Pål, que eu conheci na Cidade do Panamá em 2010. Naquela época, Pål não sabia que viraria protagonista de um funk de baixo nível cantado por um menino com nome de Pokémon em 2015 no Brasil, mas o que ele já sabia é que tinha nascido pra se aventurar. Ele foi até a Colômbia de veleiro em 2010, nos encontramos de novo em Berlim em 2013 e na semana passada ele publicou no Facebook uns vídeo-diários direto de um veleiro no mar nórdico, as gotículas de água congeladas na barba ruiva.

Consegui grana e coragem pra fazer a viagem agora, em março, e lá fui eu. Procurei um barco mais estável do que um veleiro e meu pai indicou um catamarã, que tem dois cascos e é maior — cerca de 15 metros de comprimento por uns 10 de largura, nos quais quase 20 pessoas dormem com algum conforto. Seriam cinco dias na embarcação, três dos quais passaríamos ancorados em ilhas paradisíacas no arquipélago de San Blas, entre o Panamá e a Colômbia, e dois dos quais passaríamos fazendo o que o capitão alemão, Gisbert, chamou de The Crossing e que eu vou chamar de A Travessia, pelo conteúdo já assustador do nome por si só.

Fotos do Philip Santos Moreira, luso-americano mais sorridente que já conheci. Contemplem, à direita, o Luiz, assistente do capitão que antes de viver em um veleiro era treinador de tigres. E você achava sua vida empolgante.

Nesses três dias, vimos coisas incríveis e algumas bastante aleatórias. Vou listar, pra provar meu ponto:

1. Uma ilha deserta com uma cadeira;
2. Uma faca de churrasco cravada no fundo do mar perto da praia;
3. Uma índia Kuna que, não entendi muito bem, me repreendia com o olhar toda vez que eu olhava pra ela;
4. Um veleiro bem novo e limpinho tombado de lado em cima de corais a só uns 60 metros da gente;

Antes de qualquer coisa: eu já andei de barco. Barcos pequenos, tipo lanchas, pra travessias curtas, de no máximo meia hora; barcos grandes, turísticos, onde passei algumas horas calmas durante o dia; balsas, pra travessias longas e noturnas (a do Canal da Mancha, por exemplo), mas assim, de passar 48 horas dentro de um barco tão pequeno navegando em mar aberto, não, nunca.

A ilha da cadeira
A índia de olhar reprovador e seu achu ("cachorro" em Kuna, a língua dela)

Quando o sol começou a se pôr, a velocidade do catamarã começou a aumentar e as ondas enormes começaram a se chocar contra o casco da embarcação, as cuidadosas instruções de segurança que o capitão fez muita questão de passar e repassar no primeiro dia fizeram sentido. Afinal, porque tanta ênfase na recomendação de que a gente andasse pelo deck segurando na barras laterais? Com o barco parado ou navegando em águas serenas do Caribe, de fato isso não fazia sentido. Mas quando tudo é um breu eterno, água e céu se confundem no horizonte e o barulho do choque da água contra o casco do barco não te deixa dormir a noite, bom, você pode imaginar o que acontece se alguém escorrega e cai do barco.

Eu queria que fosse possível mostrar um quadrinho tipo "o que eu achava que estava rolando" versus "o que estava rolando de verdade", porque eu fui sondar o capitão pra ver se toda aquela braveza do mar era, tipo, a maior tempestade que ele tinha pegado nos quatro anos em que fazia o trajeto Panamá-Colômbia. Sereno, ele disse que o mar estava tranquilo e que se continuasse daquele jeito, a travessia seria moleza.

Posso dizer que a única moleza com a qual tive contato foi aquela provocada pelas doses contínuas de Dramin que tomei durante as 40 horas de trajeto. Dopada, devo ter dormido por umas 30 dessas 40. Eu estava no alto de uma beliche que não tinha grades, e como não caí lá de cima, comecei a achar que ondas de 8 ou 10 metros de altura são mesmo moleza.

Falando sério, o balanço insuportável acaba virando parte da vida depois de umas 30 horas. Bem na hora que a gente se acostuma, a viagem acaba. E no fim, valeu a pena: vi paisagens paradisíacas, água muito cristalina, conheci suecos que jogavam Sueca (é sério) e descobri que quando autores de ficção mencionam uma lua cheia tão brilhante que chega a iluminar de verdade a noite, não é exagero — a gente viajou durante a lua cheia, que era nossa única fonte de luz à noite, a rolava até sombra.

A propósito, chegando na Colômbia, conheci no hostel uma americana que me perguntou se a viagem tinha sido segura. Quando expliquei que sim, que o capitão era muito cuidadoso e tal e coisa e que eu fiquei com medo por puro leite-com-perismo, ela explicou: um amigo tinha feito o mesmo trajeto duas semanas antes. Seu veleiro encalhou em um recife de corais. O barco naufragou. Tiveram que evacuar. Todo mundo perdeu tudo que estava lá dentro.

Fiquei feliz porque essa era a explicação do item 4 (e porque todo mundo sobreviveu, claro). Ainda estou esperando o universo me trazer esclarecimento pra 1, 2 e 3.

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